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Para cada Suzane Louise existe um Pedrinho

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o estado de s. paulo

13/11/2002

 


Ah, a família!, a célula-mater da sociedade, como já disse alguém, provavelmente Olavo Bilac, que gostava mesmo era de duelar (literalmente) com seus desafetos que não gorjeavam como ele. Tão célula-mater que deu no que deu logo na primeira família que conhecemos: o irmão matou o irmão. E parece que nem foi preso porque prisão não havia, nem Código Penal e muito menos jurados. Deve ter ido sozinho para o motel.

Pois na semana passada me coloquei a pensar na família brasileira. Aliás, eu, o Lula e todos nós. Mas a mídia nos jogou duas histórias cinematográficas na cara. O caso da estudante de Direito da PUC de São Paulo Suzane Louise e o caso do Pedrinho que virou Júnior.

O caso do Pedrinho me envolveu muito mais, me comoveu mais. O crime da Suzane Louise foi planejado (muito mal planejado, por sinal) durante dois meses. Já o Caso Pedrinho durou 16 anos. Me lembro (desculpe a lugar-comum) como se fosse hoje o dia em que o Pedrinho nasceu e uma falsa enfermeira pegou o bebê no quarto da mãe e sumiu com ele. Aquilo foi manchete de jornais por meses. Virou o Caso Pedrinho. Nunca mais foi achado e o casal deixou a maternidade sob as luzes da televisão e as lágrimas de um filho perdido.

Nestes 16 anos, algumas vezes "aparecia" um Pedrinho em algum lugar. Fotos.

Mas era tudo rebate falso. Os pais, a família Tapajós, já haviam desistido do filho.

Agora, acompanhe os acontecimentos; no mês em que Suzane Louise e seus comparsas (que palavra!) começaram a tramar matar os pais dela (sob efeito de maconha, insistem os jornais. Se todo jovem brasileiro que fumasse maconha matasse os pais, só teríamos filhos hoje no País), eu dizia, que enquanto ela tramava matar o pai e a mãe, o pai adotivo do Pedrinho (que não conhecia a sua origem) morria de morte natural lá em Goiás. Estão acompanhando direitinho o caso, estou sendo claro? Quem morreu foi o pai que adotou, alegando que o recebeu de um mendigo. Victor Hugo puro!

Enquanto o namorado da Suzane Louise preparava pedaços de canos com madeira dentro (fumando maconha, é claro), alguém, pela internet, viu a foto do verdadeiro pai do Pedrinho, quando jovem. E era a cara de um garoto chamado Júnior que vivia em Goiânia. Mais uma pista falsa? Conta a história para o garoto (não sei se ele também fuma maconha). Imagine a cabeça dele: esse cara que morreu não era o seu pai. O seu pai mora em São Paulo. Você foi roubado com um dia de vida. Tóim!!!

No dia anterior ao crime dos paulistanos, o jovem "goiano" faz o exame de DNA. Batata!, como diria o Nelson Rodrigues. Era um Tapajós autêntico.

Enquanto os comparsas de Suzane Louise (estou começando a gostar do nome) matavam hediondamente o casal, Pedrinho (ou Júnior), assustado com o papo de pai e mãe nova, se manda. Some de casa.

Em São Paulo, os verdadeiros pais de Pedrinho renascem. Ganham um filho. Em São Paulo, Andreas (irmão de Suzane Louise) perde os pais.

Andreas e Pedrinho têm a mesma idade. Os dois não têm nada a ver com o que aconteceu em torno da vida deles, das famílias dele, das células-mater. E os dois devem estar pensando a mesma coisa: e agora, qual é a minha família?

Em melhor situação está o Pedrinho, que agora tem um pai e duas mães. Já o Andreas perdeu os pais e vai ficar muito tempo sem ter ao menos uma irmã.

Como eu desejo que esses dois garotos sejam felizes. Não fizeram nada de errado. Mas que estão assustados, estão. Que Deus os abençoe.