Sábado
último dei uma manhã de autógrafos do meu último livro na Livraria
Cultura, aqui em São Paulo.
E
nesses acontecimentos acontecem duas coisas principais: uma é ótima e a é
outra péssima. A ótima é que você revê amigos e parentes que não via há
muito tempo. E a péssima é que você não pode aproveitar e matar a saudade.
Sim,
num dia de autógrafos todo mundo se diverte. Menos o autor, que revê a
pessoa querida, aperta e mão e vê que a fila ainda vai longe. Você quer
saber das pessoa, se casou e mudou, dos filhos. Nada.
E
esse tipo de coisa me faz ficar lembrando de pessoas que passaram pela vida da
gente e sumiram. Pessoas com quem a gente conviveu ou admirou, mesmo sem
conhecer como, por exemplo a Jaqueline Myrna.
Onde
andará está estupenda mulher que cativou toda a minha geração com suas
pernas longas e provocadoras, com seus cabelos cacheados e loiros? Estava para
o nosso cinema e televisão, como a Brigite Bardot para os franceses.
A
Jaqueline sumiu. Há boatos. Mas ninguém sabe, ninguém viu.
Onde andará o Badaró, colega meu de grupo? E o Manoel Flávio?
Os
campeões de 58. Já percebeu que muitos sumiram? O Dida, por exemplo, que era
o titular, até o Pelé estreiar? Camisa dez da Gávea, maior goleador do
clube até hoje (acho). O que será que andam fazendo seus colegas Joel e
Moacir?
E
o padre Felix Zavataro, meu diretor no Salesiano?
E
o Edu da Loteca? Lembram dele? No tempo que a loteria esportiva dava uma grana
imensa ele, pobre, ganhou milhões de dólares. Logo comprou uma Mercedes Benz
e uma cobertura na Vieira Souto, em Ipanema. Onde andará hoje o Edu? Dizem
que perdeu tudo. Dizem. Ninguém viu, ninguém sabe.
A
dona Yolanda Costa e Silva já morreu?
E
o Maranhão, dos festivais? Quem não se lembra da música Gabriela? “Só
pra te ver, Gabriela”. Era da turma do Chico e do Toquinho.
E
o seu Joaquim do Bar Sem Nome? E o Bar Sem Nome?
E
o Pé de Valsa, o Bauer e o Alfredo?
O
que foi feito daquelas enceradeiras que tinham três partes giratórias
embaixo?
E
o Troy Donahue, que encantava as minhas namoradinhas? Abandonou Hollywood?
E
o meu querido repórter Tico-Tico?
Onde
andam aquelas obturações que caiam? Lembra? não caem mais como antigamente.
O
estádio da Rua Comendador Souza ainda está lá, né?
O
meu querido professor Ulysses, de português, o primeiro comunista que vi na
minha vida. Começo dos 60 e ele fazendo a cabeça de toda uma geração. Dava
revistas editadas em Moscou, em português. O muro de Berlim estava sendo
levantado, dividindo Berlim e o mundo. Deve ter sido preso na revolução de
64, com toda a certeza. Nossos pais o odiavam. Ele estava nos levando para o
mau caminho.
E
a Gaúcha, lá da zona de Lins, com seus seios grandiloquentes e eloquentes
que cobrava da gente, menor de idade, só meia, se a gente fosse na casa dela
de tarde. Meu primeiro sexo a dois. A gente nunca esquece. E aquela baciinha
que ficava no canto do quarto? E o criado-mudo, o rolo de papel higiênico
para limpar nossos pecados e redimir nossas culpas? E o pechinchê (é assim
que se escreve?)?
O
padre André, vulgo Jipão, com quem fiz a minha primeira confissão para
comungar. Tinha sete anos e ele lá, atrás da gradinha: fez coisa feia? olhou
para coisa feia? pensou em coisa feia? deixou que fizessem coisa feia com
hoje? Até então eu nunca tinha ouvido falar em coisa feia. Cresci um pouco e
logo descobri que aquelas coisas não eram tão feias assim, meu querido Jipão.
Por
onde andará o meu primeiro fusca? Deve estar já com 27 anos, o coitado. Será
que alguém cuidou dele até hoje? Ou já foi sucateado há muito tempo?
É
isso, numa manhã ou noite de autógrafos a gente fica pensando nessas
besteiras todas. E, depois, se olha no espelho e fica perguntando: onde é que
está aquele eu que tentou engenharia e economia na Usp? Onde está aquele
magrinho bom de tênis e péssimo de futebol?
Na
verdade eu estou com saudades, hoje, é de mim mesmo.
Desculpe
a melancolia (é que estive recentemente em Portugal) e prometo voltar na
quarta-feira que vem depois de me achar de novo.