—Mãe,
estou escrevendo na última página da Criativa.
—Da
onde, meu filho?
—Da
revista Criativa, mãe. Não conhece? Vende uns 500 mil exemplares por mês.
—Só?
O Oscar, disseram que tinha 1 bilhão vendo. É revista de arquiteto, meu
filho?
—Não,
mãe. Revista de mulher.
—Pelada?
—Não,
mãe, é séria. Feita de mulher para mulher.
—E
você vai escrever aí? Na última página, ainda por cima? Por que não
deixam você escrever na primeira? Por que você não escreve no Cruzeiro? Tão
boa revista, meu filho.
—Já
fechou, mãe.
—Meu
filho, acho melhor não contar para o seu pai que você está escrevendo em
revista de mulher. E a cidade, meu filho? Você conhece aqui, cidade pequena,
vai todo mundo comentar: "você viu o filho dela? Sempre
desconfiei"...
—Imagina,
mãe. Tem moldes, receitas...
—Receita?
Você vai escrever receitas, meu filho? Você nunca conseguiu fritar um ovo.
—Não,
mãe. Vou falar do meu ponto de vista sobre as mulheres.
—Meu
filho, não faça isso. Você sabe muito bem que você não entende nada de
mulheres. Como marido foi um fracasso. Quantas mulheres você já teve,
menino? Nenhuma te agüentou. Volta para a Globo, meu filho. Vai escrever
novela, vai. Tão bonitas as suas novelinhas.
—Vou
falar sobre orgasmo múltiplo.
—Múltiplo?
Meu filho, que vergonha. Se o seu pai sabe disso, te mata. E a Parati, escreve
para a Parati.
—Tá
fechou. rnãe.
—E
a Playboy? Por que voc~E não escreve para a Playboy? Pelo menos na cidade não
vão comentar.
—O
Nirlando Beirão está escrevendo lá.
—Meu
filho, aquele barbudinho que casou com a sua mulher? Estou quase chorando, meu
filho. O primeiro marido na revista de mulher e o atual... Você está me
fazendo sofrer tanto. Sabe o que eu acho, que você está escrevendo nessa
revista para namorar as moças de lá.
—Imagina,
mamãe, é uma revista moderna, criativa mesmo.
—Mas
por que te puseram na última página? Estão abusando de você, meu filho. A
gente educa, perde noites de sono, se preocupa, dá o melhor da gente para
isso, meu filho?
—Pagam
bem, mãe.
—O
dinheiro não traz felicidade, meu filho. Na Globo, sim, que você ganhava
bem.
—A
revista é da Globo, mãe.
—Vai
sair na televisão?
—Não,
da Editora Globo.
—Mas
não aparece na televisão? Ah, meu filho, que notícia mais triste. Você não
tem vergonha? O Nirlando lá na Playboy e você aí? O que é que os seus
filhos não vão pensar? Eu disse para você não se separar. Sabia que coisa
boa não ia dar. Vão ficar rindo dos seus filhos na escola, meu filho.
—Fica
tranqüila, mãe. Vai dar tudo certo.
—Eu
me lembro, quando você tinha 14 anos e começou a fazer coluna social lá em
Lins. Comentei com o seu pai: 'Isso não vai dar certo". Olha onde você
terminou.
—Mãe,
eu estou feliz. Isso é uma conquista profissional.
—Já
sei de tudo. Você vai querer que eu te mande aquela receita do meu vatapá, não
é? Eu mando. Mãe é para isso mesmo. Tenho também aqui uns moldes de uns
"taierzinhos".
—Não
precisa, mãe.
—Tem
uma moça aqui que faz umas cerâmicas muito bonitas, com rosas cor-de-rosa,
uma beleza. Quer que eu peça para ela mandar umas fotos? Coitada, ela está tão
necessitada. Talvez se sair aí na Criação.
—Criativa,
mãe.
—E
o seu chefe é simpático, te trata bem? Você tem chegado no horário, meu
filho?
—É
chefa. Mulher.
—Meu
filho, recebendo ordens de uma mulher? Realmente é melhor o seu pai não
saber disso. A revista vai vender aqui na cidade?
—Claro.
—Você
quer me matar, meu filho. Fala a verdade. Quer ou não quer? Uma chefa, era só
o que faltava. Só falta ela ser mais nova do que você.
—É
o fim do mundo. (começa a chorar, desliga)
—Mãe,
mãe...