Tem coisas que não dão certo. Já falei aqui sobre perucas. Ainda existem
homens que insistem. E todos dizem a mesma coisa: o careca vira ponto de
referência para localizar alguém em algum lugar. Numa fila, por exemplo.
“Tá vendo aquele careca? O segundo, depois dele”. Aí o sujeito coloca uma
peruca e a pessoa fala: “Tá vendo o cara de peruca? Dois depois dele”.
E agora as pessoas resolveram usar botoques (botox, em
inglês). Eu digo pessoas e não apenas as mulheres porque tem muito
marmanjo por aí esticando a pele, disfarçando as rugas, querendo ficar
rapazinho de novo. E estão todos e todas, passando pelo mesmo
constrangimento: “Tá vendo aquela de botoques? Duas depois dela”.
Além de trazer vários problema paralelos. Se uma pessoa
coloca botoques na testa você nunca mais vai saber se ela está preocupada
ou não. Aquilo fica uma superfície de marfim esmaltado que brilha, reluz.
Preocupante. Tem umas que fazem ao lado dos lábios. Jamais saberemos se
ela está sorrindo um chupando uma uva.
Mas o pior é que o efeito dura apenas seis meses. Isso
significa que aquelas rugas que a mulher cultivou em sessenta anos de
vida, dia a dia, agora surgem no espelho a cada seis meses, de cara. Quem
é que ganha com isso, fora os aplicadores de botoques? Se envelhecer em 60
anos já não foi (fisicamente) tão agradável, imagine em seis meses, minha
senhora.
Como sempre, invenção daquelas loiras americanas. O botoques
que é bom para as americanas é bom para as brasileiras, já dizia alguém
nos anos 60.
Só que aqui no Brasil botox é botoques e, se esticarmos os
olhos até o dicionário, vamos deixar a nossa testa enrugada de
preocupação.
Tá lá. Botoques: rolhas que vedam
orifício no bojo de pipas, barris e tonéis; bujão, esquiça. E o que é
esquiça? Rolha...
Quer mais? Botoques:
pequenos orifícios circulares feitos na orelha
da rês para marcá-la.
Mas botoques ainda podem ser
muito mais coisas. Pode ser, por exemplo, o esporão do galo e até mesmo um
indivíduo gordo e baixinho.
E sabe aquelas “peças arredondadas de madeira, pedra ou
concha, usada como enfeite pelos botocudos e outros indígenas
sul-americanos, que as introduzem em furos feitos no lábio inferior ou nos
lóbulos das orelhas”? Também se chamam botoques...
E você, minha senhora, que está me lendo agora tentando
franzir a testa e não está conseguindo, não fique chateada comigo. Por
que, do alto dos meus quase sessenta, e também meio enrugadinho, posso
lhe garantir que ruga não é um bicho de sete cabeças. Nem de sete testas.
Faz parte. Denotam no seu rosto – no mínimo – uma certa sabedoria, uma
certa vida vivida, um conhecimento do mundo, um prazer de estar vivo.
Não vamos esconder nossas preocupações e muito menos nossos
sorrisos. Vamos enfrentar a velhice que se aproxima de cara limpa. Sem
metamorfoses. me lendo agora tentando franzir
a testa e nox botocudas?essenta anos de vida, dia a dia, agora surgem no
espelho em seis meses