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O Tênis

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o estado de s. paulo

17/07/2002

 


"Sapato de lona, couro, etc., usado na prática do tênis e de outros esportes, ou ainda com traje informal; sapato-tênis, basquete e (lus.) sapatilha."

Ando usando um tênis cheio de lero-lero. Daqueles que quando você pisa sente uma bolas na sola do pé, uns amortecedores. O proplema é que as pessoas olham e perguntam: onde você comprou tinha pra homem? Tudo bem, porque eu mesmo, ao comprar, ao ver o danado na vitrine, perguntei para a mocinha: é pra homem? Quando ela me disse que devia ser porque tinha até número 44, me senti homem suficiente para pedir um 40. Ele é tão sofisticado que não é preciso amarrar. Já vem amarrado.

E eu estou aqui com ele agora. Olhando para o jeitão dele e pensando: se tem uma coisa que evoluiu no mundo, foi o tênis. No meu tempo de jovem (foi outro dia mesmo) ele se chamava quedes (tem no dicionário até hoje) e era o mesmo para jogar tênis, basquete ou fazer aula de educação física. No social não era usado. Imagine ir ao cinema de quedes! Mesmo porque ele estava sempre sujo e dava chulé.

Até há bem pouco tempo era proibido entrar em alguns lugares de tênis. Mesmo que fosse americano e custasse muito mais que um simples sapato de couro todo arranhado. O senhor vai me desculpar, mas de tênis não pode. Por falar nisso, outro dia eu fui convidado para fazer uma palestra num elegante clube de São Paulo e a senhora foi logo avisando que era proibido entrar de tênis na sede social. Mas logo eu, minha senhora, que me casei de tênis (duas vezes!)?

Fora o tal clube, hoje o tênis é chique. E tem um modelo para cada atividade. Até para futebol de salão (que agora chama-se futsal. Pode?) tem um especial. Esse aqui, o meu, não sei para que serve. Pelo jeitão, deve ser para correr. Mas dá para enfrentar um outro casamento, também.

O tênis evoluiu tanto que hoje em dia manda até no futebol. Virou estilo das camisas de futebol de nove entre dez seleções da Copa do Mundo. O tênis contrata jogadores, organiza campeonatos de vários esportes em todo canto do mundo. Sem querer exagerar muito, o tênis dominou economicamente o mundo. Mandam e desmandam até na Fifa. Custam os olhos da cara e não o olho do pé.

Outro dia o Fernando Morais me mandou um e-mail (que eu coloquei no meu último livro Buscando o Seu Mindinho. Comprem, comprem!!!) dissertando sobre o tênis, meio justificando o fato dos homens (e mulheres) da nossa idade terem voltado ao velho e bom quedes:

"No final do seu mandato o presidente Bill Clinton recebeu na Casa Branca o escritor colombiano Gabriel García Márquez para uma entrevista. Ao ver Clinton de terno e gravata, e de tênis nos pés, Gabo quis saber se ele estava lançando uma nova moda para homens. O presidente americano disse que não, que não era moda, mas segurança. Segundo ele, as estatísticas demonstravam que a maioria dos homens que sofreram acidentes graves depois dos 50 anos (idade em que a cura de problemas ósseos é mais difícil), tinham sido vítimas de escorregões quando usavam sapatos de solado de couro.

Tempos depois ele voltaria ao assunto em uma entrevista a um talk show da TV americana. Dessa vez Bill Clinton contou que durante a ditadura militar brasileira ele vira uma foto insólita: o premiê canadense Pierre Trudeau desembarcando no Galeão para uma visita oficial ao Brasil, de paletó e gravata - e tênis brancos nos pés. Clinton achava que o dirigente canadense fizera aquilo para humilhar os militares brasileiros - e só muitos anos depois, ao comentar o assunto com o próprio Trudeau, soube que o gesto nada teve de ideológico: ele também usava tênis com medo dos tombos.

Agora eu entro e acrescento o seguinte: nas últimas semanas, vi duas celebridades políticas - ambas já bem passadas dos 50 - com os pés enfiados em reluzentes tênis. A primeira foi no dia 26, nas comemorações do aniversário da Revolução Cubana. Puxando uma passeata de 2 milhões de pessoas pelas ruas de Havana, lá estava Fidel Castro com seu velho uniforme verde-oliva e usando, no lugar dos coturnos, tênis novinhos em folha. Na Veja de duas semanas atrás aparece o ex-presidente José Sarney supervisionando as filmagens de um de seus livros. Calça de gabardine, camisa de colarinho abotoada nos pulsos... E nos pés? "Um par de sólidos e seguros tênis brancos."

Portanto, meu amigo, não sei se onde eu comprei o meu tênis "vendia para homem", o que eu sei é que não ando escorregando e ele já rendeu - pelo menos - uma crônica.