A fila é um sofrimento. É mesmo? Depende como
você encara uma fila. Em primeiro lugar, você não pode levar a fila a sério. Existem
filas e filas. Uma fila de banco, por exemplo, é completamente diferente de uma fila de
padaria. Uma fila de campo de futebol, não tem nada a ver com a fila do supermercado.
Senão, vejamos.
A pior fila, no consenso geral, é a fila do banco.
Sim, você começa a sofrer com ela no dia anterior. Amanhã vou ter que ir ao banco. E
você já dorme com aquela fila na cabeça. Sonha com ela. Ela vai até à rua. Ninguém
está feliz na fila do banco. Já notou? O sujeito que está ali está sofrendo. Já chega
sofrendo. Ele sabe que vai sair dali um pouco mais pobre, no mínimo.
Mas o pior na fila do banco é que a gente, que
está mais atrás, olha a quantidade de papelzinho que o da frente tem na mão e logo
pensa: isso vai longe. E quando a menina do caixa pede licença e sai para pedir uma
orientação da gerente lá na outra sala? Todo mundo olha no relógio. E a inveja que a
gente fica do segundo da fila? Dá vontade de matar o sujeito. E aquele que disfarça?
Está só com um papelzinho na mão. Mas quando chega na vez dele, abre uma pasta. Uma
pasta! De repente você começa a observar as pessoas na fila e nota que são todos boys,
empregadas ou secretárias. Só você é "normal" ali. Quem mandou ser pobre?
Vamos para a padaria. A fila é completamente
diferente. Normalmente são pessoas que estão ali para comprar alguma coisa para aquela
noite mesmo. É uma delícia ficar ali na fila observando. Ali você logo descobre se a
pessoa é solteira ou casada, se mora sozinha ou não. Os hábitos de cada um. Existe
solidão maior que aquele senhor que está levando uma (uma!) cervejinha para tomar em
casa? Já a mocinha leva uma coca light e um (um!) pãozinho. E aquela senhora que veio
comprar um rolo de papel higiênico? O garoto deve ter convencido a mãe para levar aquele
sonho de valsa. Ele está babando, olha lá. E aquele sujeito com cara de hippie que está
levando leite para casa? Já aquela mocinha tem bebê em casa. Leite Ninho debaixo do
braço. Olha lá o alcóolatra. Uma garrafa de uísque. Nacional! A noite promete.
Aqueloutro vai apenas pagar a coxinha com cafezinho. Está jantado? O outro é fumante.
Leva logo um pacote. Aquele é um bom pai. Paga a cachacinha dele, mas leva quitutes para
a esposa e os filhos. Coitadinho do senhor que comprou uma (uma!) camisinha. Quais seus
planos?
Já a fila para comprar ingressos do jogo é outra
coisa. Ali ninguém está normal. Ou está tenso ou eufórico. Sua principal preocupação
é com o fura-fila. Seu pescoço parece um periscópio. Ai de quem furar a fila! Não
encoxa! Não encoxa! O palavreado também difere muito das demais filas. Ali ele solta a
franga, preparando-se para xingar o juiz.
Mas a melhor fila para se curtir, para entender e
conhecer o carater, o nível social das pessoas, é a fila do supermercado. Nada como
ficar ali com o seu carrinho, observando o que as pessoas tiram dos seus carrinhos. Ali
vai uma vida inteira. Você fica sabendo de tudo da pessoa. Tudo. Seus gostos, suas
manias, seus desejos mais íntimos. Cada carrinho daquele carrega uma vida inteira. Ou
mais de uma vida. Ali vão coisas para a compradora, para o marido dela, para os filhos
dela, para a vovozinha dela. E ali mesmo, você fica sabendo se ela tem cachorro ou gato
em casa. E se os trata bem. Sem contar aquele veneno para ratos. E fica sabendo também,
pela quantidade, se o super é para um dia, uma semana ou é mensal. Bem, pela quantidade
de papel higiênico, a coisa vai longe.
Tem a fila do cinema, onde você fica torcendo para
não passar nenhum desmancha-prazer que está saindo da sessão anterior fazendo
comentários sobre o filme. Tem a fila do exame de fezes, todo mundo com uma caixinha na
mão, sorrindo sem graça. Tem a fila de contas atrasadas, desagradabilissima: você sabe
que todo mundo que está ali, por um motivo ou outro, não pagou no dia.
Toda fila tem seus encantos (basta saber curtir).
Menos a fila da fome, no nordeste, esperando comida. Não dá para olhar para a foto (na
primeira página dos jornais) daqueles brasileiros e fazer brincadeira. Aquela fila é uma
coisa muito séria, gente.