MONTEVIDÉU - É assim que eu estou me sentindo. Tudo esparramado pelo
apartamento depois de 20 dias no Uruguai. Pondo a viola no saco.
Na hora do último pênalti, um uruguaio me abraçou,
gritando o título conquistado. Disse para ele que era brasileiro, ele se
afastou um pouco, me olhou nos olhos, me abraçou de novo e disse: somos
todos irmãos. E me sapetou o beijo na testa.
Assim são os uruguaios. Irmãos.
Preguiça de arrumar as malas, pensando no Túlio, bom de
mão e de barriga, mas com o pé torto, infelizmente.
Vontade de ficar mais aqui com esses irmãos.
A festa deles foi bonita, pá. Era impossível sair à rua na
noite de domingo. Bandeiras, buzinas, fogos. Ganharam dos campeões do
mundo, diziam. Ganharam do único tetra, o Zagalo, o grande penta.
O que pouca gente no Brasil sabe é que a passagem de avião
para cá é mais barata que para Belo Horizonte, por exemplo. São duas
horas e pouco de vôo.
A paz e a tranquilidade do país, tão pertinho daí, é
contagiante. Como faz bem olhar as casas e os prédios sem grades na
frente. São poucos os roubos. E não se mata para roubar.
As pessoas aqui sentam-se nas pracinhas e namoram. Sabem
que ninguém vai incomodar. Famílias passeam pelas ruas de noite. As
pessoas são bem vestidas, não há miséria. São alegres, felizes.
Cultos, informados. Num
país
com
três
milhões de
habitantes, existem 33
jornais
diários. E uma
infinidade de
revistas. O analfabetismo é de
apenas 5
por
cento. Tem
um
médico
para
cada 300
pessoas. E come-se
bem,
muito
bem. E o escocês
custa
pouco
mais de
um
real. E
não é paraguaio.
Odeiam os argentinos, como nós. Um dia vou pedir ao meu
amigo brasilinista que faça um ensaio sobre esse ódio que os argentinos
despertam no resto na América Latina. Uma certa arrogância, seria? Será
que eles se sentem mais europeus que a gente? E qual é a vantagem de ser
europeu? Os sérvios também são.
Vontade de ficar, trabalhar aqui, passear pela rua, acabar
de ler o livro do Cafú (Mauá) sentado num banquinho verde de madeira com
a luz de um poste de ferro, daqueles antigos.
Olho a desarrumação do meu quarto. Preguiça. Porque fui
comprar tanta coisa? Vai caber, agora? E a garrafa de uísque pela
metade? E aquele par de luvas, vou usar no Brasil?
"No más", dizia a crupiê do Cassino de Carrasco. Não mais.
Acabou-se o que era doce. É hora de colocar a viola no saco e fumar o
último Nevada aceso com um fósforo Zebra. A zebra do Zagalo.
Não vi os penaltis. Para mim bastaram aqueles contra a
Itália, lá em Los Angeles. Fui para fora, beber uma cervejinha. Ouvia os
gritos. Deles. Arrisquei ver o último, antes de ganhar aquele abraço.
A festa foi bonita, pá.
Fiquei contente com a vitória deles. Como eles ficariam
com a nossa.
Levo daqui um beijo estalado na testa, de um beijoqueiro
anônimo e irmão.
Parabéns Uruguai! Vocês merecem, humildes pescadores de
almas latino-americanas.