Em 1966, tinha eu vinte anos e chegava do interior, em São Paulo.
Inocente, puro e besta. Tomei posse o Banco do Brasil (na Penha!) e fui
morar num quarto com banheiro lá no Tatuapé, atrás do campo do Timão.
Vestibulando e duro. Mulher, nem pensar. Naquele tempo, já
dizia Jesus a seus discípulos, mulher só pagando. Só profissional, meu
filho. Namorada era, no máximo, beijinho. E isso depois de muitos meses
de bom papo (com Halitol), bala Pipper e filme do Mazzaropi.
Como eu resolvia aquele quase priapismo, típico da idade?
Fazia justiça com as próprias mãos. Para isso comprava a Manchete onde,
toda semana, saia uma propaganda de meias para serem usadas com
minissaia, o coqueluche do momento. Era um par de pernas que eu nunca
tinha visto nada igual na minha vida. Perfeitas, longas, inacabáveis.
Antes de acabar, passava por uma liga vermelha (como o corpete) onde
estava enfiada uma desafiante rosa da mesma cor e um revólver já
disparado soltando fumacinha. Aquilo resolvia a minha vida. Era tudo o
que eu queria enquanto estudava para ser economista.
Anos, muitos anos depois, já jornalista e escritor, depois
de muito tentar, consigo começar a namorar uma dramaturga (que nome!)
brasileira famosíssima e linda. E, na primeira ida à sua casa, nervoso,
sem saber - literalmente - onde pôr as mãos, deparo com o que? O que?
Aquelas pernas, emolduradas na sala. Aquelas, as minhas pernas. E
pergunto:
- O que essas pernas estão fazendo aqui?
Ela, enrolando:
- São minhas, do tempo que eu era manequim do Denner.
Está entendendo o que estava acontecendo com aquele
masturbador anônimo de 66? Estava ali, diante das pernas. Fiquei tão
nervoso, tão nervoso que não sabia mais o que dizer, o que fazer. Só
tinha uma coisa na cabeça: eu não vou conseguir, eu não vou conseguir.
Era demais pra mim
- Desculpa, mas eu sou impotente!
E sai correndo, morrendo de vergonha. Eu jamais
conseguiria colocar um dedo siquer naquele material.
Dias depois, ela me convida para ir até o apê dela. Entro.
Ela estava de minissaia, liga vermelha, rosa vermelha e um revólver na
mão.
- Entra que eu resolvo o seu problema de impotência!
Grande dramaturga, grandes pernas!