Há
muito tempo não pensava nele. Antes, para vocês mais jovens, umas poucas
pinceladas sobre: se o Tropicalismo teve Zé Celso no teatro, Gil, Caetano,
Tom Zé, Torquato (e tantos outros) na música, Glauber no cinema, etc, etc,
etc, teve Zé Agrippino de Paula na literatura.
Há
exatos 30 anos ele lançava o seu livro “Pan América”. Final dos anos 60,
a época de maior efervescência cultural que este país já conheceu. Editora
Tridente, sucesso absoluto, principalmente para nós um pouco mais jovens que
devorávamos o que ele escrevia. Um gênio, diziam os críticos. Mesmo os mais
cítricos.
Pois
bem. Trinta anos se passaram. Me lembro de ter ido uma vez à sua casa (numa
travessa da rua Tupi). Digamos que era um reduto hippie, moda na época.
Morava uma porção de gente lá. Me lembro do Marcelo Picchi, chegando de São
Carlos, da mulher do Zé Agrippino (Maria do Rosário, grávida), do diretor
principiante Roberto Vignati e muito mais. Era uma festa. Isso foi em 71. Zé
Agrippino, mesmo falando, era exuberante.
Depois
ele sumiu. Mesmo. Boatos correram pela cidade. Teria morrido. Outros afirmavam
que uma viagem de ácido tinha levado ele sei lá para onde. Outros juravam
ter visto ele como mendigo nas ruas de São Paulo. Está na Bahia, afirmavam,
outros. Livros, nunca mais.
Agora,
trinta anos depois, o Zé me volta
em dose dupla, numa mesma manhã. Primeiro, através de uma muito bem feita
resenha-saudade do escritor Sergio Sant’Anna, na Folha de sábado. Acreditem
quem quiser, estava eu a pensar no Zé, depois de ler ,quando me liga uma
mulher.
-
É da casa do escritor Mario Prata?
-
Sim, sou eu.
-
Não sei se você vai se lembrar de mim. Faz vinte e cinco anos que a gente se
conheceu e não se vê. Eu era casada com o Zé Agrippino. Maria do Rosário,
lembra?
Era
coincidência demais. Rosário estava hospedada num pequeno hotel no centro,
ligando para a turma daquele tempo, atrás do ex-marido e pai de suas duas
filhas. E avô de netos. Eu fui o primeiro a ser contatado pela Rosário, hoje
com 48 anos. Resumindo: ela está precisando falar com o cara e não tem a
menor idéia de onde ele esteja.
Mas
deu uma boa notícia. Falou com ele há dois anos e meio e ele parecia estar
bem. Até brincou com ela, a chamando de avó.
Rosario,
um pouco parada no tempo, perguntou pela Leilah Assumpção e o marido (na época
Clovis Bueno). Expliquei que já estavam separados há mais de vinte anos,
Leilah tinha se casado com o Maçã e tinha uma filha (Camila) que já deve
estar com uns quinze anos.
Conversar
mais de meia hora com a linda Rosário foi uma viajem no tempo. Para mim e
para ela. Voltamos a falar naquelas pessoas que frequentavam a casa deles.
Soube de algumas mortes tristes e algumas vidas bem mais felizes.
Não
era da minha conta perguntar o que é ela quer com o ex-marido que não vê há
tanto tempo. Fui discreto e fiquei na minha. Mas senti a maior firmeza nela em
encontrar o vovô dos seus netos.
Dei
algumas dicas, mas foram poucas. Ela está disposta a ir até o Rio na sua
pesquisa.
Para
sentirem um pouco a genialidade do “desaparecido”, leiam o que disse dele
Sérgio Sant’Anna:
“Pan
América é um livro espetacular em todos os sentidos, inclusive o literal, da
palavra. Uma epopéia na primeira pessoa, em que um diretor de cinema, que
jamais se nomeia além de um Eu onipotente, filma em Hollywood a supercatastrófica
superprodução “A Bíblia”, o que levou Eveline Hoisel a intitular sua
tese-livro sobre Agrippino de “Supercaos”. Obra que recomendo muito mais
do que estas poucas palavras que me cabem”.
Sentiram?
Mostra
a sua cara, Zé.
Vamos
reeditar o seu livro e vamos reeditar a sua vida.
Que
a Maria do Rosário o encontre. Não apenas para ela, seus filhos e netos,
para todos nós fãs de carteirinha e tudo.