Eram dois irmãos portugueses que foram de Itapecerica para Uberaba, ambas
cidades mineiras, em 1800 e nada. Sobrenome deles: Silva. Arnaldo Rosa
Prata, meu primo, prefaciando o livro da filha Délia, sobre a nossa
família, escreveu:
"Certa vez, percorrendo a cavalo a Fazenda do Buriti os dois irmãos, ao
atravessarem o córrego denominado Lavapés, pararam no leito do mesmo,
enquanto um deles, com a mão em concha e escachando sobre o arreio, bebia
um pouco d'água. Nesta circunstância escapa-lhe da algibeira uma moeda de
prata de 960 réis (patacão) que vai ao fundo lamacento do riacho. Em vão
tentaram os dois irmãos encontrá-la passando o córrego a ser denominado
'da Prata', tendo o apelido se estendido para toda a família."
Portanto, sou um Silva, como tantos que existem por este Brasil afora. Me
parece que 61% do eleitorado.
E
se estou aqui a falar da minha família é porque, entre as várias piadinhas
que estão rodando por aí sobre o fato de um operário chegar ao poder no
nosso País, uma particularmente me tocou mais: "Um Silva, imagine!" Talvez
essas pessoas preferissem um Borhnausen (que eu nem sei se escreve assim),
ou um Maluf, ou um Garrastazu, ou um Geisel. Mas não, o Brasil está nas
mãos (que nem tem dez dedos) de um Silva.
Em defesa da minha família, queria, logo de cara, dizer que o Lula não é o
primeiro parente a ocupar a cadeira presidencial. Podemos começar com o
Epitácio da Silva Pessoa, paraibano. Logo em seguida veio o Artur da Silva
Bernardes, mineiro como eu e provavelmente parente próximo. Talvez você
não saiba o nome inteiro do Jânio. Pois era Jânio da Silva Quadros. E para
encerrar, um que envergonhou a nossa família, o Costa e Silva.
Não estou aqui para defender o atualmente mais ilustre Silva, mas apenas
para constatar que o Serra não teve 30 milhões de votos. Fora o voto dele
e da família, o resto votava era contra o Silva, contra o analfabeto,
contra o metalúrgico, contra o homem do povo. Enfim, 30 milhões votaram
contra o brasileiro natural e, portanto, contra o Brasil.
E
hoje ficam a ridicularizar o homem, torcendo, através de piadinhas,
risinhos e sarcasmos, para o Silva não dar certo, não vingar. E olha que é
muita gente: 30 milhões de pessoas. Felizmente temos 60 milhões de Silva.
Uma parente minha ficou escandalizada porque a mulher do Silva, a Marisa,
disse na televisão que o que ela gosta mesmo de fazer é frango com quiabo.
"Não dá para comparar com a dona Ruth." É, realmente não dá, sem ironia
nenhuma com a minha amiga dona Ruth, a quem respeito e sobretudo admiro.
Eu, aqui, achando tão bom voltar a caipirinha de cachaça, o feijão com
arroz com frango com quiabo e as pessoas (aquele um terço) ainda falando
em Sorbonne. Preocupam-se em que língua o Silva vai conversar com o
companheiro Bush, sem se darem conta que esse Bush é considerado pelos
próprios americanos um... um... deixa pra lá. Não percebem que não vai ser
a língua a ser falada a tônica da reunião. Mas não percebem mesmo! E são
todos diplomados, falam inglês e comem escargot. Que nojo!
Tudo isso foi escrito em nome da minha família Silva. Já disse que somos
muitos, somos mais de 60 milhões. Deixem a gente trabalhar em paz, beber e
comer o que a gente sempre gostou de beber e comer. Cuidado com a gente.
E
fiquem tranqüilos que desde o começo do século 19 que os Silva não deixam
mais os patacões de prata caírem dentro da água. Ninguém vai tirar
dinheiro da nossa algibeira assim sem mais nem menos, como vinham fazendo,
enquanto outras famílias estavam comendo caviar em Brasília e o dinheiro
sumindo no fundo (fundo?) lamacento do Lago Sul, há algumas décadas.