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PONDO A VIOLA NO SACO

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o estado de s. paulo

11/08/95

 


MONTEVIDÉU - É assim que eu estou me sentindo. Tudo esparramado pelo apartamento depois de 20 dias no Uruguai. Pondo a viola no saco.

Na hora do último pênalti, um uruguaio me abraçou, gritando o título conquistado. Disse para ele que era brasileiro, ele se afastou um pouco, me olhou nos olhos, me abraçou de novo e disse: somos todos irmãos. E me sapetou o beijo na testa.

Assim são os uruguaios. Irmãos.

Preguiça de arrumar as malas, pensando no Túlio, bom de mão e de barriga, mas com o pé torto, infelizmente.

Vontade de ficar mais aqui com esses irmãos.

A festa deles foi bonita, pá. Era impossível sair à rua na noite de domingo. Bandeiras, buzinas, fogos. Ganharam dos campeões do mundo, diziam. Ganharam do único tetra, o Zagalo, o grande penta.

O que pouca gente no Brasil sabe é que a passagem de avião para cá é mais barata que para Belo Horizonte, por exemplo. São duas horas e pouco de vôo.

A paz e a tranquilidade do país, tão pertinho daí, é contagiante. Como faz bem olhar as casas e os prédios sem grades na frente. São poucos os roubos. E não se mata para roubar.

As pessoas aqui sentam-se nas pracinhas e namoram. Sabem que ninguém vai incomodar. Famílias passeam pelas ruas de noite. As pessoas são bem vestidas, não há miséria. São alegres, felizes.

Cultos, informados. Num país com três milhões de habitantes, existem 33 jornais diários. E uma infinidade de revistas. O analfabetismo é de apenas 5 por cento. Tem um médico para cada 300 pessoas. E come-se bem, muito bem. E o escocês custa pouco mais de um real. E não é paraguaio.

Odeiam os argentinos, como nós. Um dia vou pedir ao meu amigo brasilinista que faça um ensaio sobre esse ódio que os argentinos despertam no resto na América Latina. Uma certa arrogância, seria? Será que eles se sentem mais europeus que a gente? E qual é a vantagem de ser europeu? Os sérvios também são.

Vontade de ficar, trabalhar aqui, passear pela rua, acabar de ler o livro do Cafú (Mauá) sentado num banquinho verde de madeira com a luz de um poste de ferro, daqueles antigos.

Olho a desarrumação do meu quarto. Preguiça. Porque fui comprar tanta coisa? Vai caber, agora? E a garrafa de uísque pela metade? E aquele par de luvas, vou usar no Brasil?

"No más", dizia a crupiê do Cassino de Carrasco. Não mais. Acabou-se o que era doce. É hora de colocar a viola no saco e fumar o último Nevada aceso com um fósforo Zebra. A zebra do Zagalo.

Não vi os penaltis. Para mim bastaram aqueles contra a Itália, lá em Los Angeles. Fui para fora, beber uma cervejinha. Ouvia os gritos. Deles. Arrisquei ver o último, antes de ganhar aquele abraço.

A festa foi bonita, pá.

Fiquei contente com a vitória deles. Como eles ficariam com a nossa.

Levo daqui um beijo estalado na testa, de um beijoqueiro anônimo e irmão.

Parabéns Uruguai! Vocês merecem, humildes pescadores de almas latino-americanas.