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o urubu

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Revista BCP

10/10/2002

 


Acordo cedo aqui na ilha onde moro. E – tem dias – que chego até a ver o primeiro noticiário da televisão. E as notícias normais que aparecerm ali... você sabe. Tão normais que fiquei mal e fui para a praia aqui na frente. É sol, é sal, é sul, já disse o poeta há uns quarenta anos.

O que eu vi lá na praia foi o seguinte:

Uma gaivota mergulhou e fisgou um peixe dentro da água. Mas não dava para engolir de uma vez, como elas sempre fazem. Era um pouco grande para sua fina garganta. Trouxe para a areia. Eu, a uns vinte metros, de olho na cena. O peixe ainda vivo, balançava-se todo. Ela colocou uma perninha fina na cabeça do danado e foi bicando o corpo dele até que ele ficassse sossegado, morto. E começou a comer o peixe. É a vida, minha senhora. Nós comemos peixe também, não é?

Daí a pouco chegam mais duas gaivotas e tentam repartir o apetite. Mas a dona no peixe não permite. Deve ter dito: tem peixe pra todas, mas me deixa comer a minha parte primeiro. As outras duas ficaram ali, como se gaivotas não fossem, mas leões de chacará, a proteger a tranqüila comilança da primeira.

Estava tudo bem, todas felizes. Foi aí que chegou o urubu. Deu um vôo rasante afastando as três gaivotas para uns três metros adiante. Pousou, posou e começou a comer o peixe da outra, sozinho, autoritário, dono do pedaço, todo vestido de preto. Foi então que chegaram mais umas cinco brancas gaivotas, bateram asas, fizeram um estardalhaço danado e o urubu fugiu. De medo. Ficaram todas elas a olhar o urubu sumir lá para o lado do continente.

E a primeira gaivota voltou a comer o seu peixe enquanto umas cinco ficavam ao seu redor – já disse – como leões de chacará. Mas o urubu não havia desistido. Foi buscar um companheiro. Aliás, dois. Chegaram os três carteando marra e afastaram as gaivotas.

Foi quando eu – que não sou nem gaivota e muito menos urubu - resolvir intervir. Dei um grito. E você acredita que só os urubus voaram? As gaivotas me olharam, sentiram a cumplicidade e dividiram rapidamente o peixe antes que chegassem uns dez urubus.

Moral da história: o urubu sabia que estava errado, tanto é que fugiu. Todo urubu é culpado.

Moral da história II: basta gritar que a gente fica mais feliz. Só não precisa gritar no celular, pois isso já foi resolvido no Brasil.