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PERGUNTEM AO MATEUS

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o estado de s. paulo

14.7.94

 


NELSON RODRIGUES, enquanto cronista esportivo, mantinha uma coluna na revista Manchete Esportiva com o título "O personagem da semana''. talvez um aperfeiçoamento carioca do "Meu tipo inesquecível', da Seleções (in)Digest. Os personagens do Nelson eram quase que invariavelmente os jogadores que haviam se destacado durante a semana. Foi ali que Pelé foi chamado de Rei pela primeira vez foi ali que Didi foi alcunhado Príncipe Etíope.

Depois de 40 dias acompanhando a Copa do Mundo, não vou resistir a escolher o meu personagem inesquecível. Romário? Parreira?

Não. Absolutamente não.

Meu personagem é americano e chama-se Matthew Shirts, born in Califórnia. Mas atende por Mateus nos bares e nos lares da Vila Madalena, em São Paulo, onde aprendeu a entornar uma caipirinha e a fazer filhos. Não é à toa que o Secretário da Cultura, Ricardo Othake, o chama de "o americano que bebe". Bebe Brasil, eu acrescentaria.

Matthew formou-se em História na Universidade de Stanford (lá mesmo onde o Brasil começou) e pós-graduou-se em Brasil em Berkeley, do outro lado de San Francisco. Um dia foi para o Brasil escrever uma tese sobre os poetas paulistanos entre o Modernismo e a Geração de 45. Só um americano para se preocupar com essas sutilezas da nossa língua pátria. Conheceu a Silvia, a cachaça, o Corinthians. Ficou com a nossa ginga, a nossa finta, a nossa pinta.

Mateus conquistou os leitores do Estadão com suas crônicas, me informa o Maranhão. E aqui conquistou de vez os brasileiros e impressionou os americanos. Foi motivo de matéria de primeira página no caderno de esportes de um jornal de San Diego, algo como ''um americano cobre a copa para os brasileiros". Ao entrar nos bares freqüentados por jornalistas brasileiros por aqui, é saudado com entusiasmo. Virou ponto de referência: ''perguntem ao Mateus", ''O Mateus disse que...". Outro dia vi um importante jornalista dizendo, com uma convicção impressionante numa mesa, que a estrada tal era imperdível. Perguntei se ele conhecia a estrada. Ele: ''o Mateus que disse", sem saber que eu conhecia o meu personagem preferido.

E ninguém chorou mais que este americano pelo Brasil. Ao chegarrnos na Universidade de Stanford, para o decisivo e nervoso jogo contra os Estados Unidos, e ao estacionar o carro um pouco longe do gramado onde ele jogava futebol há quinze anos atrás, perguntei se ele iria se lembrar do local na saída. Ele apontou para o chão cheio de folhas secas e me perguntou: "sabe quantas vezes na minha vida eu já passei por aqui de bicicleta?". Senti que ele conhecia a região. Na hora do jogo contra os seus estados unidos (assim mesmo, com minúsculas), ele chorou duplamente. Uma vez em cada hino, um pouco por cada país. Mas torceu mais que qualquer brasileiro pelo Brasil, lamentando apenas que o seu Viola não estava no seu campinho de pelada e o Marcelinho Carioca tinha ficado em São Paulo.

No dia do jogo contra a Holanda não fomos para Dallas. Assistimos ao jogo no meu quarto em San Francisco, junto com o Paulo Caruso. Só que o Mateus chegou no quarto com a camisa amarela, o boné e uma bandeira brasileira enorme que ele arrastava há 40 dias pendurada no pescoço, como quem carrega o Brasil, sozinho, nas costas. Tomou meia garrafa de uísque, nervoso, andando pelo quarto.

Depois da sensacional vitória, saímos para a rua cheia de ventos de San Francisco. Não havia mais brasileiros no pedaço. Mateus, bebadamente correto, chorava abraçado num poste da O'Farrell com a Mason Street. Os americanos passavam em suas limusines, viam aquele brasileiro ali e gritavam alegres: Brassil, Brassil! E o Mateus, abraçado no poste como se estivesse abraçando todo o Brasil, balbuciava para si mesmo, com os olhos vermelhos: "três a dois, foi demais! Três a dois, foi demais!"

Eu não ousaria dizer que o Mateus do Bar do Marquinho, o Mateus da Rua Simpatia, o Mateus do PéPrafora, o Mateus, amigo do Reinaldo, do Marcão, do doutor Samuel, o Mateus pai do Lucas e da Maria, o Mateus, eu não ousaria dizer que ele foi o mascote da nossa torcida, porque ele tem um metro e oitenta e cinco. Mas posso dizer que, com o Mateus, aqui, longe do Brasil, com o Mateus, eu aprendi a respeitar muito mais os Estados Unidos e amar mais, muito mais, o Brasil.

Matthew Shirts me ensinou a suar a camisa do Brasil.

A mesma camisa que ele carrega no peito, no coração e no sobrenome, pondo a boca no trombone...