Página anterior

O VENTO SUL

Próxima crônica

o estado de S. Paulo

17/09/2003

 


Outro dia falei aqui do mar, que eu descobri recentemente. Agora vou soprar o vento.

É, também não conhecia o vento, até vir morar numa ilha. E quando eu falo em vento, estou me referindo àquele que venta sozinho, sem prédios para interromper seu vôo, como acontece em São Paulo. Vento puro, eu quero dizer, aquele que tem começo, meio e fim. O vento naturalmente natural.

Logo que cheguei aqui comecei a ouvir falar nos ventos. São vários e seu nomes vêm da origem geográfica, obviamente. Vento Norte, Vento Sul, Sudoeste, etc. Mas o mais famoso, o vento, é mesmo o Vento Sul.

Inesquecível.

Pois sábado teve Vento Sul, pra deitar e rolar. Pra começar ele inverte a posição das ondas do mar. É bravo, mas já é conhecido da população. Às vezes, pode até derrubar uma pessoa desavisada na rua. Mas não machuca. O Vento Sul não é do mal. O Vento Sul faz bem. Pode, e faz, inverter os guarda-chuvas e as sombrinhas, mas é apenas para divertir a quem assiste ao espetáculo. Levanta as saias das moças, balança os seios, derruba laquê.

Quando chega, as gaivotas andam a pé e de cabeça baixa, porque não são idiotas. Os bem-te-vis somem. Onde ficam?, jamais saberemos.

Vem do mar, é também um fruto do mar. Agita a areia, balança as árvores, faz caírem as folhas secas, limpa as ruas, fecha o aeroporto, abre suas asas sobre nós, assovia nas janelas um gemido doido, balança a pança e depois vai embora, o velho guerreiro. O Vento Sul faz parte desta ilha.

Pois aqui na ilha tem um barco de turismo, um hotel e uma pousada com o nome de Vento Sul. Motel, não sei, mas o nome seria até apropriado.

Ele pode ser seco, como o de sábado, ou molhado, quando traz a chuva junto.

Dois estilos, duas belezas. Com água, lava a ilha, rega as plantas, limpa as vidraças, assovia mais forte. Mas é quando tem sol que ele mais brilha. E no sábado, de noite, a Lua cheia testemunhava, toda risonha, seu doce balanço a caminho do mar (desculpe, não resisti à idéia fácil).

E foi aqui nesta ilha que o Guga, nosso tenista-mor, foi criado. Ao zumbido do Vento Sul. Quantas e quantas vezes o vento não fez desviar a sua bola certeira, não o fez cometer erros não forçados? Ou melhor, forçados apenas pela força do Vento Sul?

Pois ultimamente tenho assistido aos jogos do Guga nas chamadas quadras rápidas. E todo mundo percebe que está faltando alguma coisa ao nosso campeão. Algo que ficou lá atrás. Vou chutar: tá faltando o vento que o embalou na infância e adolescência. Não se fazem ventos por aí como o vento da ilha do Guga.

O Vento Sul vai voltar, Guga, balançando seus cabelos e sua cabeça. Basta dar tempo ao vento.