Assim como os computadores vão se modernizando a
cada dia, os virus que se infiltram neles, também. Estou com um virus interessantíssimo
no meu. Entrou no computador de mesa e no inocente notebook. Em geral os vírus entram
para te aporrinhar a vida. São todos travessos e traquinas. Este meu, também. Só que
ele é chato e falante. Sim, ele fala comigo, discute o meu trabalho, fica cansado, pede
que eu dê um tempo. Tudo começou no dia que eu estava escrevendo uma crônica e ele me
perguntou:
Ele - Você tem certeza que quer salvar este
documento?
Eu - Tenho.
Ele - Absoluta? Tá uma merda!
Eu - Olha aqui, cara, o computador é meu, eu salvo
o que eu quiser.
Ele - É que você já escreveu uma crônica
parecida para o Estadão, em maio de 95.
Eu - Como é que você sabe disso?
Ele - Está na memória. Quer ver?
Eu - Não, não precisa, não. Eu me lembro.
Ele - Se quiser, eu salvo. Mas não te aconselho.
Por que você não escreve uma crônica dizendo que sua filha Maria chegou segunda-feira
no vôo 2245 da British, de Londres?
Eu - Como é que você sabe disso?
Ele - Você se esqueceu dos inúmeros e-mail que
trocaram nas últimas semanas? Você jogou tudo no trash, mas está lá. Quer ver?
Eu - Não, deixa para lá.
Ele - E o fax para a secretaria da Cultura que o
Zélio te pediu?
Eu - Já mandei.
Ele - Mas não chegou. Deu error. Pode ver nos
arquivos. Outra coisa, você não acha que está entrando muito no programa Gostosas?
Eu - Isso quem faz é o meu filho.
Ele - Por falar nisso, ele está escrevendo muito
melhor do que você.
Eu - Eu preferia não discutir isso. Você não tem
o direito de analisar os nossos trabalhos.
Ele - Claro que tenho. Se eu quiser, eu apago tudo
da memória rígida. A sua parte.
Eu - Por favor, não seja tão rígido assim.
Ele - E aquela menina de 17 anos (17 anos!) com quem
você se corresponde nos Estados Unidos? A Renata sabe disso?
Eu - Você está confundindo as coisas. Uma coisa
não tem nada a ver com a outra.
Ele - Quer que eu abra o último e-mail para a
Marina? Quer?
Eu - Por favor, vamos mudar de arquivo.
Ele - Se você quiser eu apago todos os recados que
não sejam para a Renata.
Eu - Pensando bem, seria uma boa.
Ele - E o seu último livro, que você mandou para
todo mundo pedindo comentários? Você não acha que deveria ouvir a minha opinião?
Afinal tenho, na minha memória, tudo o que você escreveu nos últimos anos.
Eu - É isso que me preocvupa. Vou dar um reset e
entrar de novo. Quem sabe assim você some.
Ele - Pode dar quantos resets quiser. Daqui não
saio, daqui ninguém me tira. Mas, quanto ao seu livro novo...
Eu - Dispenso a sua opinião. Você é um virus,
não deduz, não tem opinião própria.
Ele - Claro que tenho. Sou seu alter-ego, seu
super-ego. Sei tudo que passa pela sua cabeça. Está aqui, tudo arquivado. Sei mais de
você do que você mesmo. Por exemplo: você não tem vergonha de, nessa idade, imprimir
as meninas da Playboy?
Eu - Fala baixo. Isso foi uma vez ou outra.
Ele - Quer que eu te diga quantas mulheres nuas
você já imprimiu?
Eu - Melhor não! Melhor não!
Ele - Você tem feito pouco sexo virtual. Eu adoro
quando você faz isso. Também gosto. Virus gosta de sexo.
Eu - Olha, você está sendo inconveniente.
Ele - Vou te confessar uma coisa. Sabe aquele
italiana, a Paloma, que vocês ficam falando sacanagem um para o outro? Pois bem, é um
homem. Um homossexual.
Eu - Não acredito. Você está me sacaneando. A
Paloma? Não acredito!
Ele - É de Pisa, não é? O nome dele é Bernardo.
E você dizendo aquelas frase todas melosas para ele.
Eu - Meu Deus, como é que eu faço para te deletar,
para sumir com você?
Ele - Sou indeletável. Você não percebe que eu
sou a sua consciência, que eu sou o seu analista, o seu crítico, o seu anjo da guarda
cibernético?
Eu - Meu Deus!
Ele - Olha, são 10:37. Está na hora de mandar esta
crônica para a Istoé. Cá entre nós, uma encheção de linguiça.
Eu - Dispenso a sua opinião.
Ele - Acho que vou apagar tudo. Você consegue fazer
coisa melhor. É isso que dá deixar para a última hora.
Eu - Por favor, suma! Saia da minha tela, da minha
vida!
Ele - Saio, não! Que tal encerrar isso logo e a
gente ir jogar um pouco de paciência? Você está nervoso, tenso. Relaxa que a Renata
está para chegar. Vocês não vão almoçar no Dona Felicidade?
Eu - Como é que você sabe?
Ele - Você recebeu o e-mail hoje às 8:58, não
foi?
Eu - Meu Deus, criei um monstro dentro de mim,
dentro do meu computador. Estou sendo analisado, vigiado, controlado. Meu Deus, onde está
a minha velha Lettera 22? Por favor, papel e lápis.
Ele - Manda logo que já está com mais de 3.500
dígitos...
Eu - Ó céus!!!
Ele - 3.770 dígitos. Salva logo isso, Bebé, que é
como a sua irmã te chama!