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O tribalismo e o grande bordel brasileiro

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o estado de s. paulo

27/11/2002

 


Meu amigo de infância Sergio Antunes estava no primeiro ano de Direito em Bauru no começo dos anos 60. Tínhamos 17/18 anos. Fui passar um fim de semana na república dele. Naqueles anos não se falava noutra coisa no Estado de São Paulo (e no Brasil, quiçá no mundo): a Casa da Eny. Para não machucar alguns ouvidos, eu diria que era uma casa de tolerância. Você sabia que chama de tolerância porque eram casas autorizadas, toleradas pela polícia? O termo vem de Paris, é claro. Casa da Eny era o máximo. A gente ouvia dizer.

Não eram como as de Lins, da inesquecível Vila São João. Não, eram moças de fino trato.

- Vamos na Casa da Eny?

Fomos no fusquinha dele (branco, velho e sujo) os dois, tensos, tesos e nervosos. E duros, ia me esquecendo. Quando paramos o carro na frente da casa, nos deslumbramos. Havia uma grande fachada de vidro e do carro a gente via as meninas lá dentro. E os homens de terno e gravata. Olhamos em volta e o pior carro era um Simca Chambord Presidente. De Cadilac pra cima. Nem ousamos descer. É que a gente foi achando que elas iam ficar conosco porque éramos jovens, bonitos, inteligentíssimos. Voltamos para a república e ao velho, bom e barato Carlos Zéfiro.

Pois agora, 40 anos depois, entrei na casa da Eny pelas mãos e dedos do Lucius Mello. Ele é autor do livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro. Calma, minha senhora, não se trata de livro de sacanagem. Muito pelo contrário. A Pink Wainer, que fez a belíssima capa, colocou até uma rosa vermelha no coração da menina, da jovem e da idosa Eny. Lucius não é nem romano, nem escritor e nem historiador. É jornalista. E fez um trabalho que o Fernando Morais adverte no prefácio: "Prepare-se para levar um banho de beleza, de história e de maravilhosa literatura."

Mas Lucius não se atém apenas à trajetória da figura. Não, começa sua narrativa lá na Itália, com os bisavós de Eny, com a saga (saga mesmo, digna de Janete Clair) da família Cezarino, até chegar à Eny e suas meninas, ao Jânio (da Silva) Quadros, ao Adhemar de Barros (Fé em Deus Pé na Tábua), Emilinha Borba e outros menos votados.

Impossível parar de ler e de se apaixonar pela Eny, desde os seus antepassados italianos até à sua velhice. Jabor, faça o favor de fazer logo o filme. E pode chamar a Darlene Glória para fazer a moça na velhice. E, se quiser, eu faço o roteiro. Tudo bem aí, Lucius? Durante os três dias que fiquei a ler a Eny, estiver a ouvir o CD Tribalistas. Não sei por que, mas uma coisa tem a ver com a outra.

A palavra tribalismo lembra tropicalismo. São dois momentos importantes da música brasileira. Quem foi o cara que resolveu juntar os três? Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte são os tribalistas. Mas tem os óculos escuros do Raul Seixas, tem um novo baiano e tem até o planeta azul e blue, o planeta profundo, o planeta azulzinho do Yellow Submarine. The Beatles na cabeça.

Que coisa suave. Que negócio bonito que deu. Ouvir o CD e ver o DVD, incluindo cenas dos ensaios. Que momento histórico! No vídeo tem uma hora que estão os três ensaiando uma música e um sujeito (fora de cena) atende o celular o começa a falar com um tal de Gonzaga. E o papo fica registrado no fundo. Parece coisa do modernismo. A cara do Oswald de Andrade se celular houvesse na época dele.

A Eny iria adorar os Tribalistas, eu tenho certeza, se estivesse viva, hoje com 85 anos. No Natal da sua casa (sim, fazia as festas de Natal) iria tocar Mary Cristo: "Papai Noel, Momo do céu." Isso deve ter sido sacada do Arnaldo: Papai Noel deve ser mesmo o rei Momo lá no céu. Em cima!

Fé em Deus e pé na taba.

"Os tribalistas não querem ter razão, não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião. Os tribalistas já não entram em questão, não entram em doutrina, em fofoca ou discussão. Chegou o tribalismo no pilar da construção." Construção do Chico, sogro do baiano?

Obrigado Lucius, Arnaldo, Carlinhos, Marisa, Eny e Guilherme Ramalho que fez o DVD absolutamente imperdível, como o livro da Casa da Eny, como o Tropicalismo, o Raulzito, os Novos Baianos, The Beatles e o Modernismo.