"Sapato de lona, couro, etc., usado na prática do tênis e de outros esportes, ou ainda com traje informal; sapato-tênis, basquete e (lus.) sapatilha."
Ando usando um tênis cheio de lero-lero. Daqueles que
quando você pisa sente uma bolas na sola do pé, uns amortecedores. O
proplema é que as pessoas olham e perguntam: onde você comprou tinha pra
homem? Tudo bem, porque eu mesmo, ao comprar, ao ver o danado na vitrine,
perguntei para a mocinha: é pra homem? Quando ela me disse que devia ser
porque tinha até número 44, me senti homem suficiente para pedir um 40. Ele
é tão sofisticado que não é preciso amarrar. Já vem amarrado.
E eu estou aqui com ele agora. Olhando para o jeitão
dele e pensando: se tem uma coisa que evoluiu no mundo, foi o tênis. No meu
tempo de jovem (foi outro dia mesmo) ele se chamava quedes (tem no
dicionário até hoje) e era o mesmo para jogar tênis, basquete ou fazer aula
de educação física. No social não era usado. Imagine ir ao cinema de quedes!
Mesmo porque ele estava sempre sujo e dava chulé.
Até há bem pouco tempo era proibido entrar em alguns
lugares de tênis. Mesmo que fosse americano e custasse muito mais que um
simples sapato de couro todo arranhado. O senhor vai me desculpar, mas de
tênis não pode. Por falar nisso, outro dia eu fui convidado para fazer uma
palestra num elegante clube de São Paulo e a senhora foi logo avisando que
era proibido entrar de tênis na sede social. Mas logo eu, minha senhora, que
me casei de tênis (duas vezes!)?
Fora o tal clube, hoje o tênis é chique. E tem um
modelo para cada atividade. Até para futebol de salão (que agora chama-se
futsal. Pode?) tem um especial. Esse aqui, o meu, não sei para que serve.
Pelo jeitão, deve ser para correr. Mas dá para enfrentar um outro casamento,
também.
O tênis evoluiu tanto que hoje em dia manda até no
futebol. Virou estilo das camisas de futebol de nove entre dez seleções da
Copa do Mundo. O tênis contrata jogadores, organiza campeonatos de vários
esportes em todo canto do mundo. Sem querer exagerar muito, o tênis dominou
economicamente o mundo. Mandam e desmandam até na Fifa. Custam os olhos da
cara e não o olho do pé.
Outro dia o Fernando Morais me mandou um e-mail (que eu
coloquei no meu último livro Buscando o Seu Mindinho. Comprem, comprem!!!)
dissertando sobre o tênis, meio justificando o fato dos homens (e mulheres)
da nossa idade terem voltado ao velho e bom quedes:
"No final do seu mandato o presidente Bill Clinton
recebeu na Casa Branca o escritor colombiano Gabriel García Márquez para uma
entrevista. Ao ver Clinton de terno e gravata, e de tênis nos pés, Gabo quis
saber se ele estava lançando uma nova moda para homens. O presidente
americano disse que não, que não era moda, mas segurança. Segundo ele, as
estatísticas demonstravam que a maioria dos homens que sofreram acidentes
graves depois dos 50 anos (idade em que a cura de problemas ósseos é mais
difícil), tinham sido vítimas de escorregões quando usavam sapatos de solado
de couro.
Tempos depois ele voltaria ao assunto em uma entrevista
a um talk show da TV americana. Dessa vez Bill Clinton contou que durante a
ditadura militar brasileira ele vira uma foto insólita: o premiê canadense
Pierre Trudeau desembarcando no Galeão para uma visita oficial ao Brasil, de
paletó e gravata - e tênis brancos nos pés. Clinton achava que o dirigente
canadense fizera aquilo para humilhar os militares brasileiros - e só muitos
anos depois, ao comentar o assunto com o próprio Trudeau, soube que o gesto
nada teve de ideológico: ele também usava tênis com medo dos tombos.
Agora eu entro e acrescento o seguinte: nas últimas
semanas, vi duas celebridades políticas - ambas já bem passadas dos 50 - com
os pés enfiados em reluzentes tênis. A primeira foi no dia 26, nas
comemorações do aniversário da Revolução Cubana. Puxando uma passeata de 2
milhões de pessoas pelas ruas de Havana, lá estava Fidel Castro com seu
velho uniforme verde-oliva e usando, no lugar dos coturnos, tênis novinhos
em folha. Na Veja de duas semanas atrás aparece o ex-presidente José Sarney
supervisionando as filmagens de um de seus livros. Calça de gabardine,
camisa de colarinho abotoada nos pulsos... E nos pés? "Um par de sólidos e
seguros tênis brancos."
Portanto, meu amigo, não sei se onde eu comprei o meu
tênis "vendia para homem", o que eu sei é que não ando escorregando e ele já
rendeu - pelo menos - uma crônica.