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O VIRUS FALANTE

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ISTOÉ

1998

 


Assim como os computadores vão se modernizando a cada dia, os virus que se infiltram neles, também. Estou com um virus interessantíssimo no meu. Entrou no computador de mesa e no inocente notebook. Em geral os vírus entram para te aporrinhar a vida. São todos travessos e traquinas. Este meu, também. Só que ele é chato e falante. Sim, ele fala comigo, discute o meu trabalho, fica cansado, pede que eu dê um tempo. Tudo começou no dia que eu estava escrevendo uma crônica e ele me perguntou:

Ele - Você tem certeza que quer salvar este documento?

Eu - Tenho.

Ele - Absoluta? Tá uma merda!

Eu - Olha aqui, cara, o computador é meu, eu salvo o que eu quiser.

Ele - É que você já escreveu uma crônica parecida para o Estadão, em maio de 95.

Eu - Como é que você sabe disso?

Ele - Está na memória. Quer ver?

Eu - Não, não precisa, não. Eu me lembro.

Ele - Se quiser, eu salvo. Mas não te aconselho. Por que você não escreve uma crônica dizendo que sua filha Maria chegou segunda-feira no vôo 2245 da British, de Londres?

Eu - Como é que você sabe disso?

Ele - Você se esqueceu dos inúmeros e-mail que trocaram nas últimas semanas? Você jogou tudo no trash, mas está lá. Quer ver?

Eu - Não, deixa para lá.

Ele - E o fax para a secretaria da Cultura que o Zélio te pediu?

Eu - Já mandei.

Ele - Mas não chegou. Deu error. Pode ver nos arquivos. Outra coisa, você não acha que está entrando muito no programa Gostosas?

Eu - Isso quem faz é o meu filho.

Ele - Por falar nisso, ele está escrevendo muito melhor do que você.

Eu - Eu preferia não discutir isso. Você não tem o direito de analisar os nossos trabalhos.

Ele - Claro que tenho. Se eu quiser, eu apago tudo da memória rígida. A sua parte.

Eu - Por favor, não seja tão rígido assim.

Ele - E aquela menina de 17 anos (17 anos!) com quem você se corresponde nos Estados Unidos? A Renata sabe disso?

Eu - Você está confundindo as coisas. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Ele - Quer que eu abra o último e-mail para a Marina? Quer?

Eu - Por favor, vamos mudar de arquivo.

Ele - Se você quiser eu apago todos os recados que não sejam para a Renata.

Eu - Pensando bem, seria uma boa.

Ele - E o seu último livro, que você mandou para todo mundo pedindo comentários? Você não acha que deveria ouvir a minha opinião? Afinal tenho, na minha memória, tudo o que você escreveu nos últimos anos.

Eu - É isso que me preocvupa. Vou dar um reset e entrar de novo. Quem sabe assim você some.

Ele - Pode dar quantos resets quiser. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Mas, quanto ao seu livro novo...

Eu - Dispenso a sua opinião. Você é um virus, não deduz, não tem opinião própria.

Ele - Claro que tenho. Sou seu alter-ego, seu super-ego. Sei tudo que passa pela sua cabeça. Está aqui, tudo arquivado. Sei mais de você do que você mesmo. Por exemplo: você não tem vergonha de, nessa idade, imprimir as meninas da Playboy?

Eu - Fala baixo. Isso foi uma vez ou outra.

Ele - Quer que eu te diga quantas mulheres nuas você já imprimiu?

Eu - Melhor não! Melhor não!

Ele - Você tem feito pouco sexo virtual. Eu adoro quando você faz isso. Também gosto. Virus gosta de sexo.

Eu - Olha, você está sendo inconveniente.

Ele - Vou te confessar uma coisa. Sabe aquele italiana, a Paloma, que vocês ficam falando sacanagem um para o outro? Pois bem, é um homem. Um homossexual.

Eu - Não acredito. Você está me sacaneando. A Paloma? Não acredito!

Ele - É de Pisa, não é? O nome dele é Bernardo. E você dizendo aquelas frase todas melosas para ele.

Eu - Meu Deus, como é que eu faço para te deletar, para sumir com você?

Ele - Sou indeletável. Você não percebe que eu sou a sua consciência, que eu sou o seu analista, o seu crítico, o seu anjo da guarda cibernético?

Eu - Meu Deus!

Ele - Olha, são 10:37. Está na hora de mandar esta crônica para a Istoé. Cá entre nós, uma encheção de linguiça.

Eu - Dispenso a sua opinião.

Ele - Acho que vou apagar tudo. Você consegue fazer coisa melhor. É isso que dá deixar para a última hora.

Eu - Por favor, suma! Saia da minha tela, da minha vida!

Ele - Saio, não! Que tal encerrar isso logo e a gente ir jogar um pouco de paciência? Você está nervoso, tenso. Relaxa que a Renata está para chegar. Vocês não vão almoçar no Dona Felicidade?

Eu - Como é que você sabe?

Ele - Você recebeu o e-mail hoje às 8:58, não foi?

Eu - Meu Deus, criei um monstro dentro de mim, dentro do meu computador. Estou sendo analisado, vigiado, controlado. Meu Deus, onde está a minha velha Lettera 22? Por favor, papel e lápis.

Ele - Manda logo que já está com mais de 3.500 dígitos...

Eu - Ó céus!!!

Ele - 3.770 dígitos. Salva logo isso, Bebé, que é como a sua irmã te chama!