Chego em casa do trabalho (digamos que eu trabalhe fora) e encontro a
minha esposa (digamos que eu tenha uma) chorando, esbaforida. E a
primeira coisa que me pergunta, de chofre (são as piores perguntas, as
de chofre):
- O senhor pode me explicar onde estava no dia 11 de
agosto às 3 da tarde?
Pego assim de surpresa, tento ganhar tempo:
- Como, amor?
Ela balança um papel na minha cara. Sim senhor, 11 de
agosto, um domingo, às 3 da tarde!
Minto:
- Fui ao futebol, lembra? Coringão!
Ela lê o papel. Percebo que se trata de um aviso de multa
da prefeitura.
Multa de trânsito.
- No dia 11 de agosto, às 3 e 9 da tarde, domingo, você
estava a 102 quilômetros por hora na Marginal, com uma loira dentro do
carro. Do meu carro, diga-se de passagem. Quem é a vagabunda?
Amassou o papel e jogou na minha cara. Cabisbaixo me
abaixo e pego a multa da Secretaria Municipal de Transportes, emitida
pelo Departamento de Operação do Sistema Viário, o popular DSV. E, na
multa, impresso, em preto-e-branco, a foto do Ford KA da minha mulher.
Sim, gente, agora eles mandam a foto do carro junto com a "notificação
de autuação e imposição de penalidade de multa e infração de trânsito".
E é uma foto bastante nítida, que dá para ver - de costas - um elemento
dirigindo (no caso eu) e uma loira ao meu lado (no caso a minha,
digamos, amiga). Se a abertura da foto fosse um pouco maior, se poderia
ver alguns motéis do lado direito.
Claro que eu ficcionei o caso. Mas o que importa é isso: a
prefeitura está mandando a foto do seu carro (e dá para ver quem está
dentro) para a sua casa. Invasão de privacidade maior eu ainda não havia
visto, dona Marta.
Onde estamos? Quer multar, multa! Errei! Mas mandar a foto
eu acho meio inconstitucional. Estou aqui com a minha multa e a foto do
meu carro. Eu e uma loira dentro. Com que direito a prefeitura faz isso?
O que é que a foto prova? Não prova a velocidade que eu estava. O carro
na foto poderia até estar estacionado. Onde estamos, dona Marta? O que é
isso? Será que no Primeiro Mundo eles dedam assim? Imagine a senhora na
foto, com o namorado e o ex-marido recebendo a multa em casa. Meio
desagradável, não é? Ou a prefeitura agora entrou numa de desmascarar
amores acima da velocidade permitida numa bela tarde de domingo?
Onde é que vamos parar? Já disse: quer multar, multa. Mas
fotografar e mandar para a casa da gente, passa dos limites de
velocidade e de bom senso.
Para dizer tudo em apenas uma palavra, acho isso da maior
escrotidão, ou seja, segundo o Aurélio, "reles, ordinário, baixo'.
Agora a minha vida está assim: saio do meu apartamento,
tem uma câmera no hall. Entrou no elevador e não posso enfiar o dedo no
nariz porque tem outra. Outra no estacionamento. Vou ao supermercado e
eles ainda têm a cara-de-pau de pedir: "Sorria, você está sendo
filmado." E eu achava que lá na avenida Marginal estava a salvo da
vigilância curiosa das pessoas que acham que nos filmando e nos
fotografando vão resolver o problema da violência na cidade e no País.
Pois eu acho, minha amiga prefeita, que esse negócio de
mandar a foto do carro, em flagrante delito, vai causar muitos crimes
passionais aqui na sua cidade.
Estou pensando muito seriamente em não pagar essa multa. E
multar e processar a prefeitura. Afinal, a loira que estava ao meu lado
não tem nada a ver com a velocidade que imprimo à minha vida. Além de
tudo, Marta, ela é casada. E quem é que me garante que não fizeram
também uma foto de frente.
De frente para o crime?
E - olha a ironia - ainda colocaram lá: tipo de infração -
grave!!!