Acordo cedo aqui na ilha onde moro. E – tem
dias – que chego até a ver o primeiro noticiário da televisão. E as notícias
normais que aparecerm ali... você sabe. Tão normais que fiquei mal e fui
para a praia aqui na frente. É sol, é sal, é sul, já disse o poeta há uns
quarenta anos.
O que eu vi lá na praia foi o seguinte:
Uma gaivota mergulhou e fisgou um peixe dentro
da água. Mas não dava para engolir de uma vez, como elas sempre fazem. Era
um pouco grande para sua fina garganta. Trouxe para a areia. Eu, a uns vinte
metros, de olho na cena. O peixe ainda vivo, balançava-se todo. Ela colocou
uma perninha fina na cabeça do danado e foi bicando o corpo dele até que ele
ficassse sossegado, morto. E começou a comer o peixe. É a vida, minha
senhora. Nós comemos peixe também, não é?
Daí a pouco chegam mais duas gaivotas e tentam
repartir o apetite. Mas a dona no peixe não permite. Deve ter dito: tem
peixe pra todas, mas me deixa comer a minha parte primeiro. As outras duas
ficaram ali, como se gaivotas não fossem, mas leões de chacará, a proteger a
tranqüila comilança da primeira.
Estava tudo bem, todas felizes. Foi aí que
chegou o urubu. Deu um vôo rasante afastando as três gaivotas para uns três
metros adiante. Pousou, posou e começou a comer o peixe da outra, sozinho,
autoritário, dono do pedaço, todo vestido de preto. Foi então que chegaram
mais umas cinco brancas gaivotas, bateram asas, fizeram um estardalhaço
danado e o urubu fugiu. De medo. Ficaram todas elas a olhar o urubu sumir lá
para o lado do continente.
E a primeira gaivota voltou a comer o seu
peixe enquanto umas cinco ficavam ao seu redor – já disse – como leões de
chacará. Mas o urubu não havia desistido. Foi buscar um companheiro. Aliás,
dois. Chegaram os três carteando marra e afastaram as gaivotas.
Foi quando eu – que não sou nem gaivota e
muito menos urubu - resolvir intervir. Dei um grito. E você acredita que só
os urubus voaram? As gaivotas me olharam, sentiram a cumplicidade e
dividiram rapidamente o peixe antes que chegassem uns dez urubus.
Moral da história: o urubu sabia que estava
errado, tanto é que fugiu. Todo urubu é culpado.
Moral da história II: basta gritar que a gente
fica mais feliz. Só não precisa gritar no celular, pois isso já foi
resolvido no Brasil.