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PEGUEI UM BOBO, NA CASCA DO OVO

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o estado de s. paulo

19/06/95

 


Descobri que eu não o único doido a gostar de brincar com as palavras e expressões da nossa (desculpem) língua pátria. Recebi mais de trinta cartas depois que me declarei ignorante sobre a expressão "cuspido e escarrado".

Agora, depois da crônica "Isso para mim é grego", choveram (!) cartas de leitores com sugestões e dúvidas outras. Não sou de responder cartas, mas essas duas merecem a atenção minha e de vocês. Senão, vejamos:

J.A.P. Dupas, da Vila Mariana, com estilo masculino e letrinha de moça me escreve que "finalmente encontro quem tenha interesse em conhecer o sentido das palavras e expressões usuais cujo significado nos foge. Sinto-me desconfortável ante frase como:

- Inteligente pra burro!

- Metido a sebo.

- Fechar-se em copas.

- Co'a breca!

- Um homem é um homem, um bicho é um bicho.

- Pombas!

- Coversinha de cerca lourenço.

- Comigo não, violão.

- Lá se foi tudo que Marta fiou.

- Meia dúzia de gatos pingados.

- Chorar as pitangas.

- Tirar de letra.

- Louco de pedra.

- Enganei um bobo, na casca do ovo.

- É sopa no mel"

Já a tia do meu amigo e fotógrafo Helio Campos Mello me telefona para explicar que o Bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, tem esse nome porque, na verdade, o bairro se chamava Bairro do Real Engenheiro Fulano de tal. E, nos ônibus, vinha escrito: Bairro do Real Engo (abreviatura de engenheiro). Pegou? E explica também a expressão dita para as crianças: " vai ficar com bicho carpinteiro". Na verdade, eram as mães preocupadas com as crianças brincando na terra que diziam, "vai ficar com bicho no corpo inteiro".

Isso é que é "cartear marra". Não "tem per-repis".

Outro leitor, Dorival Alves José, também aqui de São Paulo, me explica a origem de algumas palavras, aprendidas com seu mestre Geraldo Magela de Mello Santos, professor de matemática que ele teve em 1949:

CADAVER - Das primeiras sílabas da expressáo latina "Caro Data Vermibus (carne dada as vermes).

LARÁPIO - Um Juiz romano, da era do império, sempre dava ganho de causas àquele que o favorecia com os melhores presentes. Tal Juiz, cujo nome era Lucius Aulicus Rufilus Appius, assinava as suas injustas sentenças abreviadamente, assim: L.A.R.Appius, ou seja, Larappius.

CARNAVAL - Às vésperas das festas de Momo, em 1950, o vigário de Campo Belo (MG), Pe. João Vieira, fez um sermão inflamado para uma Igreja repleta de fiéis. Afirmou que a palavra carnaval vinha, sem dúvida, do termo carne. Carne, no sentido de sensualidade, volúpia, lubricidade, lascívia; carne, como fonte de concupiscência, raiz de todos os males, etc.

Quando o Padre João (assisti a tudo, pois eu era coroinha) entrou na sacristia, lá estava, circunspecto, o professor Magela de dedo em riste (?), num ataque direto e fulminante ao pobre padre. "Como o senhor ousa enganar os seus paroquianos? Mentido-lhes como o fez, o senhor é quem comete pecados! Sabemos, V. Revma e eu, que a palavra carnaval é uma corruptela da expressão "Currus navalis". Virou-se e saiu bruscamente, deixando o padre apalermado e sem sequer esboçar um único gesto.

Corri atrás do mestre para saber o que significava o tal "currus navalis". Sua explicação:

- "Na antiga Roma (sempre Roma e o Latim) os construtores de barcos (o carro do mar, ou carro naval, isto é, currus navalis) trabalhavam em sua fabricação de abril a janeiro e, nos meses de fevereiro e março, organizavam as festas de lançamento dos barcos ao mar. O currus navalis era todo enfeitado e levado por terra, sobre rodas, até a água por uma multidão que cantava, bebia vinho e comemorava o fato numa verdadeira festa dionisíaca de que todos participavam".

Quanto ao velho "cuspido e escarrado", metade das cartas garante que a expressão vem mesmo de "esculpido e encarnado". Mas há uma outra metade que afirma, categoricamente, que vem de "esculpido em carrara".

E eu, bem, "eu não estou nem aí". "Nem que a vaca tussa", "entrarei pelo cano".