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O "sexagenário"

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o estado de s. paulo

17/10/2001

 


Há um mês - ou coisa que o valha - escrevi aqui sobre a minha (e da minha geração) preocupação em estar me aproximando dos 60 anos e vir a ser chamado de sexagenário, palavra que abomino. Pedi ajuda aos universitários, digo, aos leitores. Como se dizia antigamente, choveram cartas e e-mails.

Metade sugerindo a palavra sexigenário (uns, até um y), não sei bem por quê.

Uma pessoa sugeriu sessentual, que eu gostei.

Mas foi pelo correio que dois septuagenários me comoveram. Um deles, o senhor Victor Pereira da Silva, aqui de São Paulo, capital, começa sua missiva (sim, septuagenário honesto escreve missivas) citando Oswald de Andrade "solenizando o vocábulo para rotular os sessentões, como segue: sex-appeal-genário".

E prossegue o meu amigo: "Bom gosto e criatividade não lhe faltaram ao criador. Assim, peço-lhe a gentileza de estudá-la melhor e, fazer como eu fiz, depois de usá-la por uma década da minha vida... embalsamando-a com finas e puras essências de ouro, nardo e mirra, para todo o sempre."

Bonito, seu Victorgenário!

O outro senhor, de Águas de Lindóia, interior de São Paulo, chama-se S. Oliveira Neves e vai logo informando que morou na minha Lins entre 32 e 37. Não, eu não me lembro dele. Mas o homem é um poeta.

"A melhor palavra para traduzir sua futura condição de sexagenário é óbvia: sexagemário. Não humilha, embora possa dar ares de cabotino. Mas nós saberemos compreender e perdoar um pequeno gesto de vaidade."

Obrigado, senhor S. E vejam o que ele escreveu logo a seguir:

"Entretando, na condição de já septuagenário, eu lhe diria que certa beatitude envolve a alma dos que alcançam os 60 anos e dessa beatitude decorre uma paz serena, que não tem comparação com nenhum dos outros prazeres antes conhecidos na vida. É a ausência do sofrimento causado pela ansiedade, pela vaidade e pelo espanto, porque nada mais surpreende nem molesta um sexagenário (sexagemário, no seu caso). É a passagem do signo do Ter para o signo do Ser, é a plenitude do gozo da alma. Mas não adianta lhe dizer isso agora. Você terá que passar pela experiência, sozinho. Hoje, só lhe resta rir e... esperar. Esperar para fruir."

Como você pôde observar, a septuagenariedade desses dois leitores é a prova definitiva que envelhecer é acalmar a própria vida.

Como foi bom, no meio de tanta correspondência deste mês, receber textos tão bem escritos e bem-humorados. Isso faz com que uma pessoa com 55 anos olhe para a frente com muita (e bota muita nisso) esperança de que a vida está apenas começando. Que venham os 60 e os 70 que a gente enfrenta com ouro (e prata), nardo e mirra, sem vaidade e sem espanto.

E como é bom saber que tenho leitores tão lúcidos e preocupados com um jovem como eu que ainda anda ansioso, vaidoso e espantado com o mundo.

Senhor S. e senhor Victor, os senhores me trouxeram muita paz. E, acho, que para os demais leitores também.

Adoraria saber o que os senhores andam pensando sobre essa guerra absurda de David contra Golias. Sim, foi David quem acertou as duas pedradas, não foi? Que o meu compadre Matthew Shirts me perdoe.