PRIMO WALTINHO:
Não sei se você se lembra de mim. Sou filho
da Dídia e neto da Fiíca, sua tia e madrinha. Um dia fui a sua casa no Rio
de Janeiro. Final dos anos 60. Eu estava começando a querer escrever. Queria
conhecer o mestre de toda a minha geração. Você - meio emburrado - me
mostrou os originais de um livro novo que, se não me engano, se chamava
Maquinação sem máquina, especulação sem espelho. Você escrevia os
originais em francês, dizendo que a formação das frases ficava melhor. Você
nunca publicou esse livro, primo.
Se me perrnite, Campos de Carvalho, vou dar
umas leves pinceladas sobre o que você andou aprontando na literatura
brasileira entre 1954 (quando estreou com Tribo) e 1964, quando escreveu a sua
obra-prima O púcaro búlgaro, hoje tão valorizadas em nobres sebos.
Seu primeiro livro foi saudado como
"desconcertante'' Antonio Olinto diria que, "no quadro da literatura
brasileira - em que todas as tendências têm tido ultimamente seguidoras -
Campos de Carvalho, o autor de A lua vem da Ásia, é uma espécie de Henry
Miller". Homero Silva ia mais adiante: "Fenômeno que está exigindo
detido exame e que poderia ser avaliado não apenas pelo seu lado estético,
mas, sobretudo, pela série de indagações que sugere do ponto de vista da
sua própria aparição." Ênio Silveira, dono da Civilização
Brasileira: ''Sua obra é insólita, paradoxal, agressiva, candente." E,
para encerrar, o seu padrinho literário Jorge Amado: ''A literatura desse moço
tem uma força danada. O autor tem um longo e brilhante caminho a
percorrer."
Onde anda você, Walter Campos de Carvalho,
que não escreveu mais, que não percorreu o brilhante caminho apontado pelo
escritor baiano? O Maurilo, meu tio e seu primo, morreu durante a Copa, sabia?
Me deixou a biblioteca dele de herança. E foi lá que encontrei toda a sua
obra, incluindo A vaca de nariz sutil. São livros raros, autografados por você
para a nossa parentada.
Comecei a ler seus livros porque você os
mandava para a minha mãe e ela escondia cá do adolescente, dizendo que
''eram fortes". Lia escondido, olhando para a lua que vinha da Ásia.
Adorava, mas achava que era por ser primo. Mas mais de trinta anos se passaram
e eu fui descobrindo que você tem incontestes e eternos admiradores até
hoje. Sei de gente que xeroca seus esgotados livros e passa de mão em mão.
Quando a Bulgária se classificou entre os quatro finalistas da copa, O púcaro
búlgaro virou tema de acaloradas discussões literárias nos botequins de San
Francisco. E era com orgulho que eu desfilava pelas mesas como seu primo.
Naquele mesmo domingo, enquanto falávamos de você, o Maurilo morria. Morreu
como um púcaro: partido ao meio.
Onde anda você, Campos de Carvalho? Será
que anda cheio de livros inéditos em casa? Aliás, parece coisa de escritor
uberabense: o nosso querido Mário Palmério também anda a dever literatura
da boa há muitos anos.
Você, que um dia escreveu: "Meus irmãos
são Nietzche, Stendhal, Lautréamont, Cesar Bórgia e Gilles de Rais (o Marquês
de Sade era meu tio por afinidade). São vários os meus primos: L,éautaud,
Casanova, Byron, Fernando Pessoa, Montaigne, Andreiev, Aloysius Bertrand. Sou
muito mais nobre que o rei da Inglaterra ou o xá da Pérsia. A nobreza deles
é tão ridícula quanto a divindade do imperador do Japão, filho do Sol e
possivelmente pai da Lua. Nobre sou eu, é Charles Morgan, foram Rilke, Wilde,
Raul de Leoni, Eduardo Guimaraens, Gabrielle D'Annunzio. Nobre é meu amigo
P.C., que já trabalhou na Polícia".
Onde anda você, Waltinho?
Tive a idéia de escrever esta cartinha
familiar quando o Roberto Benevides, nobre editor de esportes do Estadão, ao
saber que eu havia herdado, entre outra obras de valor, as suas, me pediu um
xerox da Tribo. E o fato de eu ser seu primo valorizou muito o meu passe no
jornal.
Vou aproveitar esse finalzinho e sugerir ao
Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que reedite todos os seus livros, num
só volume. Seus priápicos admiradores terão orgasmos literários. E, quem
sabe assim, você saia da tribo, desta chuva imóvel e, qual púcaro búlgaro,
fique olhando para a lua que vem da Ásia como se fosse uma vaca de nariz
sutil.
Seu primo,
Mario Alberto Campos de Morais Prata (neto da
Fiíca)
P.S.: Tomo a liberdade de lhe pedir para
escrever umas crônicas aqui no Estadão. Inclusive sobre o seu tema
preferido: a bunda.