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o estado de s. paulo

14/11/2001

 


Eu e a Marta Góes (também jornalista e escritora) educamos o nosso filho Antonio com todo o carinho, zelo e responsabilidade.

Mostramos a ele o caminho do futuro: medicina, engenharia, odontologia, direito ou concurso para o Banco do Brasil.

Inexplicavelmente o Antonio (já com 24 anos) resolveu ser escritor. Vê se isso é profissão que se apresente. Como diria meu pai, "isso não dá camisa para ninguém".

E não é que ontem, terça-feira (dia 13), ele lançou seu primeiro livro-solo?

O nome do livro é Douglas e Outras Histórias. Ele nunca tinha falado desse Douglas nem para mim nem para a Marta. E muito menos nas "outras histórias".

Podia tanto ter puxados os avós: um médico e um engenheiro.

Fazer o que, né? Como disse César, ao atravessar o Rio Rubicão e dar início à guerra civil, "Alea jacta est", que em bom português significa "a sorte está lançada".

Me lembro quando ele tinha 5 anos, passeávamos de carro, ele a olhar as árvores, disse: "A árvore cresce e se derruba. Eu não quero ser árvore, porque eu não quero que derruba eu." Eu e a Marta trocamos um olhar silencioso. Em boa coisa isso não vai dar, acho que pensamos.

Um dia antes do lançamento, eu e ele descendo a Consolação para comer uma carne do Sujinho, me pergunta: "O que você acha de eu ser escritor?" Assim, na lata. Me lembrei de um trecho do Rainer Maria Rilke, no Cartas a um Jovem Poeta. Não, o Antonio não é poeta. Como o pai, felizmente, também escreve bobageiras. Mas vamos ao Rilke, filho, se me permite:

"Pergunta se os seus textos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outros textos e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator.

Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?

Isso acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: 'Sou mesmo forçado a escrever?' Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples 'sou', então construa a sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor.

Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes.

Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza - relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante escritor para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente."

Aqui termina o texto do Rilke e aqui começa um texto do Antonio, chamado Gênesis:

"No início Deus criou a banca de jornal. E Deus viu que era bom. Então Deus reparou que ficava um povo ali em volta, jogando conversa fora, e pôs um isopor com coco gelado, e viu Deus que era bom. E disse Deus: do jornal lereis, do coco comereis e da água que dá no coco bebereis. E todos viram que era bom. Então Deus permutou com a Kaiser um pequeno freezer vertical e passou a vender as mais diversas bebidas: refrigerantes, cervejas, Gatorade. E, vendo Deus que era bom também, arranjou umas mesas e cadeiras de plástico e fez da banca um pequeno bar. E viu Deus, para variar, que era bom. Isso tudo em apenas seis dias. No sétimo, não sabe se descansa ou abre uma churrascaria rodízio."

Aqui termina o texto do Antonio e aqui volta o meu:

- Meu filho, para te receber de abraços e teclas abertos, te mando dois provérbios latinos. "Verba volant, scripta manent", ou seja, as palavras voam, os escritos permanecem. E, para finalizar: "Feci quod potui, faciant meliora potentes": fiz o que pude, façam melhor os que puderem.

Antonio: bem-vindo ao mundo de seus pais, nas boas casas do (nosso) ramo.