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POR QUE O PENICO CAIU EM DESUSO?

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o estado de s. paulo

20/03/95

 


Acho que foi o bom amigo e baiano João Ubaldo Ribeiro quem escreveu outro dia, aqui, no Estadão, contando das agruras de um escritor famoso que passa os dias a dar entrevistas. Sobretudo, sobre tudo.

Não sou tão famoso assim e nem mesmo imortal como ele, mas caio sempre nas mesmas interrogações dos colegas da imprensa. Desde que os jornais inventaram as enquêtes (assim mesmo, com circunflexo) que a gente vem sofrendo com este terrível assédio. Perguntam de tudo para a gente sem antes perguntarem se entendemos daquele determinado assunto. Ou mesmo, sem antes indagarem educadamente se estamos disponíveis naquele momento.

Juro que um dia uma rádio me ligou perguntando o que eu achava da dor do parto. Diante do meu parturiente susto, disseram que sabiam que eu havia participado do parto dos meus dois filhos. Preferi falar da dor de pedra nos rins, uma dor mais próxima ao meu útero.

Outro dia a Bandeirantes queria saber a minha opinião sobre a ressaca. Queriam vir à minha casa de manhã, para gravar a entrevista. Logo percebi que eles não entendiam nada mesmo de ressaca.

Agora o problema é a Síndrome de Pânico. Como dei uma entrevista (que eu não deveria ter dado) para a revista Istoé, agora todo mundo me liga, deixando-me, literalmente, de pânico. Será que não tem mais ninguém por aí, com pânico?

Um dia a Playboy me ligou: queria saber como foi a minha primeira vez. E eu perguntei: a quem interessa isso? Outra menina queria saber se eu prefiro calcinha branca, preta ou vermelha. Logo eu, que nunca usei calcinha. Uma outra queria que eu completasse a frase: "amar é..." E eu disse: "amar é f..." Ela disse que isso ela não podia publicar, embora tivesse me achado muito inteligente.

A Sylvia Popovic, minha amiga, queria que eu fosse no programa dela, cujo tema era "eu tive várias mulheres". Na verdade tive apenas duas e tenho o maior respeito por elas, para ficar comentando isso às cinco da tarde na televisão dos outros.

Tinha aquele que queria saber se eu era mais Gerald Thomas ou Zé Celso. Romário ou Bebeto? Edmundo é psicopata? O que você acha dos 100 primeiros dias do Fernando Henrique? Você acha que deveriam proibir o cigarro nos restaurantes?

Meu Deus, quem sou eu para ficar afirmando estas besteiras todas? O que eles e elas acham que nós somos? Uma enciclopédia ambulante, um céu é o limite?

Se eu compraria um carro conversível? Ou mesmo, qual será o meu próximo carro? E, depois de passar dois anos em Portugal, todo mundo queria saber de mim se os portugueses são mesmo burros. Claro que não, minha senhora. Ou será que a senhora se esqueceu que todos nós temos um pé (ou dois) lá do outro lado? É tudo uma questão de lógica.

Se eu sou a favor da pena de morte? Se eu acho que o O.J. Simpsom é culpado? O que é que eu acho do campeonato paulista por pontos corridos? De quem foi a culpa da morte do jogador Denner? Qual o melhor Bingo de São Paulo? Onde o senhor vai passar a semana santa?

O que você acha da cozinha da Pousada Alcobaça em Petrópolis? A feijoada de lá é mesmo a melhor do Brasil? Como? Se eu acho que a universidade deveria ser paga? O que eu acho do curso primário no Brasil? Por que o penico entrou em desuso? O senhor usa camisinha? É a favor do amor livre (como se existisse algum amor preso)? É bom ser famoso?

Eu dizia lá atrás que não sou tão famoso como o Ubaldo, mas já fui. Isso quando escrevi Estúpido Cupido para a Globo. Era jovem, tinha 29 anos e a emissora resolveu investir na minha cara e imagem. Era um horror até mesmo ir a um supermercado. Uns dois anos depois, fora do ar, já podia sair mais calmamente da minha casa. E um dia, lá em Lins, fui com o meu pai a uma farmácia. A mocinha ficou a olhar de longe para a minha cara, chamou outra, discutiam-me. Meu pai disse: te reconheceram. Eu respondi: imagina, ninguém se lembra mais de mim. Mas a mocinha, caipira e modesta, cautelosa e intrigada, veio se aproximando e fez a pergunta que um dia alguém ainda vai me fazer por telefone, numa entrevista:

- Desculpa, mas o senhor não era o Mario Prata?