Você lembra quando São Paulo tinha garoa? Aquela
chuvinha fina, que não chovia nem molhava? Nunca me explicaram muito bem porque não
temos mais a garoa. São coisas do mundo, que acontecem, e a natureza não explica. A
obturação, por exemplo. Sou do tempo que a "obturação caia". Era normal a
obturação ( que nome!) cair. Com o avanço da ciência odontológica, hoje isso é raro.
Não caem mais nem a garoa nem, a obturação.
E o soluço? Já pensou no soluço? Há quanto tempo
você não tem uma crise de soluço? Não sei porque, mas acho que hoje as pessoas não
soluçam mais como se soluçava há uns anos atrás. Nem aquele soluço descrito pelo
mestre Aurélio como "fenômeno reflexo que consiste numa contração diafragmática
involuntária, espasmódica, que produz o início de movimento inspiratório, o qual
subitamente é detido pelo fechamento da glote, com a produção de ruído
característico", nem mesmo aquele outro tipo de soluço, o "pranto entrecortado
por inspiração ruidosa". O que se passa com o soluço? Obturaram o soluço? Faz
tempo que não ouço um desagradável e interminável soluço no escurinho do cinema.
Soluçávamos mais, muito mais, antigamente. E para
parar um soluço existiam fórmulas "infalíveis". Todo mundo conhecia um
método, uma maneira de se acabar com ele. "Tem um jeito que não falha", sempre
se adiantava um com para a solução. E a vítima do soluço era levada à malabarismos, a
verdadeiros exercícios de aeróbica, à contrações faciais, a auto-tortura. Cada
família tinha seu estilo, cada povo sua solução. Lembra?
- Tapar o nariz e a boca e ficar sem respirar o
maior tempo possível. A pessoa ia ficando roxa, bochecha inchada, quase explodia e nem
sempre o soluço passava.
- Encher bixigas de aniversário, uma atrás da
outra, até passar o soluço. Também quase matava o soluçante.
- Beber um copo de água de uma só vez, com o nariz
tapado. O coitado sempre engasgava.
- Tomar um copo de água com a cabeça voltada para
baixo, mas colocando a borda do copo nos lábios superiores, de ponta-cabeça. Sempre
molhada a sala toda e a cabeça do doente. E o soluço ria da cara da gente.
- Assoviar o hino nacional. Inteiro, num balada só.
- Levar um susto. Este era mais complicado porque a
pessoa sabia que ia levar um susto de alguém a qualquer momento e ficava preparada. Não
relaxava. Você tinha que distrair a vítima e, de repente, outra pessoa surgia e dava um
susto no soluçado. Tinha gente que morria do coração e ainda soluçava no caixão.
- Andar de cabeça para baixo, no mínimo dez
metros.
E mais milhares e milhares de soluções milagrosas.
Às vezes, o soluço passava. Mas voltava,
desafiador, vinte ou trinta minutos depois. Era um tormento, o soluço.
Tinha garoto que inventava que estava com soluço
para não comer, por exemplo. Ou até pra não fazer a lição de casa. Geralmente este
soluço falso tornava-se real depois, para desespero da criançada. Um castigo. E tinha
aqueles casos crônicos em que a pessoa passava o dia a soluçar. Aí os mais entendidos
no assunto vaticinavam: se ficar soluçando dois dias, morre! Era terrível.
Naquele tempo, quando estávamos com soluço,
pedia-se desculpas para as pessoas mais próximas. Por que? Era feio ter soluço? Soluço
era falta de educação? E soluçar ao telefone, então? Até explicar que se estava com
soluço para o interlocutor...
Já o outro soluço, o do pranto, podia-se e pode-se
combater com mais facilidade. Um alisar de cabelos na amada, um beijo na criança e o
soluço passa. "Tertuliano, abraçado ao cadáver, soluçava convulsivamente",
escrevia Artur de Azevedo. Ou Inglês de Souza, em Contos Amazonenses: "um deixava
naquela saudosa praia a mãe doente e entrevada, arrastada até ali para soluçar a
última despedida ao filho que partia para a guerra". Bonito. E se o filho tivesse
soluços na guerra? Onde estaria a mãezinha dele para salvá-lo?
Qual seria a solução? E aqui fica a última
pergunta: solução é um soluço grande? Daqueles sem solução?