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o estado de S. Paulo

15/10/2003

 


Quando eu era pequeno (dias atrás) a Academia Brasileira de Letras já era uma coisa muito importante e distante. Lá no Rio, coisa de uns velhinhos de quem eu nem sabia muito bem os nomes.

Mas a gente foi crescendo e a Academia foi ficando mais próxima. Principalmente para quem vira escritor. E começamos a observar a danada. E a perceber que o ideal do nosso escritor máximo, o Machado, andou sendo desvirtuado por uns tempos. Durante uma boa época a Academia virou lugar de pessoas que queriam mesmo apenas ser imortais, sem nada a ver com as letras.

Um exemplo? Getúlio Vargas, cujas únicas letras importantes foram justamente as da carta testamento quando ele, contrariando a Academia, deixou de ser imortal, metendo um tiro no peito.

Um general virou acadêmico na época em que os militares pareciam ser mesmos imortais, apesar dos mortais estarem aqui, do lado de cá.

Mas, de uns tempos para cá, comecei a perceber que a Academia Brasileira de Letras estava voltando a convocar escritores brasileiros de letras. A Rachel, a Lígia, depois o João Ubaldo. E aí vieram o Sábato, a Zélia, o Cony, o Scliar, a Ana Maria Machado, o Alfredo Bosi e agora o Cícero Sandroni. Me deu uma animada. Quem sabe, quando a Academia estiver cheia de escritores, ela volte a fazer coisas pelas nossas letras, além do chá. Eu achava que era coisa do passado eleger presidentes, generais e vices. Hoje, além dos citados, temos lá simpáticos velhinhos, grandes filólogos, uns defensores das nossas gramáticas. Enfim, gente competente e séria.

Dizia eu que, de uns anos para cá, começaram a receber escritores. Os nossos melhores escritores, diga-se de passagem. Pois agora fico sabendo pelos jornais que, na próxima eleição, a disputa está acirradíssima entre o jornalista e escritor Fernando Morais e... adivinha!, o ex-vice-presidente da República, o Marco Antonio Maciel. É, aquele comprido. Dizem que está pau a pau.

Confesso que não conheço a obra literária no magrão, além de alguns bilhetes para o FHC tipo: "pode viajar que eu seguro", ou mesmo alguma carta para o PFL dizendo que jamais morreria, seria um imortal. Entenderam?: o homem é mesmo chegado às letras: FHC-PDS-PFL. Talvez tenha publicado seus discursos e cometido algumas rimas. Mas desconheço. Você já leu Marco Maciel?

Juro que não consigo entender esse possível retrocesso da nossa Academia Brasileira de Letras. Será que aqueles senhores vão imortalizar o magrão como escritor brasileiro? Como brasileiro não tenho absolutamente nada contra o homem. E é um político dos mais dignos. Mas escritor?...

A Academia existe há pouco mais de cem anos. Durante algumas décadas, andou fora da linha, elegendo por interesses não literários. Mas eu achava que isso já tinha acabado. Achava que agora era para ser um local de encontro entre escritores. Mas parece que a era Getúlio Vargas periga voltar. Repito: numa candidatura para a Academia Brasileira de Letras, a disputa estar acirrada entre o escritor Fernando Morais e o político Marco Maciel, me parece uma piada. De péssimo gosto literário. Sou muito mais FM do que Marco AM.

Como diria Machado de Assis, para alguns deles, as batatas!