Outro dia fiquei aqui a falar da evolução da máquina de escrever para o
computador. Realmente, o computador mudou o mundo e a vida de todo mundo.
Assim como o fax há 15 anos (pensava que o fax era mais velho, né?), o
telefone no tempo do Pedro II e a roda sei lá quando. Fora a bola, pois
não fora ela, não existiriam 90% dos esportes.
Mas as pequenas invenções, aquelas a que não damos muita importância, me
encantam. O clipe, por exemplo. Inventado por um ilustre desconhecido, não
temos registro nem de quando, nem onde. Sabemos apenas para que serve. E o
mais interessante: não muda o formato nunca. Agora tem uns de plástico,
cheios de cores e outros lero-leros. Mas o formato é o mesmo. E assim ele
viverá mais alguns séculos enquanto existir papel no mundo (ou barra de
calça).
Pois ontem eu estava olhando para o termômetro na minha varanda, a marcar
a temperatura aqui para as minhas marinhas bandas. E, desde que me conheço
por gente, ele é igual. Como o de ver a temperatura do nosso corpo. Este,
o dos médicos, mudou um pouco. Agora tem uns digitais. Mas eu não confio
neles, não. Gosto daqueles que se colocam debaixo do sovaco e o médico
fica ali aqueles três minutos falando da vida dele, do tempo lá fora ou
mesmo do Corinthians. Já notou o papo enquanto o sujeito espera para saber
a sua temperatura? É um papo tremendamente frio.
Ao contrário do clipe (pequena peça de metal ou matéria plástica, usada
para juntar papéis, como descreve laconicamente o Houaiss), o termômetro
você encontra nas boas enciclopédias do ramo. Tudo começou com Galileu
Galilei no século 16. Depois veio o Daniel Gabriel Fahrenheit (1686-1736,
físico alemão), que introduziu o mercúrio e o seu nome e a sua temperatura
complicadíssima para virar Celsius (Anders Celsius, 1701-1744, astrônomo
sueco, quem diria) logo em seguida. E o aparelhinho está ali na varanda,
séculos antes da casa existir, cumprindo a mesma função do tempo do velho
e bom Galileu.
Se o aparelho não se modificou, a palavra tomou outros rumos. Uma greve,
por exemplo, pode ser o termômetro de um descontentamento. Quando um
sujeito fica furioso se diz que ele está esquentado. E por aí vai.
Quer outra coisa que não mudou nunca? O guarda-chuva. É sempre o mesmo,
desde a Idade Média. Um pedaço de pau, um pano e umas varetas. E um
trequinho lá em cima para fixar. Fora o pedacinho de pano que dá a volta
nele para depois se fechar. Não muda nunca.
E o grampeador? Quer coisa mais útil? Igualzinho a quando foi inventado,
talvez por um bancário que não era muito chegado ao clipe. Por falar
nisso, quem veio primeiro, o clipe ou o grampeador? E agora eu me lembrei
do nome de grampeador em Portugal. Em estando por lá, não se assuste se
alguém lhe pedir agrafos, para colocar no agrafador, para agrafar alguma
coisa. Parece que vai acontecer um crime, mas na verdade estarão lhe
pedindo grampos, para colocar no inofensivo grampeador, para grampear
alguma folha de papel.
E agora me responda; como é que se coloca o ar dentro das bolas de tênis e
de pingue-pongue? Quem foi que inventou isso? E a pipoca, quem foi que
descobriu que o milho podia virar pipoca? Coisas de cinema.
P.S. - Acabo de ser informado que o clipe foi inventado por um norueguês,
por volta de 1900. Me informa o jovem escritor Antonio Caetano: "Foi um
norueguês chamado Johan Vaaler. A patente é de 1900 e os cem anos do clipe
há dois anos devem ter merecido altas comemorações na Noruega. Lá o clipe
é um símbolo nacional que tem até monumento em praça pública - uma
gigantesca escultura, claro, em forma de clipe. Tão orgulhosos eles são do
invento que, durante a ocupação do seu país pelos alemães, na 2.ª Guerra
Mundial, os noruegueses passaram a usar um clipe na lapela como signo de
oposição e resistência. Belíssima e comovedora idéia transformar um objeto
banal em discreto signo de liberdade: impotentes diante da arrogante
brutalidade nazista, os noruegueses mostravam com seu gesto simples que
por dentro eles permaneciam livres, intactos e à espera - perigosamente à
espera."