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Pharmacias & paraphernalias

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o estado de s. paulo

16/11/98

 


Eu não afirmaria que sou um viciado em farmácia. Mas gosto. Afinal, sem ser nenhum doente crônico (isso dá crônica?) morei os meus primeiros nove anos ao lado de uma famácia, em Lins, interior de São Paulo.

Seu Alcides, o farmacêutico, aplicava injeção como ninguém. Talvez, por isso, nunca tenha tido traumas com as picadas. Seu Alcides já morreu há muito tempo, como morreram aquelas velhas farmácias, verdadeiras boticas, com aquelas escadas de madeira com rodinha lá em cima.

Gostava de ver o seu Alcides subir para pegar o remédio lá no alto, perto do céu, pensava eu. Mais tarde, já adolescente, gostava mais quando a filha dele, a Zélia, subia no capricho dos requebros, dentro dos seus 16 ou 17 anos, coxas roliças, cintura cobiçada, remédio para qualquer dor, imaginação de injeção na bundinha. Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal.

Já não se fazem mais farmácias como antigamente, onde, além do remédio para a cabeça doída nos traziam outras imagens à cabeça já aliviada. O mundo mudou e me irrita profundamente ver farmácia vendendo até cachorro-quente. Batom, tudo bem. Mas chicletes? Xampú, vá lá. Mas sorvete?

Onde andam as filhas do seu Alcides hoje em dia? Em que mundo, em que prateleiras de peroba se escondem, embuçadas nas escadas que nos levam ao passado e ao futuro?

Sim, será que no futuro, vamos ver alguma calcinha no alto da nossa imaginação com dor de cabeça ou frieira nos pés? Duvido.

Pensando na Zélia, pensei na farmácia do futuro, sem Zélia, sem a calcinha da Zélia, sem a dor de cabeça boa que ela dava na gente.

 

Descrição (e discrição) do atendimento de uma farmácia no futuro (mais ou menos 2.099):

Carlota, 32 anos, é uma consumidora normal, absolutamente igual a tantas como ela. Casada, dois filhos, meio gordinha, psicóloga, brasileira. Entra, cumprimenta o farmacêutico, fica sabendo que a família dele vai bem, senta-se, ele fecha a portinha. Carlota fica lá dentro. Pareceria, para alguém do passado, uma cápsula, nunca uma escada. É isso, uma farmácia, no futuro. Nada de prateleiras, luzes de neon, vários auxiliares de farmacêuticos. Nada de Melhoral.

Carlota já conhece a máquina. Desde pequena, frequenta farmácias. Tem gente - não é o caso dela - que é viciada. Não, Carlota não é nenhuma hipocondríaca. Carlota é uma pessoa normal. Como é normal a maioria das pessoas que entram naquela cápsula, escada do futuro, por um motivo ou outro.

A máquina reconhece Carlota. Já tem computadorizada toda a vida dela. Tudo aparece no painel. Inclusive suas idas à farmácia nos últimos cinco anos. Agora o painel diz a ela do que ela está precisando naquele momento, fornecer o peso, a altura, a pressão:

- dipropionato de beclometasona, 50 mcg,

- clearance plasmático,

- álcool, 1 ml,

- cannabis sativa, 23 mg,

- e um torturante bandeide no calcanhar.

E ainda um aviso: o viagra do seu marido está acabando.

Como uma fumaça, a coisa entra no ar, nos poros dela. Do lado, de um furinho, sai a conta, ou melhor, uma cópia da conta dizendo que já foi debitado tanto na conta dela, no banco. E o banco já pagou uma indústria lá do Alaska, que forneceu o dipropionato e outra do Arkansas que entrou com o tal do plasmático. Acertou também com a Bolívia. E o farmacêutico, que domina os botões, recebeu a sua gorda porcentagem.

Ela sai. Claro que a máquina aproveitou os 28 segundos com ela lá dentro e lavou, secou e penteou os cabelos dela. E fez as unhas. E os pés. E, de quebra, passou um desodorantezinho seco nela.

Um aviso ao lado da máquina:

Esta máquina deve ser mantida fora do alcance das crianças. (e da Zélia, diria eu)