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Pego em flagrante delito

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o estado de s. paulo

04/09/2002

 


Chego em casa do trabalho (digamos que eu trabalhe fora) e encontro a minha esposa (digamos que eu tenha uma) chorando, esbaforida. E a primeira coisa que me pergunta, de chofre (são as piores perguntas, as de chofre):

- O senhor pode me explicar onde estava no dia 11 de agosto às 3 da tarde?

Pego assim de surpresa, tento ganhar tempo:

- Como, amor?

Ela balança um papel na minha cara. Sim senhor, 11 de agosto, um domingo, às 3 da tarde!

Minto:

- Fui ao futebol, lembra? Coringão!

Ela lê o papel. Percebo que se trata de um aviso de multa da prefeitura.

Multa de trânsito.

- No dia 11 de agosto, às 3 e 9 da tarde, domingo, você estava a 102 quilômetros por hora na Marginal, com uma loira dentro do carro. Do meu carro, diga-se de passagem. Quem é a vagabunda?

Amassou o papel e jogou na minha cara. Cabisbaixo me abaixo e pego a multa da Secretaria Municipal de Transportes, emitida pelo Departamento de Operação do Sistema Viário, o popular DSV. E, na multa, impresso, em preto-e-branco, a foto do Ford KA da minha mulher. Sim, gente, agora eles mandam a foto do carro junto com a "notificação de autuação e imposição de penalidade de multa e infração de trânsito". E é uma foto bastante nítida, que dá para ver - de costas - um elemento dirigindo (no caso eu) e uma loira ao meu lado (no caso a minha, digamos, amiga). Se a abertura da foto fosse um pouco maior, se poderia ver alguns motéis do lado direito.

Claro que eu ficcionei o caso. Mas o que importa é isso: a prefeitura está mandando a foto do seu carro (e dá para ver quem está dentro) para a sua casa. Invasão de privacidade maior eu ainda não havia visto, dona Marta.

Onde estamos? Quer multar, multa! Errei! Mas mandar a foto eu acho meio inconstitucional. Estou aqui com a minha multa e a foto do meu carro. Eu e uma loira dentro. Com que direito a prefeitura faz isso? O que é que a foto prova? Não prova a velocidade que eu estava. O carro na foto poderia até estar estacionado. Onde estamos, dona Marta? O que é isso? Será que no Primeiro Mundo eles dedam assim? Imagine a senhora na foto, com o namorado e o ex-marido recebendo a multa em casa. Meio desagradável, não é? Ou a prefeitura agora entrou numa de desmascarar amores acima da velocidade permitida numa bela tarde de domingo?

Onde é que vamos parar? Já disse: quer multar, multa. Mas fotografar e mandar para a casa da gente, passa dos limites de velocidade e de bom senso.

Para dizer tudo em apenas uma palavra, acho isso da maior escrotidão, ou seja, segundo o Aurélio, "reles, ordinário, baixo'.

Agora a minha vida está assim: saio do meu apartamento, tem uma câmera no hall. Entrou no elevador e não posso enfiar o dedo no nariz porque tem outra. Outra no estacionamento. Vou ao supermercado e eles ainda têm a cara-de-pau de pedir: "Sorria, você está sendo filmado." E eu achava que lá na avenida Marginal estava a salvo da vigilância curiosa das pessoas que acham que nos filmando e nos fotografando vão resolver o problema da violência na cidade e no País.

Pois eu acho, minha amiga prefeita, que esse negócio de mandar a foto do carro, em flagrante delito, vai causar muitos crimes passionais aqui na sua cidade.

Estou pensando muito seriamente em não pagar essa multa. E multar e processar a prefeitura. Afinal, a loira que estava ao meu lado não tem nada a ver com a velocidade que imprimo à minha vida. Além de tudo, Marta, ela é casada. E quem é que me garante que não fizeram também uma foto de frente.

De frente para o crime?

E - olha a ironia - ainda colocaram lá: tipo de infração - grave!!!