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PERNAS, PRA QUE TE QUERO?

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o estado de s. paulo

1999

 


Almoçava dias desses com a dona Dídia, 70 e uns anos. Ela odeia dizer quantos anos tem e não vai gostar disso. Minha mãe. Diz que já está quase com a minha idade. E dizia, todo modernoso, da minha atual relação com o meu Banco.

Instalei um Micro que me leva diretamente, via computador, a tudo que eu tenho direito no Banco. Transfiro dinheiro da minha conta jurídica para a física, passo DOCs, pago o seguro saúde, o aluguel, faculdade do filho, requisito cheques, desbloqueio cheques, talões esses que vêm pelo Correio. Enfim, é o fim da fila. Podem reparar que na fila do Banco. Só tem boy.

- Tudo isso, mãe, sem sair do escritório, em casa.

- Pois é isso que me preocupa, meu filho, disse com lucidez. Você já ficava sentado o dia inteiro, agora então... E a saúde?

- A senhora acha que ficar horas numa fila num Banco é exercício?

- Acho!

E calou-se em sua sabedoria mineira e eterna.

Eu, já me vendo meu corcunda daqui a uns anos, fiquei pensando no assunto o dia inteiro.

Cinema já não vou há muito tempo. Alugo e fico ali sentado assistindo, sem pulgas e parladores em geral. Gosto de pedir uma comida chinesa no Lig-Lig. Só me levanto para entregar o cheque ao motoqueiro todo molhado.

Super-mercado eles já trazem em casa. O boy do meu contador (que insiste em ser chamado de visitador) vem aqui pegar as notas fiscais. Meu médico é meu amigo. Quando a coisa complica ele vem até aqui.

Sair mesmo só para festas e bares. O cabelo corto fora, mas é só duas vezes por ano. No bar, fico sentado. Antigamente, nas festas, tinha lugar para todo mundo sentar. Já reparou que nas festas de hoje fica todo mundo em pé, andando de um lado para o outro, meio sem saber onde ir, balançando o copo? Já é um pequeno exercício.

Mas mesmo nas festas e coquetéis, aprendi com o meu sempre mais inesquecível Samuel Wainer:

- Toda festa ou coquetel tem pelo menos uma coluna. Tem que achar a sua e ficar ali. Deixar que os garçons passem por você. E os amigos também.

E é assim que eu faço. Chego no local e vou logo escolhendo a minha coluna. Pode ficar tranquilo que todo coquetel tem pelo menos duas colunas. O Samuel sabia das coisas. Não sei, porém, se faz mal à coluna.

Depois de pensar estas besteiras, todos comecei o raciocínio seguinte: viveremos mais ou menos? Desde que existe a humanidade, a medicina tem avançado e cada vez o homem vive mais. E daqui para a frente, com essa Internet toda? Claro que não vou ao Correio há muito tempo. Navego nos textos para os amigos e até com desconhecidos. A enciclopédia e o dicionário estão embutidos no meu computador. Nada de escalar estantes.

Não ando de bicicleta nas ruas. Tenho a minha ergométrica que, aliás, tem-me servido mais de cabide aqui no escritório. Caminhar pelo Ibirapuera? Pra que, com a esteira dentro de casa?

Meus livros, novelas, etc, mando para a editora apertando dois botõezinhos aqui no computador. O que alivia também o trabalho do boy. Aliás, com tudo isso e mais o velho fax, muito boy deve ter perdido o emprego.

Esta crônica, por exemplo. Nem eu levo, nem eles pegam aqui. Vai pelo fax-modem. Direto para o computador do Estadão.

Mas vai ficar a pergunta no ar, como nas ondas da Internet. Com essa evolução toda, daqui para a frente, vamos viver mais ou menos?

Acho que não seria exagero dizer que estamos voltando à época das cavernas. Estamos transfomando nossa casa em uma caverna. Logo logo seremos novamente macacos ciber e internéticos e só levantaremos para dar cacetada na cabeça dos outros.

E exercício mesmo, mãe, só para fazer amor. Não há máquina que substitua a dor e o prazer.