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O terno do Wanderley

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ISTOÉ

1998

 


Só a certeza de não ter que continuar a engolir o Zagallo’s e seus indigestos óculos já dá um refresco no ar até 2002. Pra mim, que não tenho que ficar aqui quatro anos dizendo que a coisa não ia dar certo, e para você leitor/a. Daqui pra frente vamos ter que engolir o Wanderley. De terno e tudo!

Unanimidade nacional, o homem é mesmo uma fera. Não resta nenhuma dúvida de que é o melhor técnico brasileiro. Disparado, como se dizia antigamente. E não é de hoje. Basta olhar o seu currículo. E tem a vantagem de não ter perdido a Copa América, as Olimpíadas e duas Copas do Mundo. O homem é craque. Dá para confiar. Esse a gente pode engolir.

Mas tem o terno. O terno do Wanderley.

Eu acho meio absurdo qualquer pessoa do Equador pra baixo usar terno. Bermudas, inexplicavelmente, está do lado de cima. Terno é coisa de branco. E nós, definitivamente, não somos brancos. Na melhor das hipóteses, pardos. Como o Wanderley. Só que o Wanderley quer ser branco, quer ser elegante, quer ser até – que loucura! – intelectual. Quer ser Primeiro Mundo, esquecendo-se de que, em matéria de futebol, o Primeiro Mundo é aqui mesmo. Eles é que devem nos imitar. Inclusive na nossa gostosa maneira de vestir.

Mas tem o terno. O terno do Wanderley me preocupa. Aliás, como deve preocupar até a esposa dele:

– Não vai com esse, Van, novinho. O banco do Pacaembu é de cimento, vai amassar, vai rasgar. Vai chover, amor.

Me preocupa porque o Wanderley tem uma notória capacidade e tesão de se elitizar. O terno lhe subiu à cabeça. Até aí tudo (mais ou menos) bem. Mas ele cismou que todo mundo vai ter que usar terno. Entrou nessa o cara. E eu vi, com muita tristeza, o genial treinador de goleiros Valdir Joaquim de Moraes, que só deve ter colocado terno para casar (e, mesmo assim, alugado), de terno e gravata, no banco de reservas do Corinthians. Coitado do Valdir. Ele não conseguia nem virar o pescoço. Tava duro, incomodado, louco para aquele sofrimento acabar. Maldade do Wanderley. Só pode ser maldade. Segundo li, médico e massagista também terão seus pescoços massageados pela gravata européia.

Wanderley, o homem multimídia, que estava em três programas de televisão diferentes no último domingo, disse nas folhas de segunda:

– Minha rotina não mudou. Está tudo normal.

Já começou a mentir o homem-gravata.

Li também que ele contratou uma agência de publicidade para cuidar da agenda e da imagem dele. O nome da agência é Photo&Graphia. Como se não bastasse os dois ph do português antigo, o trocadilho do título é de gosto tão duvidoso como os cortes dos mencionados ternos. Meio pobre, meio pardo, meio Terceiro Mundo. E o Wanderley coloca a imagem dele nas mãos daqueles trocadilheiros. Imagine o nível de criatividade que vem por aí, de terno e gravata.

Leio ainda – e, estarrecido, engulo – que no dia 24, segunda-feira, ele deverá comparecer, como convidado do partido do Ciro, no Bar Avenida, em São Paulo, para um debate com intelectuais e artistas. É isso mesmo que você leu: um debate com intelectuais e artistas. O Brasil é demais! O que eu gosto no Brasil é que é o país mais brasileiro do mundo! Intelectuais&Artistas, como escreveriam seus mentores intelectuais. Se manca, Ciro!

Nunca é pouco lembrar, o Luxemburgo é o melhor técnico do Brasil. Já o Wanderley...

Depois de engravatar a criatividade dele próprio e de toda a comissão técnica, o meu medo é que ele estenda seus tentaculares conceitos como modista, intelectual e artista para as chamadas quatro linhas do campo.

Já pensou, a Seleção entrando em campo para um amistoso lá em Fortaleza, em pleno dezembro, de terno e gravata? Vincado calção azul, engomada camisa amarela, torturante gravata verde com estrelinhas brancas e paletó axadrezado verde-amarelo. Claro que, depois do aquecimento, eles tirarão o paletó para jogar.

Meu medo é esse. A elitização dos nossos craques a partir de uma mente completamente européia. Meu medo é a gente perder a ginga. Perder a molecagem.

É uma pena. O Luxemburgo sabe tudo de futebol. É um prazer ver os times dele jogando. Já o Wanderley, como diria sua mulher:

– Ah, Van, assim não. Tira pelo menos o paletó...

Relaxa e goza, cara. Sai dessa. Antes que o Ricardo Teixeira lhe dê uma gravata.