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POR QUE SÃO PAULO?

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o estado de s. paulo

21/07/97

 


Uma jovem, bonita, simpática e eficiente repórter da Band veio até a minha casa outro dia para me fazer uma única e intrigante pergunta:

- Por que você gosta de São Paulo?

Vai ao ar entre outros depoimentos de (segundo ela) outras "personalidades" no dia do aniversário da cidade, sexta próxima.

Parece fácil de responder em trinta segundos. Mas não é. Simplesmente porque eu não sei porque eu amo tanto esta cidade. É como uma mulher: tem umas que a gente sabe que não vai dar certo, todo mundo fala mal dela, mas a gente insiste.

Naquele tempo, diria Jesus, São paulo era tão distante de mim, quanto o espírito perfeitíssimo, eterno e criador de Deus.

Gostava de São Paulo antes mesmo de conhecer São Paulo. Morava em Lins e meu pai vinha todo mês para cá a serviço, pela Real Aerovias. Falava da cidade, da garoa, principalmente da garoa. A primeira coisa que eu goste de São Paulo foi a garoa que eu nem sabia muito bem o que era. Depois, era a cidade do Corinthians, meu time naquele tempo. E de São Paulo o meu pai levava a Manchete e o Cruzeiro que levariam ainda uns dias para chegar no interior. E o último disco do Zé Vascondelos, o humorista da época.

Sonhava com São Paulo onde já havia morado, aos três anos, numa vilinha da Cristiano Vianna. Em 66 vim para cá tomar posse no Banco do Brasil lá em Penha de França. Duvido que alguém tenha tomado o Penha-Lapa mais do que eu.

Meus sonhos com a capital, naquela época, eram pequenos. Não sonhava ainda em ser uma "personalidade" paulistana. Tudo o que eu queria era ter meu nome na lista telefônica. Para mim isso seria a conquista definitiva da cidade. Hoje faço o possível para tirarem o meu nome de lá por motivos óbvios.

Fui crescendo, virei dramaturgo (como está escrito lá na minha foto, embora não escreva nenhuma peça desde 82) e o meu sonho era ganhar o prêmio de melhor dramaturgo de São Paulo. Pois ganhei da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) em 82, com as peças de 82.

Aqui conheci a mãe dos meus filhos (pelas mãos de Samuel Wainer) e aqui meus filhos nasceram e cresceram.

Morei três vezes fora de São Paulo nesses trinta anos. Duas vezes no Rio (um ano e meio cada vez) e uma em Portugal (dois anos), mas sempre com os meus móveis e meus livros aqui. Sempre sabendo que ia voltar.

Há mais de vinte anos comprei um terreno na Granja Vianna. Faço mil planos para construir, mas penso na distância. Penso, principalmente nas noites de São Paulo, nas ruas de São Paulo, na Paulista, no centro e até mesmo na Marginal congestionada.

Fico pensando, afinal, qual é o fascínio dessa cidade para todos nós, dez milhões, que moramos aqui, se cada dia tem uma enchente, cada dia tem uma chacina, cada dia tem uma bala perdida, cada dia tem milhares e milhares de assaltos, uma cidade que já me roubou dois carros e me trancaram em banheiros de bares outras duas vezes? Uma cidade em obras permanentes. Desculpem o transtorno, mas estamos construindo uma cidade melhor. Até quando, negro gato?

Qual é a dessa cidade, Loyola?

Adoro passear de carro por bairros distantes, conhecendo lugares onde nunca convivi. Adoro a Paulista, de noite, com chuva, principalmente se consigo colocar no gravador Yellow Submarine com os quatro meninos de Liverpool.

Adoro ir ao Pacaembu, qualquer que seja o jogo. Adoro a comida de São Paulo. Depois de morar no Rio, a gente sente saudade do tempero daqui.

Estava escrevendo esta crônica quando uma amiga minha, também do interior, mas morando aqui há muito tempo, me ligou só para dar um beijo (oito da manhã!) e conto que estou escrevendo uma crônica tipo "porque amo São Paulo", ela riu e disse:

- Mas que crônica mais piegas!

Voltei para a máquina e reli tudo. Realmente a Denise tem razão. Tá piegas. Mas acho que ela matou a charada. É isso: São Paulo é uma cidade piegas. Como todos nós que moramos aqui. Principalmente para nós que não nascemos aqui e a escolhemos para viver e criar raízes.

Alguma coisa acontece no meu coração quando eu cruzo uma porção de avenidas.