"É mais fácil eu existir do que Deus".
Walter Campos de Carvalho não acreditava nem em
Deus, nem na lógica e muito menos na existência da Bulgária. Talvez não acreditasse
também na morte. Tanto é que, quando o coração baqueou, ele passeava tranquilamente
pelas alamedas de Higienópolis. Outono, Semana Santa. Sexta-feira, duas da manhã, hora
que ele costumava dormir, "fechou os olhos", como disse Lygia Rosa, pintora,
mulher dele.
Campos de Carvalho é um dos maiores escritores
brasileiro deste século. Não por acreditar em nada. Mas por trabalhar como nunca com a
loucura e o humor. Ficou os últimos trinta anos sem escrever. Mal humorado. Tem sua
lógica.
Mas ele, que era tão ateu que até mesmo se lembra
da hora, dia e local quando resolveu romper com o forte catolicismo da família Cunha
Campos, lá em Uberaba. Foi descendo a rua Lauro Borges, em frente ao Fórum. Pá!
E o destino? Será que nisso ele acreditava? Ou
será que ele morreu no mesmo dia de Jesus Cristo só para sacanear? O que ele nunca
poderia imaginar é o nome do motorista do carro fúnebre: João de Jesus. Verdade. Fui ao
velório e ao enterro. O gênio era primo da minha mãe. E eu me orgulho de ter o Campos
dele no meio do meu nome.
Quatro pessoas no velório. Quatro! Nenhum amigo,
ninguém da imprensa. Nídia, a sobrinha de Lygia, o marido Basile, eu e meu filho
Antonio. Antonio estivera com ele dois dias antes fazendo aquela entrevista que saiu aqui
no Caderno 2 de sábado. Quatro pessoas.
Não gosto de ver o corpo no caixão. Me dá um frio
não sei onde. Antonio foi.
- Está com um sorrizinho irônico nos lábios.
Nunca vi ele com a cara tão boa.
Senti tanto a morte desse cara... Como parente,
amigo, escritor. Mas, principalmente, como admirador. Tenho certeza que ele é um dos
três que me influenciaram, que me marcaram, que me deram tesão para ser escritor.
Não tinha gente para carregar o caixão, gente! O
João de Jesus ajudou. E lá fomos nós em cortejo fúnebre de dois carros cremar o homem
lá na Vila Alpina. Esquisito isso de deixar o cara lá e ir embora sem aquela imagem
clássica do caixão descendo terra abaixo.
Quatro pessoas!
Tenho a sorte e o orgulho de ter aqui na minha
gaveta, o último texto do Campos de Carvalho. Aliás, quando ganhei dele, cheguei a
publicar aqui. Um pedaço de papel cortado pela metade, escrito com a mão já trêmula de
quem estava com oitenta anos. Chama-se "Segundo Sonho". Claro, perguntei pelo
primeiro sonho. E ele:
- Não tem primeiro sonho.
***
SEGUNDO SONHO
(Campos de Carvalho)
Estou no palco sozinho.
Sei que a peça vai começar daí a instantes, mas
ignoro completamente meu papel, o que tenho a fazer e sobretudo a dizer.
O script está na minha mão, mas não consigo
lê-lo: as letras se embaralham e o sentido do texto muda sem que haja qualquer
concatenação. Tenho a vaga idéia de que um casal (dois atores famosos e tarimbados)
deve chegar a qualquer momento e então eu terei que dirigir-lhes a palavra e começar a
atuar.
Pela janela vejo dois vultos suspeitos tramando
alguma coisa e num deles reconheço o ator com quem contracenarei.
O casal logo depois entra no palco, sem se anunciar,
e eu, no desespero, chego a pedir que espere que eu leia ao menos as primeiras palavras do
meu papel.
A cortina se levanta e eu decido improvisar tudo em
tom humorístico e sem sentido.