Impossível não falar do Caio. Do Caio F. Do Caio
Fernando de Abreu, morto domingo, depois de passar os últimos meses da sua vida na casa
dos pais, em Porto Alegre, num bairro chamado Menino Deus, a cuidar de si e de rosas.
Todos sabíamos que ele ia acabar no Menino Deus.
Mas não sabíamos quando. Há mais de um mês ele não escrevia mais suas crônicas no
Caderno 2 de domingo. Os amigos, aqui de São Paulo, desconfiavam. Mas ninguém dizia
nada. Onde andará Dulve Veiga, ou melhor, Caio Fernando?
Na sexta-feira passada fui ao jornal buscar as
minhas cartas. Na caixinha, cinco ou seis para o Caio. Olhei os remetentes: todas
mulheres. As mulheres adoravam o Caio. E os homens, como eu, e tantos amigos comuns,
também. O Caio tinha cara de santo, de anjo, de Dom Quixote. Não foi a doença que o
deixou tão magro. Quando ela chegou, ele já não tinha mais o que emagrecer.
Durante seis meses, em 87, eu, ele e a Lu Vullares
ficamos trancados numa suite do Eldorado preparando uma novela para a Manchete, sob a
tutela do Wilker. A novela nunca saiu. Mas a amizade se consolidou ali. Conversávamos
muito mais que do trabalhávamos. Me lembro que um dia chegou uma carta de Londres dando
conta da morte de um amigo dele. Aids. Caio perdeu o bom humor por uma semana. Mas depois
se levantou, criou personagens engraçadíssimos para a novela.
Ninguém me avisou de nada. Hoje cedo (é
segunda-feira, nove da manhã) acordei, peguei o jornal e estava lá, na primeira página.
E um texto lindo da Lygia Fagundes Telles, amiga e companheira dele há tantos anos. Bateu
fundo, muito funfo. Meu Menino Deus.
Já havia até discutido o teor da crônica de hoje
com o Aluizio Maranhão. Era algo polêmico. Conversei com ele ontem de noite e ele não
me disse nada sobre o Caio. Talvez ainda não soubesse.
Impossível não falar do Caio.
Quando ele esteve pela última vez em São Paulo
convidou a mim e ao Reinaldo Esteves para uma esticada (depois do lançamento do livro
dele) até um local gay chamado A Louca. E foi n'A Louca que eu o vi pela última vez.
Conversamos um pouco numa mesa, tomando cerveja. Depois teve um show da Laura Finokiaro
com todas aquelas luzes. No meio da neblina, da fumaça e dos spots, vi o Caio sair do
salão e passar por mim pela última vez, iluminado de azul e vermelho, com uma névoa de
gelo seco em torno da sua cabeça. Sumiu com um anjo sem trombeta. Sabia que nunca mais o
veria.
Ele iria cuidar do jardim de Menino Deus.
Caio escreveu um dia sobre sua (e minha) amiga Ana
C. Retruquei com uma crônica/crônica para ele, aqui neste espaço. Ele me mandou uma
carta, a última:
"Pratinha querido, obrigado pela carta que
você me escreveu. Pensei em responder pelo jornal mesmo - para dizer principalmente que
acho você muito mais Ouro do que Prata - mas ia ser muita veadagem toda essa jogação
pública de confetes, não?
Hoje gostei mais ainda ao ler que choveram anjos na
sua horta depois da crônica. Adorei aquela história do diário da gestação.
Anjo-da-guarda é papo quente. Se bem que alguns são meio vadios e nem sempre cumprem
horário integral.
Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo
dizer, um dia de salto 7, outro de sandália havaiana. É preciso ter muita paciência com
este virus do cão. E fé em Deus. E falanges de anjos-da-guarda fazendo hora extra. E
principlamente amigos como você e muitos outros, graças a Deus, que são melhores que
AZT.
Que tudo esteja em paz com você. Dá um abraço no
Reinaldo e em quem perguntar por mim.
Um beijo do seu velho
Caio F.!"
Onde andará Caio Fernando? Em Menino Deus,
certamente. Eternamente.