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PARIS, PROUST, LISBOA, VASCO DA GAMA.

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o estado de s. paulo

11/10/98

 


Uma viagem, dois livros, duas viagens. Pra ler em Portugal, o diário de bordo da tomada da Índia por Vasco da Gama, no final do século XV. E, em Paris, acompanhar a vida asmática de Marcel Proust, nas linhas objetivas de Edmund White, no começo deste século. Enquanto isso, aí no Brasil, o Ronaldinho ficou grávido e o Hildebrando – parece – não vai conseguir serrar as grades com a mesma facilidade que cerrava pernas, braços e vidas. Parece-me que, fora a separação da Adriane Galisteu, nada de importante anda acontecendo por aí.

Nada como acompanhar a vida de Proust diretamente de Paris. Principalmente sendo hóspede do Fernando Morais e da Marina Maluf, ali pertinho da avenida Montaigne por onde Marcel procurava o tempo perdido. Ali, pertinho do viaduto onde a Diane capotou, nada parece ser tempo perdido.

Paris continua a mesma. Cinza como a vida do maior escritor do século. Escritor de um livro só, mas de 7.000 páginas. Livro que foi recusado por algumas editoras pouco antes da primeira guerra. Inclusive a Gallimard.

Proust, que fazia questão de esconder seu homossexualismo, se hoje vivo fosse, não teria vergonha de sua condição. Na época, chegou a cometer alguns duelos – de verdade – para tentar provar que era homem. Mas todo mundo sabia que era uma bichinha asmática e fofoqueira. Debaixo dos crisântemos que adorava, fazia coluna social nos jornais parisienses. Frequentava a alta roda. E, quando não era convidado para alguma festa, no dia seguinte ia na casa do barão de tal, subornava o mordomo e ficava sabendo quem tinha ficado com quem, quem tinha falado de qual e alguns saldos bancários. E, com isso, ia colecionando suas mulheres e seus homens para escrever a sua obra prima.

Sim, todos aqueles personagens de seu livro existiram. E aquelas adoráveis Odettes e Albertines, nada mais eram que seus enrustidos namorados com nomes de mulheres. Mulheres mesmo, só sua mãe e uma empregada que ficava horas ao seu lado em pé – ele não admitia que a empregada sentasse em seu quarto – ouvindo as fofocas da noite anterior. Proust falava pelos cotovelos até as oito da manhã.

Praticamente passou os últimos dez anos da sua vida (morreu com 51) na cama, segurando sua asma e a mão de seus namorados. Seu apartamento era totalmente forrado de cortiça, janelas e cortinas fechadas. Ali o pó não entrava. Mas o ópio, sim. Nunca o abria para o sol que se perdia lá fora. Escondia-se da poeira de Paris até que ela assentasse, lá pela meia noite, quando então ele saía para o Ritz – aquele, de onde saiu a Lady Di – para mesas de até 200 convidados, por conta dele. Torrava a herança paterna. E criava seus personagens reais e transformava seus amantes em dianas d´alma perdida.

Enquanto isso, aí no Brasil, o maníaco do parque era condenado a 121 anos em busca do tempo perdido.

Atravesso o cabo das tormentas com o diário de bordo de Álvaro Velho, marinheiro que acompanhou Vasco da Gama no "descobrimento" das Índias, das índias e da pimenta e outros condimentos lá do outro lado.

O Vasco da Gama, quem diria, era um Átila, um vingativo, um assassino de fazer invejas e acreanos hildebrandos. O massacre que nos conta o Drauzio Varella no seu Carandiru é pinto perto das atrocidades do Vasco da Gama e da lusitana tropa sob suas ordens unidas. Eurico Miranda deve ter herdado daquele português o seu ar arrogante (para dizer o mínimo) e sua prepotência, tratando os torcedores brasileiros como se fossem habitantes de uma Calicuti sitiada.

Enquanto isso, aí no Brasil, a grande notícia é de uma cusparada de um negro num branco, jogando futebol. Ou foi o branco que cuspiu no negro? Não sei ao certo, pois aqui, tenho lido mais sobre o Timor Loro Sae, ou Timor Terra do Sol Nascente, ou ainda, Timor Leste. Finalmente o mundo virou suas naus e caravelas para aquele povo sofrido.

Fica-me a impressão que o poeta Camões, ao escrever a saga de Vasco da Gama em mares nunca d´antes navegados não conhecia muito bem seus personagens como Proust os seus. Os seus meninos.

Enfim, fim de férias em busca do tempo perdido.