MONTEVIDÉU - Bonitas, escandalosas e cafonas são as estolas, os casacos
de peles das senhoras uruguaias. Fico olhando e imaginando quantos
bichinhos não foram mortos para aquecer as nossas amigas cá dos pampas.
Aqui, cabelo também se chama pêlo. E eu, que ando coçando um pouco por
acá, fico a pensar em pêlos. Nos pêlos nossos, humanos.
Adoro pensar besteiras. Besterias que você lê, têm uns que
até gostam e escrevem cartas. Você é tão doido quanto eu. Você já deve
ter percebido que eu só escrevo besteiras. E você continua a me ler. E,
ainda por cima, ri. Acho que você está é me gozando.
Mas, voltemos aos pêlos. Acho que, através dos pêlos,
podemos, mais ou menos, saber a idade do ser humano. Senão, vejamos.
Nascemos sem nenhum pêlo no corpo. A coisa então começa
pela cabeça. Os primeiros cabelos. Uma sobrancelha aqui, outra ali,
fininhas. E cílios. Depois há um período grande onde não nascem mais.
Vai passando o tempo e começam a aparecer pelos nos peitos, nas axilas,
na região, digamos, pubiana. Os pêlos invadem nossas pernas. Já somos
adolescentes e quase macacos. Nas mulheres o processo é mais discreto,
mas mesmo assim algumas ganham cinco ou seis pelinhos desagradáveis em
torno do bico do seio. Como também, em algumas, desce um pequeno
riozinho entre o umbigo e mais lá embaixo. Mas este, são altamente
estimulantes.
Já estamos mais um pouco grandinhos e começam a nascer
cabelos dentro do nariz da gente. Não há tesourinha que resolva. Cortas
coca, a gente espirra. Quando você começa a se habituar com os do nariz,
surgem os últimos pelos no homem: dentro da orelha. É um horror, aquilo
saindo para fora. Pronto, você já é um homem maduro, com todos os pêlos
que tem direito. Nos anos 60 você teria tudo para fazer sucesso na peça
Hair.
Aqui começa outra fase. É a do embranquecimento. O
processo acompanha a mesma ordem. Começa pelos pêlos da cabeça e vão
descendo, às vezes, numa velocidade alucinante. É quando os garotos na
rua deixam de te chamar de "tio" e passam a chamar de "vovô". É duro,
mas é a branca realidade. Quando os cabelinhos do nariz começamm a ficar
brancos, é que você já passou dos quarenta. E eles são terríveis. São
mais duros e retinhos. Saem para fora, invadindo o bigode que também já
começa a ficar branco. Dizem que os pentelhos seriam os últimos a ficar
brancos. Mentira. Temos aqueles lá na orelha esperando o momento da
senilidade pilosa. Quando os da orelha ficam brancos, sua vida já está
numa curva irrevessível. Tá velho, meu filho.
É quando começamos a pintar todos eles.Mas não adianta,
você sabe que, por baixo daquela tintura toda, tá tudo branco. E todo
mundo em volta de você também sabe, para nosso desespero.
Depois que todos já estão branquinhos e você a brincar com
seus netos, começa a última etapa. A queda dos cabelos. Como sempre,
pela cabeça. Mas nada como aqueles da barriga da perna. Acompanhei a
queda deles do meu avô e agora do meu pai. Eles vão ficando com a
barriga de perna lisinha, revelando varizes precoces. Sempre olho para a
barriga da minha perna. Ainda estão lá, felizmente. Os do peito caem
logo em seguida.
O homem vai ficando lisinho, como nasceu. No final da
vida, está estendido, todo curvado numa cama, todo desnudado,despelado,
como se quisesse voltar ao útero materno, quentinho, sem nenhum cabelo
para atrapalhar.
E descansar em paz.
E quando exumarem o seu caixão, daqui a uns anos, tudo
terá virado pó. Menos os cabelos que ainda lhe restavam. Amarillos, pero
firmes e fuertes. Es la vida.
Pêlo sim, pêlo não, ou muito pêlo contrário.