Só a certeza de não ter que continuar a engolir o
Zagallos e seus indigestos óculos já dá um refresco no ar até 2002. Pra mim, que
não tenho que ficar aqui quatro anos dizendo que a coisa não ia dar certo, e para você
leitor/a. Daqui pra frente vamos ter que engolir o Wanderley. De terno e tudo!
Unanimidade nacional, o homem é mesmo uma fera. Não resta
nenhuma dúvida de que é o melhor técnico brasileiro. Disparado, como se dizia
antigamente. E não é de hoje. Basta olhar o seu currículo. E tem a vantagem de não ter
perdido a Copa América, as Olimpíadas e duas Copas do Mundo. O homem é craque. Dá para
confiar. Esse a gente pode engolir.
Mas tem o terno. O terno do Wanderley.
Eu acho meio absurdo qualquer pessoa do Equador pra baixo
usar terno. Bermudas, inexplicavelmente, está do lado de cima. Terno é coisa de branco.
E nós, definitivamente, não somos brancos. Na melhor das hipóteses, pardos. Como o
Wanderley. Só que o Wanderley quer ser branco, quer ser elegante, quer ser até
que loucura! intelectual. Quer ser Primeiro Mundo, esquecendo-se de que, em
matéria de futebol, o Primeiro Mundo é aqui mesmo. Eles é que devem nos imitar.
Inclusive na nossa gostosa maneira de vestir.
Mas tem o terno. O terno do Wanderley me preocupa. Aliás,
como deve preocupar até a esposa dele:
Não vai com esse, Van, novinho. O banco do Pacaembu
é de cimento, vai amassar, vai rasgar. Vai chover, amor.
Me preocupa porque o Wanderley tem uma notória capacidade
e tesão de se elitizar. O terno lhe subiu à cabeça. Até aí tudo (mais ou menos) bem.
Mas ele cismou que todo mundo vai ter que usar terno. Entrou nessa o cara. E eu vi, com
muita tristeza, o genial treinador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes, que só deve ter
colocado terno para casar (e, mesmo assim, alugado), de terno e gravata, no banco de
reservas do Corinthians. Coitado do Valdir. Ele não conseguia nem virar o pescoço. Tava
duro, incomodado, louco para aquele sofrimento acabar. Maldade do Wanderley. Só pode ser
maldade. Segundo li, médico e massagista também terão seus pescoços massageados pela
gravata européia.
Wanderley, o homem multimídia, que estava em três
programas de televisão diferentes no último domingo, disse nas folhas de segunda:
Minha rotina não mudou. Está tudo normal.
Já começou a mentir o homem-gravata.
Li também que ele contratou uma agência de publicidade
para cuidar da agenda e da imagem dele. O nome da agência é Photo&Graphia. Como se
não bastasse os dois ph do português antigo, o trocadilho do título é de gosto tão
duvidoso como os cortes dos mencionados ternos. Meio pobre, meio pardo, meio Terceiro
Mundo. E o Wanderley coloca a imagem dele nas mãos daqueles trocadilheiros. Imagine o
nível de criatividade que vem por aí, de terno e gravata.
Leio ainda e, estarrecido, engulo que no dia
24, segunda-feira, ele deverá comparecer, como convidado do partido do Ciro, no Bar
Avenida, em São Paulo, para um debate com intelectuais e artistas. É isso mesmo que
você leu: um debate com intelectuais e artistas. O Brasil é demais! O que eu gosto no
Brasil é que é o país mais brasileiro do mundo! Intelectuais&Artistas, como
escreveriam seus mentores intelectuais. Se manca, Ciro!
Nunca é pouco lembrar, o Luxemburgo é o melhor técnico
do Brasil. Já o Wanderley...
Depois de engravatar a criatividade dele próprio e de toda
a comissão técnica, o meu medo é que ele estenda seus tentaculares conceitos como
modista, intelectual e artista para as chamadas quatro linhas do campo.
Já pensou, a Seleção entrando em campo para um amistoso
lá em Fortaleza, em pleno dezembro, de terno e gravata? Vincado calção azul, engomada
camisa amarela, torturante gravata verde com estrelinhas brancas e paletó axadrezado
verde-amarelo. Claro que, depois do aquecimento, eles tirarão o paletó para jogar.
Meu medo é esse. A elitização dos nossos craques a
partir de uma mente completamente européia. Meu medo é a gente perder a ginga. Perder a
molecagem.
É uma pena. O Luxemburgo sabe tudo de futebol. É um
prazer ver os times dele jogando. Já o Wanderley, como diria sua mulher:
Ah, Van, assim não. Tira pelo menos o paletó...
Relaxa e goza, cara. Sai dessa. Antes que o Ricardo
Teixeira lhe dê uma gravata.