Eu acho que a bronca que os brasileiros têm dos argentinos (fora o futebol
e a Copa de 78) é por causa do frio. Você está tranqüilo na sua casa vendo
a televisão e a mocinha vai logo dizendo: “uma frente fria vem da
Argentina”. O ano todo, condicionando a nossa bronca com o frio que vem de
lá, como se fosse culpa deles. Como se eles mandassem a massa de ar fria
apenas para sacanear os brasileiros.
Mas aqui na ilha, quando começamos a ver aqueles carros com placas pretas
e letras e números brancos, dizemos: o verão está chegando. Sim, assim
como eles mandam o frio, comparecem no verão. Em massa quente. E ontem eu
já vi dois carros argentinos. Abri um sorriso.
E aí a gente começa a perceber como é que o verão chega numa ilha como a
de Santa Catarina. Porque em São Paulo você só percebe quando anunciam na
televisão: o verão começa a amanhã.
Aqui o verão começa bem antes. Nas estradas da ilha a quantidade de
caminhões levando refrigerantes e cervejas para o norte e sul é
impressionante. Os outros buzinam para os entregadores dos refrescantes.
Tudo começa a virar festa.
Os umbigos aparecem. E como aparecem. Milhares. Muitos deles com piercing,
Aliás, gostaria de dar um toque nas mais gordinhas: não usem isto.
Piercing é pra cintura fina torneadinha e, se possível morena. Se levam
piercing na barriga, nas costas, ali no limite da calca (e da calcinha)
surgem nacos de tatuagens. Tatuagens que entram lá para dentro, nos
deixando com a imaginação quente e com uma massa fria correndo pela
espinha.
Os bares das praias pintam suas mesas. Os restaurantes trocam suas toalhas
e o sol se põe bem mais tarde, esticando o dia e as nossas canelas.
Outra prova que o verão taí são os telefonemas e mails que começo a
receber perguntando se vou estar aqui no natal, no reveillon, em janeiro
em fevereiro e março. São amigos, amigas, parentes e até alguns abusados
apenas conhecidos. Mas são bem vindos sempre. É, um verão familiar.
Os guardas, os policiais, usam bermudas como uniformes. E sandálias
hawaianas. Um dia, a minha amiga Luciana perguntou a um deles,
referindo-se à sandália: seu guarda, e se precisar correr? Ele sorriu e
respondeu: mas não precisa. É, é um verão tranqüilo.
Claro que alguns argentinos abusam. Noutro ano seis deles estavam pelados
em Canavieiras. Pelados e de porre. Chegou o camburão, colocou os seis lá
dentro, nus. E viajou 800 quilômetros até a fronteira com a Argentina.
Passou a cancela, despejou os seis lá, literalmente sem lenço e sem
documento e voltou. Nenhuma palavra, nenhuma agressão. É, um verão
civilizado.
No momento já faz 24 graus. Promete. E, com os argentinos, chegaram as
cervejas geladinhas. Experimente!
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