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O velho branco

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o estado de s. paulo

20/06/2001

 


Todo mundo já escreveu sobre o branco. De Machado a Jubaldo, passando por Eça e Millôr. O branco na hora de escrever. O tal branco deve ter este nome pois - antigamente - a gente via a página em branco. Agora vemos a tela do micro. Um branco reluzente, definitivo. É, gente, deu branco e você vai ter que conviver com ele (e comigo) até o fim da crônica.

E, como sempre acontece quando dá o branco, todos nós escrevemos sobre ele, o branco. Ou seja, até aqui a coisa continua branca.

O mais interessante é que o branco não tem nada a ver com a falta de assunto. Poderia falar que vi o corpo do Marcelo Fromer estendido na Avenida Europa. Estava indo para Minas, perdi o vôo no congestionamento. Uma coisa me chamou a atenção naquele momento (15 para as 7 de segunda passada). Além de um policial a desviar o trânsito, havia um rapaz quase mulato - pardo, digamos - muito nervoso, a ajudar o policial. Na hora, pensei que poderia ser amigo do homem atropelado (que eu só viria a saber ser o músico na manhã seguinte), pois estava muito nervoso. Depois cheguei a imaginar que poderia ser o próprio atropelador que estava ali, dando uma força até a ambulância chegar. Depois, quando soube que o motoqueiro havia fugido, que teria sido o próprio motoqueiro que teria parado a moto lá na frente e ali, anônimo, tentava dar uma ajuda. Mas aí já acho que é ficção.

Poderia esquecer o branco e falar da peça Um Porto para Elizabeth Bishop, que está no Sesc Anchieta. Mas poderia pegar mal, porque a autora, a Marta Góes, além de minha amiga, é mãe dos meus filhos Antonio e Maria. E a atriz, Regina Braga, comadre de longa data. Mas como o Loyola já andou aqui neste mesmo espaço rasgando a seda, não me calo. O espetáculo é daqueles imperdíveis. Quinze anos de Brasil em uma hora e vinte, com um humor tão refinado e profundo que o público fica em dúvida se chora ou ri. Uma coisa que fica entre o coração e a cabeça, pulsando por muitos dias. Como os poemas da Bishop, uma espécie de Mateus Shirts dos anos 50.

Poderia ainda falar do Felipão. Que bom ver de novo uma pessoa normal a dirigir o nosso time. Felipão rasgou as camisas de seda do Vanderlei da Silva e do Émerson Leão. Temos que dar umas gravatas é nos uruguaios. Além do mais, chamou o Mauro Silva que eu nunca entendi por que andava de fora.

Ninguém passa pelo Mauro Silva. Na minha opinião, o melhor jogador da Copa dos Estados Unidos.

Poderia, também, falar do povo brasileiro que mais uma vez prova que, quando chamado à ajuda, colabora. As luzes estão apagadas, os televisores não ficam mais ligados o dia inteiro. Você poderia dizer: isso é medo da multa ou da tarifada. Sei não. O Otto Lara Resende já dia que "o mineiro só é solidário no câncer", frase imortalizada pelo Nélson Rodrigues. O Itamar pode não ser solidário com o resto do Brasil, mas o resto do brasileiro é. O mais bonito é que a solidariedade do apagão não é com o nosso presidente, não. É com o País mesmo.

Fora o branco que está lá na CBF. Um branco-pizza, quatro queijos. Se o Remo entrar, o Malutron também vai querer. Teremos 30 times. Por enquanto.

E sempre sobraria um espaço para falar no ACM. Estou achando o Senado muito sem graça sem ele. Se o Jader (e suas esposas) também bailarem, aquilo vai ficar de uma monotonia pachorrenta. Se pelo menos o Maluf estivesse lá... E os 200 milhões do Maluf na ilha da fantasia, hein? Com o nome de toda a família. Genros e noras. Família que permanece unida.

Viu como o branco, não era tão branco assim em época de apagão?

E que aquele nordestino onde pulsa o coração do titã tenha uma longa vida.

Cheia de música.