E quando um cara da minha idade diz que eram dois velhinhos é porque era isso
mesmo. Rodeando os 80. Honestos!
Estavam os dois quietos, olhando para o mar. Eu devia
estar a uns três metros deles, para a frente. Eles estavam em silêncio,
até que um deles disse:
- Como a vida passa, Antenor. Já estou pegando festa
de bisneto! (Deu uma longa pausa). São as melhores.
Ele falava alto. Conversa entre velhinhos é sempre
alta. Pelo menos um dos dois não ouve bem. Hein? Senti que o assunto ia
ser bom. Quis ver a cara deles, o jeitão, para curtir melhor o texto
deles. Mas, se eu me viro para atrás, acintosamente, posso assustar os
dois e interromper o raciocínio de um deles, que promete. Vou até a água,
lavo as mãos e volto olhando para os dois. O Antenor e o Lapadula (como
viria a saber, quase imediatamente) conversavam com um sorriso maroto no
rosto. Quase adolescentes.
- Primeiro eram as festas para os amigos e as amigas
dos meus filhos. Eu já era separado. Aquilo era uma beleza. Naquele tempo
as mães, algumas já separadas, oscilavam entre os 25 e 30 anos.
- E as amigas? Quantos aninhos?
- Cinco, seis, Antenor! O que é isso. Também não é
assim... Claro que, com o tempo as amiguinhas foram crescendo. E eu
acompanhando passo a passo. A que ia ficar gordinha, a que teve seio
primeiro. Um botão. As espinhas, o primeiro beijo, o primeiro beise.
Básico.
- O que eu adorava mesmo era buscar e levar na
escola. Aquilo era um point magnífico. E mais, puxar papo não dava
bandeira nenhuma:
- O seu é da turma do amarelo?
- Vermelho.
Com o tempo já tinha uns pais e umas mães (fiéis) que
chegavam uma hora antes para a caipirinha no barzinho da frente. Rolou
muita coisa ali.
- Eu me lembro como - se fosse hoje - quando a minha
filha (hoje avó) tinha uns 18 anos e me advertiu: pai, amiga minha, não! O
que ela não poderia imaginar é que, anos depois, a filha dela, a minha
neta, ia me dizer a mesma coisa: vô, com as minhas amigas, não! Puxou a
mãe, a danadinha.
- E reunião de pais e filhos? Vou até na de netos,
para dar uma supervisão geral, um periscópio rápido. Porque a gente não
pode se esquecer das professoras. Eu vou te dizer uma coisa definitiva.
Pai só vai na reunião de pais e filhos por sacanagem. Ninguém está ali
impunemente. Tem uns que vão até em dupla. São os piores.
- As professoras: cada vez mais jovens e com
cabelinho encaracolado. (Pausa, os dois devem estar relembrando suas
vivências com três gerações). E você então, hein? Já de periscópio em
festa de bisneto! Quantos anos?
- O bisneto mais velho tá com 17.
- Céus, nem me conta. Não pego mais na escola, mas
tem as festinhas. E você sabe que eu não perco festa de família. Estou em
todas!
- Exato, e as mães dos bisnetos estão ali pela faixa
entre 35 e 45. Firmes, também à cata.
- Grande faixa, Lapadula. Flaubert e Balzac sabiam
das coisas. É que morreram cedo, não souberam da energia das mulheres de
20.
- Esses franceses só pensavam em sacanagem! Pode ver.
E eu, que sou um jovem perto daqueles assanhados
velhinhos, comecei a pensar no meu caso. Realmente era bom buscar os
meninos nas escolas. Reunião de pais. As festinhas, ver os filhos dos
amigos virando gente. Acho que essa parte da vida é lúdica, por isso. Você
ver o afilhado Fábio (filho do Sergio) advogando, uma sobrinha cobra no
designer, um primo dirigindo filmes, a Ana (Reinaldo e Maria Rita), linda,
lindíssima. O filho do Tenório com programa na televisão. Os filhos da
Sergião de Souza que a gente esbarra a toda hora. Tudo fazendo coisas. Do
Bigode ("não estou mais vendo, estou espiando", é genial). A Maria Shirts
e o João Góes filosofando os 11 anos. Amigos já avós. Mas que vão demorar
muito para pegarem festa de bisneta.
Eu, da minha parte, não tive ainda nenhum neto. Não
por culpa minha, mas inoperância (sábia, talvez, por enquanto) dos filhos.
Já estou mais que preparado. Pode deixar pra dormir comigo. Claro, depois
de uns três anos (no mínimo).
E pode deixar que eu levo e busco na escola. Afinal,
sou um inventor de história e posso muito bem inventar uma conversando com
as professoras dos meus netos. Tenho muito a dizer, a ensinar. Acho.
Principalmente porque a gente passa a vida toda
olhando para elas. Tente imaginar o mundo sem nenhuma mulher. Só homem. A
mulher, de qualquer idade, existe para ser olhada, admirada. E, se for
possível, amada.