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ONDE ANDOU CAMPOS DE CARVALHO

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o estado de s. paulo

14.11.94

 


TEVE REPERCUSSÃO maior do que eu esperava a crônica sobre o desaparecimento do escritor Campos de Carvalho. Sem escrever há exatos 30 anos, ninguém sabia do paradeiro do autor de Vaca de nariz sutil e O púcaro búlgaro, entre outros.

Recebi várias cartas, fax e telefonomas de fervorosos fãs deste que é considerado por muita gente como um dos dez maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Gilberto Martim, de Jundiaí, por exemplo, dá a idéia exata de como agem seus admiradores: ''tenho xerox do Púcaro, roubei um Chuva, infernizei a Codecri e recebi um novo Lua (nem que seja com lascas de pão, escrevi-lhes), e ainda tinha uns sete Vacas, que usava estrategicamente para repor os outros que furtava". "Onde andará o primo Campos de Caivalho", era o título da crônica. Entre os telefonemas, um deles, o mais importante: Lygia, esposa do Campos. Me disse que o escritor ficara sensibilizado com o texto e que aceitava me ver. Quando disse isso para o Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, ele não acreditou: "imagine que eu já coloquei até a polícia para localizá-lo e nada!".

Mas a Lygia, com voz mansa e calma, me explicava ainda pelo telefone: ''o Walter teve alguns derrames e várias pontes de safena. Não está nada bem". Tudo bem, ela marcou uma cervejinha para as quatro da tarde de segunda-feira.

Walter Campos de Carvalho, aos 76 anos, do alto de um décimo quarto andar em Higienópolis, continua louco, como já dizia Guilherme Figueiredo na orelha do Púcaro: "Repito que Campos de Carvalho é um louco. Um louco perigoso. Está demolindo as rotinas da vida: a hora do expediente, a do amor, a dos chinelos diante da televisão, a do bocejo, a hora de mandar as crianças para a cama".

Realmente Campos de Carvalho está com dificuldades para falar e, principalmente, escrever. Mas não para pensar, doidamente, como sempre fez. Insiste comigo que está caduco. Mas ele e eu sabemos que não está. Pergunto se posso fazer uma entrevista com ele. Ele nega: "nem para o Estadão, onde fui repórter na Segunda Guerra Mundial. Não dou entrevistas"! E não adianta insistir. E fica bravo comigo: ''e não me chame de Waltinho. Pode ser carinhoso, mas o meu nome é Walter!"

Mas pergunto por que trinta anos sem escrever. ''Eu tentei várias vezes", ele diz, "mas de tudo o que eu escrevia saía tragédia. Eu queria escrever humor, mas ficava sério..". Pede para a esposa me mostrar exemplares de seus livros, editados na França, com prefácio do Jorge Amado, ídolo e fã. Na orelha, uma francesa o chama de "o mais inquietante escritor brasileiro".

Digo que o único livro dele que eu não tenho é justamente o Púcaro. Ele diz que só tem os últimos dois exemplares. Peço um para fazer um xerox. Ele nega veementemente. ''Vamos que você saia com ele daqui e seja atropelado... Se quiser leva um exemplar da Vaca, eu tenho 33". Mas a Vaca eu tenho dois, retruco. "O Púcaro, não!". E não se falou mais no assunto.

Tomando cervejinha importada e fumando um cigarro muito fininho, faz uma revelação estarrecedora: nunca recebeu um só tostão de direitos autorais dos seus cinco livros. Nada, zero. Seus livros foram editados pela Pongetti, José Olympio, Civilização Brasileira e Codecri. Vive da aposentadoria como procurador do Estado de São Paulo.

Só tem um sonho: ver seus livros reeditados para a nova geração conhecer o seu trabalho. Já está com um contrato assinado com a José Olympio. '`Mas eles ficam dizendo que estão sem papel...".

Algumas cervejas depois ele afirma que eu moro na rua Maranhão. Eu nego. Ele não acredita. Eu digo que moro na Franca. "Mas já morou na Maranhão, não morou?'' Não. ''Tem certeza?'. Foi quando eu me lembrei que morei perto, na Alagoas, entre 82 e 86. Por quê?, pergunto. ''Porque eu te via todo fim de tarde no La Villette tomando cerveja. Eu ia toda tarde lá". Quer dizer que o Brasil todo atrás de você e você ali, durante quatro anos, toda tarde, do meu lado? Sabia que era eu? "Claro!" E por que nunca falou comigo? " Falar o quê? Não tinha o que falar com você"

Este é o Walter Campos de Carvalho, louco como sempre. Maravilhosamente louco, intelectualmente lúcido. Um gênio que passeia a pé pelo bairro de Higienópolis e ninguém sabe quem é aquele senhor de cara amarrada que deve estar pensando em alguma besteira, na bunda de alguma personagem sua, em algum livro que nunca mais vai escrever. "Além do mais, há alguns anos roubaram a minha máquina de escrever..."

Na porta do elevador, noto seus olhos marejados. Solitariamente abraçado à Lygia, pede:

"Volta..."

Foi uma volta aos anos 60.