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Onde andarão? O que fazem?

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o estado de s. paulo

1998

 


Sábado último dei uma manhã de autógrafos do meu último livro na Livraria Cultura, aqui em São Paulo.

E nesses acontecimentos acontecem duas coisas principais: uma é ótima e a é outra péssima. A ótima é que você revê amigos e parentes que não via há muito tempo. E a péssima é que você não pode aproveitar e matar a saudade.

Sim, num dia de autógrafos todo mundo se diverte. Menos o autor, que revê a pessoa querida, aperta e mão e vê que a fila ainda vai longe. Você quer saber das pessoa, se casou e mudou, dos filhos. Nada.

E esse tipo de coisa me faz ficar lembrando de pessoas que passaram pela vida da gente e sumiram. Pessoas com quem a gente conviveu ou admirou, mesmo sem conhecer como, por exemplo a Jaqueline Myrna.

Onde andará está estupenda mulher que cativou toda a minha geração com suas pernas longas e provocadoras, com seus cabelos cacheados e loiros? Estava para o nosso cinema e televisão, como a Brigite Bardot para os franceses.

A Jaqueline sumiu. Há boatos. Mas ninguém sabe, ninguém viu.

Onde  andará o Badaró, colega meu de grupo? E o Manoel  Flávio?

Os campeões de 58. Já percebeu que muitos sumiram? O Dida, por exemplo, que era o titular, até o Pelé estreiar? Camisa dez da Gávea, maior goleador do clube até hoje (acho). O que será que andam fazendo seus colegas Joel e Moacir?

E o padre Felix Zavataro, meu diretor no Salesiano?

E o Edu da Loteca? Lembram dele? No tempo que a loteria esportiva dava uma grana imensa ele, pobre, ganhou milhões de dólares. Logo comprou uma Mercedes Benz e uma cobertura na Vieira Souto, em Ipanema. Onde andará hoje o Edu? Dizem que perdeu tudo. Dizem. Ninguém viu, ninguém sabe.

A dona Yolanda Costa e Silva já morreu?

E o Maranhão, dos festivais? Quem não se lembra da música Gabriela? “Só pra te ver, Gabriela”. Era da turma do Chico e do Toquinho.

E o seu Joaquim do Bar Sem Nome? E o Bar Sem Nome?

E o Pé de Valsa, o Bauer e o Alfredo?

O que foi feito daquelas enceradeiras que tinham três partes giratórias embaixo?

E o Troy Donahue, que encantava as minhas namoradinhas? Abandonou Hollywood?

E o meu querido repórter Tico-Tico?

Onde andam aquelas obturações que caiam? Lembra? não caem mais como antigamente.

O estádio da Rua Comendador Souza ainda está lá, né?

O meu querido professor Ulysses, de português, o primeiro comunista que vi na minha vida. Começo dos 60 e ele fazendo a cabeça de toda uma geração. Dava revistas editadas em Moscou, em português. O muro de Berlim estava sendo levantado, dividindo Berlim e o mundo. Deve ter sido preso na revolução de 64, com toda a certeza. Nossos pais o odiavam. Ele estava nos levando para o mau caminho.

E a Gaúcha, lá da zona de Lins, com seus seios grandiloquentes e eloquentes que cobrava da gente, menor de idade, só meia, se a gente fosse na casa dela de tarde. Meu primeiro sexo a dois. A gente nunca esquece. E aquela baciinha que ficava no canto do quarto? E o criado-mudo, o rolo de papel higiênico para limpar nossos pecados e redimir nossas culpas? E o pechinchê (é assim que se escreve?)?

O padre André, vulgo Jipão, com quem fiz a minha primeira confissão para comungar. Tinha sete anos e ele lá, atrás da gradinha: fez coisa feia? olhou para coisa feia? pensou em coisa feia? deixou que fizessem coisa feia com hoje? Até então eu nunca tinha ouvido falar em coisa feia. Cresci um pouco e logo descobri que aquelas coisas não eram tão feias assim, meu querido Jipão.

Por onde andará o meu primeiro fusca? Deve estar já com 27 anos, o coitado. Será que alguém cuidou dele até hoje? Ou já foi sucateado há muito tempo?

É isso, numa manhã ou noite de autógrafos a gente fica pensando nessas besteiras todas. E, depois, se olha no espelho e fica perguntando: onde é que está aquele eu que tentou engenharia e economia na Usp? Onde está aquele magrinho bom de tênis e péssimo de futebol?

Na verdade eu estou com saudades, hoje, é de mim mesmo.

Desculpe a melancolia (é que estive recentemente em Portugal) e prometo voltar na quarta-feira que vem depois de me achar de novo.