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Os velhinhos

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o estado de s. paulo

13/03/2002

 


E quando um cara da minha idade diz que eram dois velhinhos é porque era isso mesmo. Rodeando os 80. Honestos!

 

Estavam os dois quietos, olhando para o mar. Eu devia estar a uns três metros deles, para a frente. Eles estavam em silêncio, até que um deles disse:

 

- Como a vida passa, Antenor. Já estou pegando festa de bisneto! (Deu uma longa pausa). São as melhores.

 

Ele falava alto. Conversa entre velhinhos é sempre alta. Pelo menos um dos dois não ouve bem. Hein? Senti que o assunto ia ser bom. Quis ver a cara deles, o jeitão, para curtir melhor o texto deles. Mas, se eu me viro para atrás, acintosamente, posso assustar os dois e interromper o raciocínio de um deles, que promete. Vou até a água, lavo as mãos e volto olhando para os dois. O Antenor e o Lapadula (como viria a saber, quase imediatamente) conversavam com um sorriso maroto no rosto. Quase adolescentes.

 

- Primeiro eram as festas para os amigos e as amigas dos meus filhos. Eu já era separado. Aquilo era uma beleza. Naquele tempo as mães, algumas já separadas, oscilavam entre os 25 e 30 anos.

 

- E as amigas? Quantos aninhos?

 

- Cinco, seis, Antenor! O que é isso. Também não é assim... Claro que, com o tempo as amiguinhas foram crescendo. E eu acompanhando passo a passo. A que ia ficar gordinha, a que teve seio primeiro. Um botão. As espinhas, o primeiro beijo, o primeiro beise. Básico.

 

- O que eu adorava mesmo era buscar e levar na escola. Aquilo era um point magnífico. E mais, puxar papo não dava bandeira nenhuma:

 

- O seu é da turma do amarelo?

 

- Vermelho.

 

Com o tempo já tinha uns pais e umas mães (fiéis) que chegavam uma hora antes para a caipirinha no barzinho da frente. Rolou muita coisa ali.

 

- Eu me lembro como - se fosse hoje - quando a minha filha (hoje avó) tinha uns 18 anos e me advertiu: pai, amiga minha, não! O que ela não poderia imaginar é que, anos depois, a filha dela, a minha neta, ia me dizer a mesma coisa: vô, com as minhas amigas, não! Puxou a mãe, a danadinha.

 

- E reunião de pais e filhos? Vou até na de netos, para dar uma supervisão geral, um periscópio rápido. Porque a gente não pode se esquecer das professoras. Eu vou te dizer uma coisa definitiva. Pai só vai na reunião de pais e filhos por sacanagem. Ninguém está ali impunemente. Tem uns que vão até em dupla. São os piores.

 

- As professoras: cada vez mais jovens e com cabelinho encaracolado. (Pausa, os dois devem estar relembrando suas vivências com três gerações). E você então, hein? Já de periscópio em festa de bisneto! Quantos anos?

 

- O bisneto mais velho tá com 17.

 

- Céus, nem me conta. Não pego mais na escola, mas tem as festinhas. E você sabe que eu não perco festa de família. Estou em todas!

 

- Exato, e as mães dos bisnetos estão ali pela faixa entre 35 e 45. Firmes, também à cata.

 

- Grande faixa, Lapadula. Flaubert e Balzac sabiam das coisas. É que morreram cedo, não souberam da energia das mulheres de 20.

 

- Esses franceses só pensavam em sacanagem! Pode ver.

 

E eu, que sou um jovem perto daqueles assanhados velhinhos, comecei a pensar no meu caso. Realmente era bom buscar os meninos nas escolas. Reunião de pais. As festinhas, ver os filhos dos amigos virando gente. Acho que essa parte da vida é lúdica, por isso. Você ver o afilhado Fábio (filho do Sergio) advogando, uma sobrinha cobra no designer, um primo dirigindo filmes, a Ana (Reinaldo e Maria Rita), linda, lindíssima. O filho do Tenório com programa na televisão. Os filhos da Sergião de Souza que a gente esbarra a toda hora. Tudo fazendo coisas. Do Bigode ("não estou mais vendo, estou espiando", é genial). A Maria Shirts e o João Góes filosofando os 11 anos. Amigos já avós. Mas que vão demorar muito para pegarem festa de bisneta.

 

Eu, da minha parte, não tive ainda nenhum neto. Não por culpa minha, mas inoperância (sábia, talvez, por enquanto) dos filhos. Já estou mais que preparado. Pode deixar pra dormir comigo. Claro, depois de uns três anos (no mínimo).

 

E pode deixar que eu levo e busco na escola. Afinal, sou um inventor de história e posso muito bem inventar uma conversando com as professoras dos meus netos. Tenho muito a dizer, a ensinar. Acho.

 

Principalmente porque a gente passa a vida toda olhando para elas. Tente imaginar o mundo sem nenhuma mulher. Só homem. A mulher, de qualquer idade, existe para ser olhada, admirada. E, se for possível, amada.