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Paris, Sena, Diadema

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ISTOÉ

1998

 


Paris - É assim que os jornais franceses chamam o Denilson: l’enfant de Diadema. Ou le diamant de Diadema. Osasco deve estar morrendo de inveja.

* Paulo Coelho, cujos livros ici aussi se reproduzem feito coelho (e ele merece), escreve crônicas para o Journal du Dimanche. Na última, comparou o futebol à vida: le futebol, c’est comme la vie, au début on a un peu peur, on reste sur sa réserve, on se replie en défense, mais ce qui fait le sel de la vie, c’est l’attaque, c’est prende des risques, c’est oser. Ousado, ele.

* Sabe porque as malas dos japoneses são todas iguais? Porque eles não têm muito espaço em casa e, então, alugam malas para viajar. Como diria meu amigo Jabor, Win Wenders e aprendendo.

* No saguão do hotel brasileiros discutem quais as aeromoças mais bonitas do hotel. As coreanas iam ganhando, quando entram umas marroquinas. Dez a zerô.

* Aquela história de que os franceses são mal humorados, que tratam mal os estrangeiros, me parece que é coisa do passado. Eles adoram a gente. Fora os motoristas de taxi, é claro. Estamos sendo muito bem recebidos, sem ironia nenhuma.

* D’accor, significa de acordo, d’accor? Mas já simplificaram para dáqui.

* Aqui tem também o 0-900. Enquanto aí no Brasil paga-se quatro dólares por chamada, aqui custa cinqüenta centavos. E olha que o salário mínimo na França é nove vezes o do Brasil. O Fernando Henrique, que adora dizer que deu aula aqui na Sorbonne, podia pensar um pouquinho nisso, dáqui?

* O Ratinho esteve aqui e voltou logo. Me disse no hall do hotel:

- Aqui eles não deixam mostrar o que eu mostro no Brasil. Meu ibope despencou. País de velhos! Pra quem gosta de museu, é um prato cheio. Tou fora. 

* Paris, outono: sol, vento, chuva, sol, vento, chuva, sol, vento chuva. Todo dia ela faz tudo sempre igual.

* E por falar em Chico, tem uma construção aqui na frente do hotel. Hora de descanso. Vejo aqui da janela eles tomando água Perrier. Assim, até eu.

* No Canal 1, mesa redonda com o Raí (aqui, Rái) falando francês. Os coleguinhas franceses não entendem porque o Giovani tá lá e ele, não. Nem eu.

* Os escoseses (dizem que são 24 mil turistas-torcedores-bebedores aqui) vieram aqui pra beber e festejar. Eles estavam nas ruas com os brasileiros, com os mexicanos, com os franceses, com os nigerianos. Onde tem festa, lá vão, trôpegos, eles com suas saias voadoras.

* Gente, e a mostarda, gente!

* Teve grande destaque aqui nos jornais a morte do Lúcio Costa. Uma moça brasileira me perguntou quem era. Expliquei que foi um grande atacante da seleção brasileira de 50. Ela caiu em si:

- Acho que meu pai já me falou dele. Jogava no Fluminense, né?

* É melhor não contar quanto é que custa aqui aquele carro francês que você comprou aí. Você vai ficar muito puto, se sentindo um trouxa. Como eu.

* Sabe quem eu vi aqui na televisão, acabadérrima, parecendo um bichinho em extinção? A Brigitte Bardot. Aquela, lembra? C’est la vie en rose. O que os animais não fazem ao ser humano...

* Chovendo de novo.

* Os árabes andam de mãos dadas, entrelaçadas, aqui no hall. Será que o Parreira vai entrar no jogo deles?

* Passam, no corredor, o deputado Zequinha Sarney e dois sarneyzinhos. Tudo a cara do Sarneizão.

* O brasilianista, cronista e meu compadre Mateus Shirts  teorizando sobre os carpetes dos hotéis. Já notou, nota ele, que carpete de hotel, mesmo de cinco estrelas, sempre têm os seus problemas? Dá uma tese.

* Todo hotel decente tem os seus filmes de sacanagem, pela televisão. Na copa de São Francisco você podia assistir a três minutos, sem pagar, e escolher. Aqui é apenas um minuto. Se continuar assim, comenta um torcedor, na da Coréia eu não vou, não. Já não tem mulher e os caras regulando, pô!

* Bicha francesa sabe fazer curva em esquina. Não sei explicar. Eles dão uma parisiense viradinha com a ponta dos pés. Bicha brasileira tem muito a aprender, comentou outro torcedor machopaca.

* Você não vai acreditar, mas os ônibus de turismo pegam os irlandeses de bar em bar para levar aos estádios e a outras cidades. Etilicamente falando, são organizadíssimos. E eu pergunto: vão lá, todos bêbados, torcer pra quem, se a Irlanda não está na copa? Mas tá no copo.

* Aí a guia turística apontou:

- À nossa direita, o rio Sena.

No que aquela baiana novíssima-rica perguntou ao marido:

- Painho, deram o nome antes ou depois da morte dele?

Juro.

Quanto foi mesmo o jogo contra os marroquinos?

(Agora estou no centro do saguão do hotel. Sentado, lendo um livro policial, fumando, calmo. Em volta de mim japoneses, coreanos, irlandeses, ingleses, americanos, árabes, escoceses, marroquinos, mexicanos, franceses, espanhóis, alemães, holandeses, gaúchos, cariocas, baianos, mineiros, paulistas, nordestinos. O mundo deu a mão. O mundo me cercou. Meus filhos vão chegar. Estou no centro da roda, no centro do mundo. Me dá vontade de chorar. De felicidade. De bobeira, mesmo.)