Duas coisas me chamaram a atenção nestes jogos pan-americanos que estão
rolando lá em Santo Domingo. A palavra é esta mesma: rolando. Dois
descasos.
O primeiro descaso, o americano. Eles não mandam seus principais atletas
para os jogos. Total menosprezo pelos demais atletas latinos do
continente.
O segundo descaso, dominicano. Ninguém nos estádios, nas piscinas, nas
quadras. A não ser, é claro, quando atletas da casa competem.
Poderia citar ainda mais uma surpresa, que é a pífia participação da
Argentina. Basta lembrar que nos primeiros jogos, em 1951, a Argentina
ficou em primeiro lugar, na frente dos Estados Unidos.
Mas, pensando bem, o nosso Brasil também não mandou suas melhores
jogadoras nem de vôlei nem de basquete.
Para que servem então estes jogos? Talvez para mostrar que o nosso
Meligeni estará se aposentando no auge, você poderá dizer. Sei não, os
bons jogadores argentinos e americanos não estavam lá. Estavam competindo
onde tem grana.
Pronto, acho que cheguei onde queria. Os atletas profissionais estão pouco
se lixando para serem os melhores das Américas.
Ou seja, mais uma vez provamos para nós mesmos que não gostamos do nosso
continente. Pelo menos pela parte aqui abaixo do Equador. Os famosos
países (desde que me conheço) em desenvolvimento. Antigamente a gente era
chamado de subdesenvolvido mesmo, o que eu achava mais honesto. A única
preocupação do Brasil é ficar na frente da Argentina. Ficamos, e daí?
Significa alguma coisa para o esporte ou para o país?
Mas não fiquemos tão amuados assim. Fique sabendo que tem 15 países da
América Central que não conquistaram nenhuma medalhinha. Aliás, você sabia
que existem 28 países na América Central? Duvido que saiba a capital de no
máximo cinco deles. Mesmo porque, me parece que por lá não se pratica
nenhum esporte.
E quanto a nós, pioramos muito. Em Winnipeg, 99, ganhamos 101 medalhas.
Não está me parecendo que chegaremos lá de novo (65 até segunda-feira).
Mas agora eu queria sair de Santo Domingo e cair na Santa Paraty. Lá
ocorreu há uns dias um encontro internacional de escritores. Não eram
jogos, eram papos e cervejas. Casas lotadas, recordes de autógrafos, pouca
divulgação da mídia. No ano quem vem tem mais. Posso garantir que é muito
mais emocionante ouvir o Millôr Fernandes fazendo uma palestra do que ver
nossas meninas reservas do basquete jogando contra universitárias
americanas. Dá muito mais emoção ouvir o Chico Buarque lendo Vinícius do
que ouvir o bater da bolinha de tênis de mesa.
Infelizmente, no encontro de escritores não tem aquela simpatia da Juliana
em seus saltos ornamentais conquistando a prata e o Prata. Talvez fosse o
caso de convidá-la para Paraty no próximo encontro. Os escritores iam
pular de felicidade. E talvez o evento ganhasse mais espaço na mídia. Umas
três ou quatro páginas por dia nos jornais e chamadas ao vivo no Jornal
Nacional.
Pensando bem, devia ter uns jogos pan-americanos de escritores, em suas
várias modalidades. Romance, poesia, conto, crônica, ensaio, biografia,
teatro, etc. Feminino e masculino. Tenho certeza de que a gente ia ganhar
dos Estados Unidos. Podemos até perder aqui nas listas dos mais vendidos.
Mas pau a pau, sou mais Brasil.
O problema do escritor brasileiro é escrever em português, já disseram
vários europeus. Uma pena. Ou um dígito.
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