Uma viagem, dois livros, duas viagens. Pra ler em Portugal, o diário de
bordo da tomada da Índia por Vasco da Gama, no final do século XV. E, em
Paris, acompanhar a vida asmática de Marcel Proust, nas linhas objetivas
de Edmund White, no começo deste século. Enquanto isso, aí no Brasil, o
Ronaldinho ficou grávido e o Hildebrando – parece – não vai conseguir
serrar as grades com a mesma facilidade que cerrava pernas, braços e
vidas. Parece-me que, fora a separação da Adriane Galisteu, nada de
importante anda acontecendo por aí.
Nada como acompanhar a vida de Proust diretamente de
Paris. Principalmente sendo hóspede do Fernando Morais e da Marina
Maluf, ali pertinho da avenida Montaigne por onde Marcel procurava o
tempo perdido. Ali, pertinho do viaduto onde a Diane capotou, nada
parece ser tempo perdido.
Paris continua a mesma. Cinza como a vida do maior
escritor do século. Escritor de um livro só, mas de 7.000 páginas. Livro
que foi recusado por algumas editoras pouco antes da primeira guerra.
Inclusive a Gallimard.
Proust, que fazia questão de esconder seu homossexualismo,
se hoje vivo fosse, não teria vergonha de sua condição. Na época, chegou
a cometer alguns duelos – de verdade – para tentar provar que era homem.
Mas todo mundo sabia que era uma bichinha asmática e fofoqueira. Debaixo
dos crisântemos que adorava, fazia coluna social nos jornais
parisienses. Frequentava a alta roda. E, quando não era convidado para
alguma festa, no dia seguinte ia na casa do barão de tal, subornava o
mordomo e ficava sabendo quem tinha ficado com quem, quem tinha falado
de qual e alguns saldos bancários. E, com isso, ia colecionando suas
mulheres e seus homens para escrever a sua obra prima.
Sim, todos aqueles personagens de seu livro existiram. E
aquelas adoráveis Odettes e Albertines, nada mais eram que seus
enrustidos namorados com nomes de mulheres. Mulheres mesmo, só sua mãe e
uma empregada que ficava horas ao seu lado em pé – ele não admitia que a
empregada sentasse em seu quarto – ouvindo as fofocas da noite anterior.
Proust falava pelos cotovelos até as oito da manhã.
Praticamente passou os últimos dez anos da sua vida
(morreu com 51) na cama, segurando sua asma e a mão de seus namorados.
Seu apartamento era totalmente forrado de cortiça, janelas e cortinas
fechadas. Ali o pó não entrava. Mas o ópio, sim. Nunca o abria para o
sol que se perdia lá fora. Escondia-se da poeira de Paris até que ela
assentasse, lá pela meia noite, quando então ele saía para o Ritz –
aquele, de onde saiu a Lady Di – para mesas de até 200 convidados, por
conta dele. Torrava a herança paterna. E criava seus personagens reais e
transformava seus amantes em dianas d´alma perdida.
Enquanto isso, aí no Brasil, o maníaco do parque era
condenado a 121 anos em busca do tempo perdido.
Atravesso o cabo das tormentas com o diário de bordo de
Álvaro Velho, marinheiro que acompanhou Vasco da Gama no "descobrimento"
das Índias, das índias e da pimenta e outros condimentos lá do outro
lado.
O Vasco da Gama, quem diria, era um Átila, um vingativo,
um assassino de fazer invejas e acreanos hildebrandos. O massacre que
nos conta o Drauzio Varella no seu Carandiru é pinto perto das
atrocidades do Vasco da Gama e da lusitana tropa sob suas ordens unidas.
Eurico Miranda deve ter herdado daquele português o seu ar arrogante
(para dizer o mínimo) e sua prepotência, tratando os torcedores
brasileiros como se fossem habitantes de uma Calicuti sitiada.
Enquanto isso, aí no Brasil, a grande notícia é de uma
cusparada de um negro num branco, jogando futebol. Ou foi o branco que
cuspiu no negro? Não sei ao certo, pois aqui, tenho lido mais sobre o
Timor Loro Sae, ou Timor Terra do Sol Nascente, ou ainda, Timor Leste.
Finalmente o mundo virou suas naus e caravelas para aquele povo sofrido.
Fica-me a impressão que o poeta Camões, ao escrever a saga
de Vasco da Gama em mares nunca d´antes navegados não conhecia muito bem
seus personagens como Proust os seus. Os seus meninos.
Enfim, fim de férias em busca do tempo perdido.