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Páscoa, Elián, Araçatuba, Tiradentes, quinhentos

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o estado de s. paulo

26/04/2000

 


Que semana, gente! Não sei nem por onde começar. Tivemos de esperar 500 anos e, de repente, tudo aconteceu. A única coisa boa mesmo é que a festa dos 1.000 anos vai demorar muito e ninguém vai ficar me ligando para dar um depoimento sobre a efeméride (desculpe o palavrão, vovó Maria). A coisa mais chata desses nossos 500 anos foi a festa dos 500 anos. E ninguém morreu, pra entrar na História da pátria mãe gentil. Foi mesmo um pentacentenário!

Com tanta coisa acontecendo por esta terra onde se roubando tudo dá, o mais hilário (embora trágico) aconteceu lá em Camerata Nuova, cidadezinha perto de Roma: na representação de Paixão de Cristo (quem foi? Madalena?) um "ator", chamado Renato Di Paolo fazia o papel de Judas. Colocou a corda no pescoço e ficou pendurado enquanto a cena rolava. Acabou o espetáculo e o Renato continuava lá, rígido. Morto, informou a agência Reuters.

E eu continuo sem entender quando alguém me diz: boa Páscoa! O quê que é uma boa Páscoa? Chocolates? Bom Natal, eu entendo. Bom carnaval, também. Até bom feriadão. Mas Páscoa.

E os 500 anos, hein? Em São Paulo estão fazendo uma exposição realmente sensacional. Para entrar custa dez por cento do comentadíssimo salário mínimo. Dizem que tem até dinossauro. E não são os vereadores, não, que esses são vivos.

Teve a malhação de Judas por aqui. Bonecas com a cara (e o colete) da Pitéia. Bateram nela pra valer. Vai ver, ela gosta.

O que eu sei é que com essa farra toda dos 500 anos, a mídia se esqueceu totalmente que dia 21 de abril foi (ou era?) o dia de Tiradentes. Lembraram até do enforcado italiano, mas o mineirinho dançou com a corda no pescoço.

Nenhuma linha, notou? Mas cá entre nós: o dia 21 de abril anda muito sobrecarregado. O Tancredo também, morreu nesse dia. Brasília foi inaugurada no mesmo dia. E Lins, foi fundada. Como se não bastasse o Anthony Quinn e o Anselmo Duarte também fizeram aniversário. E o Tiradentes foi esquecido.

Mark Twain também partiu dia 21 de abril.

E aquele garoto-coitadinho cubano dentro do armário? E o Fidel elogiando o Clinton? Periga até acabar o embargo. Fidel e Clinton vão acabar feito o FHC e o ACM. Só não pintou beijo na boca. Por enquanto. Na hora que o parlamentarismo voltar à tona, eles beijam. E ainda dançam um Bésame Mucho coladinho nas areias de Itapuã. E o Élian tem 6 anos, viu a mãe morrer afogada, viu a metralhadora no seu nariz depois de ficar quietinho dentro do guarda-roupa com um amante furtivo, como quem tivesse feito alguma coisa muito errada. Espero que um dia alguém conte para ele porque ele ficou embargado lá dentro.

E o Araçatuba, o time de futebol? Vejam onde chegamos: o time terminou o campeonato paulista com menos 15 pontos ganhos. E no último jogo, só para contrariar, colocou uma porção de jogadores irregulares. Durante o jogo foram sendo expulsos. O jogo era contra os campeões de mundo, o timão.

E por falar em expulsão, os índios não tinham levado a sério, quando foram expulsos de Porto Seguro há mais de 500 anos. Tentaram voltar agora para buscar uns pertences, mas não deixaram. Cinco mil PMs (dez vezes 500) para barrar os alienígenas nativos! Lugar de índio é no meio do mato. Ora, onde já se viu? No meio do mato ou na lateral direita do timão. Aliás, parabéns ao Ricardo Kotscho que me fez acreditar que o grande (e honesto) repórter ainda existe, na última Época. Me fez lembrar de outras épocas.

Épocas em que o Brasil era um país bonito por natureza e abençoado por Deus.

E os nossos enforcados valiam bem mais que um ator amador italiano.

Mas tudo bem, foi ainda no dia 21 de abril que morreu John Maynard Keynes, aquele jornalista e economista inglês, autor da teoria do desemprego prolongado.