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Plínio Marcos

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o estado de s. paulo

20/11/99

 


A primeira vez que eu o Plínio ele estava numa mesa do Redondo, aquele bar redondo que fica na encruzilhada da Ipiranga com a Teodoro Bayma. Era 1969 e ali um dos pontos mais intelectualizados de São Paulo. A cinco metros do teatro de Arena, onde tudo acontecia. Onde, naquele mesmo ano assisti, junto com o pessoal do Arena, o último bonde subir a Consolação.

Ele estava no auge com as peças de teatro. E ainda era artista da novela da época, Beto Rockefeller. E eu era um moleque que estava pensando em escrever alguma coisa. Tirei da bolsa o meu primeiro e mimeografado livro, caprichei na dedicatória e na letra e me apresentei e dei pra ele.

No dia seguinte, fiquei sabendo que ele esqueceu o livro em cima da mesa, de madrugada. Quem me contou foi uma namorada comum. Odiei o Plinio. Por poucas horas. Naquela mesma noite assisti Dois Perdidos Numa Noite Suja, ali, do lado daquela mesa, no Arena. Ainda não tinha terminado o chocante palavreado no palco e eu sabia que a minha vida nunca mais seria a mesma. Pretensamamente resolvi ser um dramaturgo. Percebi que dava para colocar os brasileiros no palco. Mesmo se considerando que o AI-5 não tinha nem seis meses de estrago.

De tanto jantar no Gigetto, acabei ficando amigo dele. Nunca íntimo, mas sempre respeitoso.

Depois, em 74/5 trabalhamos mais de um ano numa mesma sala na redação da Última Hora do genial Samuel Wainer, da gracinha Marta Góes, do hilário Antonio Contente, do fofoqueiro Nelson Rubens, da grega colunista Alik Kostatis, do já careca Giba Um, do pequeno príncipe Celsinho Curi, do poeta Jorge da Cunha Lima, da vaporosa Maria Helena Amaral, da elegante Sheyla Leiner, da estonteante Néscia Leonzini, do ator Ênio Gonçalves, da escandalosa Márcia Sauchella, da magrinha Valéria Garcia, da política Haideé Cardoso, do espevitado Zequinha (o boy, filho da minha empregada), da camioneira Janete Gutierrez, da calma diagramadora dona clara, do belíssimo Hélio Campos Mello (que foi mandando embora poque fotografou os seios na namorada do Samuel), do calmo Oswaldinho Mendes, do oriental Takao, da minha comadre Joanna Fomm, do crítico Alberto Guzik, do português João Apolinario, do agitadíssimo e agitador Dario Menezes. E a futura esposa e companheira Vera Artaxo.

O Plínio não escrevia uma linha na redação. Chegava com a coluna dele datilografada, de casa. Escrevia a mão e a então esposa, a atriz Walderez de Barros é quem datilografava. E o Plínio ficava o dia inteiro, de mesa em mesa, contando histórias. Um grande, imenso contador de histórias. Para ótimos ouvintes, diga-se de passagem entre uma Remintgon e outra. E quando ele não pintava, mandava o filho, um garotinho chamado Léo.

A partir dos anos oitenta, sempre que a gente se encontrava ele me chamava de Mario Pratas. Ou Pratas, simplesmente. Aquilo foi criando uma paranóia em mim. Ficava pensando: será que ele nunca leu nada meu, nunca viu o meu nome escrito por aí?

Até que um dia, dei um toque nele: é Prata!. Prata, não tem s.

Estávamos os dois na sala do secretário da cultura do estado, o Fernando Morais, autor dessa minha foto aí. Eu, na qualidade de assessor de teatro do Fernando e ele na qualidade de pedindo dinheiro. Demos o dinheiro para a montagem de uma peça dele. Orgulhosamente.

O Fernando está de terno e gravata, como convém a um secretário de estado. Eu só de paletó, como convém a um assessor. O Plinio, de bermuda velha e suja e sandálias havaianas, como convinha a ele. Fora o crucifixo.

- É Prata!, reiteirei.

- É Pratas, ele retrucou.

- Mario Prata! Prata!

- Como, Prata? Você escreve cinema, teatro, televisão e livro, meu! São vários Prata. Mario Pratas, sacou?

Bem, eu disfarcei pra não chorar. Acho que o Fernando nem percebeu o papo. E ele ainda completou:

- E ainda me dá dinheiro pra montar meu pagode, pô! Pratas! Pratas de Lei!

Se eu era pratas, ele era marcos. Ele não foi um marco só. Foram vários. Muita gente se esquece dele no Beto Rockfeller. Aquele jeitão de interpretar mexeu com a cabeça de muito ator que estava começando. Mas nenhum deles tinha a ginga do estivador, o drible do ponta-esquerda ou a graça de um palhaço de circo.

Ninguém infernizou mais os censores militares do que o Plínio.

- Apanhei muito deles. Mas bati, também!