Paris
- O cigarro aqui na França - e na Europa, em geral - é caro. Um maço custa
uns quatro reais, mais do que um sanduíche na baguete. E cigarro francês não
tem gosto de cigarro brasileiro. Mesmo que seja o Marlboro. Sei lá, tem um
certo quê no ar. Porisso, quando vem gente pra cá, é comum a encomenda,
pelos brasileiros daqui, de um ou dois pacotes.
Meu
filho Antonio, 20, chegou há pouco daí e trouxe uma dessas encomendas. Dois
pacotes de Marlboro, mandados por pais saudosos, para a filha Estela, jovem e
promissora estudante da Sorbonne. O pai da garota é um dos últimos
trotskistas ferrenho em terras brasileiras.
Ao
chegar ao hotel, no entanto, abrindo o placebo cadeado da mala, percebemos que
ela tinha sido cautelosamente revistada por algum pirata alfandegário. O ladrão
havia roubado meio pacote de cigarros.
-
Como vou explicar pra Estela, pai? Ela vai achar que fui eu. Se o cara tivesse
roubado tudo, mas só meio pacote?
Talvez
um ladrão fumante tentando abandonar o vício, ou um ex-fumante querendo
diminuir o nosso.
Enquanto
a menina não ligava, o pacote e meio ficou ali, em cima da mesa de cabeceira,
aguardando o momento de chegar à destinatária. Várias vezes, saindo do
hotel, contive o impulso de pegar um maço. Presente de mãe pra filha, não
se faz essas coisas. Não se mexe em vício que atravessa tantos mares.
Dias
depois, numa já ensoralada madrugada, o brasilianista e belga Matthew Shirts,
corinthiano e também fumante, voltando do jogo Brasil e Holanda, lá de
Marselha, faz amizade com um poderoso usineiro alagoano. Apesar de todas a
usinas e da influência de um, e dos diversos títulos acadêmicos do outro,
eram incapazes de achar uma tabacaria aberta na madrugada parisiense.
O
Mateus se lembrou daqueles cigarros, cujo dono pensava ser o Antonio. Ou eu.
Na calada da noite, o usineiro e o catedrático entram no meu quarto e
surrupiam o outro meio pacote dos cigarros.
Dos
dois pacotes que saíram do Brasil, só restava um.
-
Pai, como é que eu vou explicar pra menina? Primeiro, abrem minha mala e só
roubam meio pacote de Marlboro. Dela. Agora, um usineiro e um
historiador, de comum acordo (!), entram no nosso quarto e levam a outra
metade! Depois o pai da menina, petista da gema, fica sabendo, vão dizer que
ele tem mania de perseguição, que a esquerda brasileira tem que evoluir e
coisa e tal. Imagina, usineiro, mancomunado com americano, desapropriando até
cigarro do povo.
O
caso era sério. Aconselhei o Antonio a entregar os cigarros pra menina antes
que o caso desse em CPI. Antonio localizou Estela e marcaram um rendevú. Já
no telefone, avisou que havia um probleminha com alguns dos cigarros, que
explicaria mais tarde.
Todo
francês desfila com uma baguete, leva a baguete aos parques, ao metrô. Igual
levar cachorro pra passear, leva sua baguete. No metrô, enquanto os franceses
passeavam suas baguetes, meu filho pagiava um pacote de cigarros, que já
havia sido dois.
Dentro
do vagão, um árabe, sem baguette, começa a encará-lo. Parecia que ali, as
palavras mágicas Brèsil, Ronaldô ou Zagallo’s não ajudariam muito. O
sujeito tira uma faca do bolso daquelas que a gente fica abrindo e fechando
com o dedão. Pronto, os cigarros da Estela vão virar fumaça. E o pai
dela vai pensar: franceses, usineiros alagoanos, americanos e árabes, tudo
contra mim.
-
Piratas alfandegários franceses, um usineiro da República das Alagoas com um
historiador americano e um árabe que não respeitava Ronaldô, Estela,
roubaram seu cigarros.
A
história seria mais improvável que a final dessa copa.
Para
infelicidade da Estela, do Antonio e minha, a faca voltou para o bolso do árabe,
mas, antes de descer em Chatelet, pegou o pacote de cigarros, dizendo:
-
Arabie Saudite! Parreirá!!! Merde!
O
Antonio chegou ao ponto de encontro e começou a contar tudo para a Estela e
ela:
-
Esquenta, não. Parei de fumar.
Acho
que o pai dela vai adorar esse história.