Meu amigo
de
infância
Sergio Antunes estava no
primeiro ano
de Direito em Bauru
no começo
dos anos
60. Tínhamos 17/18 anos.
Fui passar um fim
de semana
na
república
dele. Naqueles anos não
se falava noutra coisa
no Estado
de São
Paulo (e no Brasil, quiçá
no mundo):
a Casa
da Eny. Para não
machucar alguns ouvidos, eu
diria que era
uma casa
de
tolerância. Você
sabia que chama
de
tolerância porque
eram casas
autorizadas, toleradas pela polícia?
O termo
vem de Paris, é claro. Casa
da Eny era
o máximo.
A gente
ouvia dizer.
Não
eram como
as de Lins, da
inesquecível Vila São
João. Não,
eram moças de fino trato.
-
Vamos na Casa
da Eny?
Fomos no fusquinha dele (branco, velho
e sujo)
os dois, tensos, tesos
e
nervosos.
E duros,
ia me
esquecendo. Quando
paramos o carro
na frente
da casa, nos
deslumbramos. Havia uma grande fachada
de vidro
e do carro
a gente via
as meninas lá dentro.
E os homens
de terno
e gravata.
Olhamos em volta
e o pior carro era um
Simca Chambord
Presidente.
De Cadilac pra cima. Nem
ousamos descer.
É que
a gente
foi achando que elas
iam ficar conosco porque
éramos jovens, bonitos,
inteligentíssimos. Voltamos para
a
república
e ao velho, bom
e barato
Carlos Zéfiro.
Pois agora,
40 anos depois,
entrei na casa
da Eny pelas mãos
e dedos
do Lucius Mello. Ele
é autor
do livro
Eny e o Grande Bordel
Brasileiro. Calma, minha senhora, não
se trata
de livro
de sacanagem. Muito pelo
contrário.
A Pink Wainer, que
fez a belíssima capa,
colocou até
uma rosa
vermelha
no coração
da menina,
da jovem
e da idosa
Eny. Lucius não
é nem romano, nem
escritor
e nem
historiador. É
jornalista.
E fez um
trabalho que
o Fernando Morais
adverte no
prefácio:
"Prepare-se para levar um banho
de beleza,
de
história
e de
maravilhosa
literatura."
Mas
Lucius não
se atém apenas
à
trajetória
da figura. Não, começa sua
narrativa lá
na Itália, com
os bisavós de Eny, com
a saga
(saga mesmo, digna
de Janete Clair) da família
Cezarino, até chegar
à Eny e suas
meninas, ao Jânio (da Silva) Quadros,
ao Adhemar de Barros
(Fé em Deus Pé
na Tábua),
Emilinha Borba e outros menos
votados.
Impossível parar
de ler
e de se
apaixonar pela
Eny, desde
os seus
antepassados
italianos até
à sua
velhice. Jabor, faça o favor
de fazer logo
o filme.
E pode chamar
a Darlene Glória para fazer
a moça
na velhice. E, se quiser, eu
faço o roteiro. Tudo bem aí,
Lucius? Durante
os três dias que
fiquei a ler
a Eny, estiver a ouvir
o CD Tribalistas. Não
sei por que, mas
uma coisa
tem a ver com
a outra.
A palavra
tribalismo lembra tropicalismo. São dois
momentos
importantes
da música
brasileira. Quem
foi o cara que
resolveu juntar
os três?
Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte são
os tribalistas. Mas
tem os óculos escuros
do Raul Seixas, tem um novo baiano
e tem até
o planeta azul
e blue, o planeta
profundo,
o planeta
azulzinho do Yellow Submarine. The Beatles na cabeça.
Que coisa suave. Que negócio bonito que
deu. Ouvir
o CD e ver
o DVD, incluindo cenas
dos ensaios. Que momento
histórico!
No vídeo
tem uma hora que
estão os três
ensaiando uma música
e um sujeito
(fora
de cena)
atende o celular
o começa
a falar com um tal
de Gonzaga. E o papo
fica registrado no fundo.
Parece coisa
do
modernismo.
A cara
do Oswald de Andrade se celular
houvesse na época
dele.
A
Eny iria adorar
os Tribalistas, eu
tenho certeza,
se estivesse viva, hoje com
85 anos.
No Natal
da sua casa
(sim,
fazia as festas
de Natal)
iria tocar
Mary Cristo:
"Papai
Noel, Momo
do céu." Isso
deve ter
sido sacada
do Arnaldo: Papai
Noel deve ser mesmo
o rei Momo lá
no céu. Em cima!
Fé em Deus
e pé
na taba.
"Os
tribalistas não
querem ter razão, não
querem ter certeza, não
querem ter juízo nem
religião.
Os tribalistas já não
entram em questão, não
entram em
doutrina, em fofoca ou
discussão.
Chegou o tribalismo no pilar
da
construção."
Construção
do Chico, sogro
do baiano?
Obrigado
Lucius, Arnaldo, Carlinhos, Marisa, Eny e Guilherme Ramalho que
fez o DVD
absolutamente
imperdível, como
o livro
da Casa
da Eny, como
o Tropicalismo, o Raulzito, os Novos Baianos,
The Beatles e o
Modernismo.