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O resgate do Candango

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Revista MotorShow

13/02/85

 


(em memória do meu companheiro e artista plástico Benetazzo, que fez a capa do meu primeiro livro)

Éramos comunistas. E românticos. Muito mais românticos do que comunistas. E corajosos. Tínhamos vinte e poucos anos. Estávamos em 1970. Os militares eram nossos inimigos. Qualquer militar. Roubávamos, assaltávamos, fazíamos guerrilhas. A gente era mesmo metido a besta.

Agora que os arquivos do Deops foram abertos ao público em geral e aos militantes em particular, fico com medo de ir lá ver a minha ficha e, simplesmente, não ter a minha ficha. Descobrir que nada que eu fiz naquela época cinzenta da nossa história, entrou para a história. Vou ficar muito frustrado. Sempre gostei de me gabar que fui preso duas vezes: uma durou uma tarde e a outra apenas uma noite fria. Será que entrei para a lista do Deops e posso me sentir herói daqueles tempos? Melhor deixar quieto.

Mas uma história que eu tenho certeza que nem o Deops nem os militares ficaram sabendo foi o caso do jipe do Benetazzo. O Benetazzo (que seria assassinado covardemente meses depois) tinha um Candango. O Candango era um jipe da DKW muito feio mas que trabalhava feito um candango (os construtores de Brasília, anos antes). E a gente era tão irresponsável que foi feito um assalto a banco com o Candango do Benetazzo. Depois do assalto (não, eu não participei do assalto, era muito covarde) o jipe ficou estacionado normalmente em frente ao Copan onde todos nós morávamos. Era muita cara de pau (cara-pintada?), romantismo, juventude e coragem.

O que importa é que um ou dois dias depois do assalto ao banco, o jipe do Benetazzo foi roubado. Por ladrões comuns. E, dias depois, os ladrões ligaram para o Benetazzo:

- Estamos com o seu Candango e estamos sabendo que ele foi usado no assalto do Banco. Ou vocês nos dão uma grana preta ou nós entregamos o carro para os militares com seu endereço e tudo.

Reunião urgente na casa do Benetazzo. Dinheiro para resgate tinha. O problema e o perigo era ir buscar o jipe. Novos contatos foram feitos na calada e na surdina da noite e a troca da grana pelo Candango ficou acertada que deveria ser feita numa garagem subterrânea da Major Sertório às três da manhã. E que não fôssemos em mais de dois.

Aquilo podia ser uma cilada dos militares ou da própria polícia. Era arriscado, mas alguém tinha que ir buscar o jipe. Não sei bem porque, mas os "escalados" fomos eu e o Toni. O Toni eu até entendia: tinha dois metros de altura e inspirava respeito. Mas eu? Vinte e três anos, funcionário exemplar do Banco do Brasil, magro feito um bambu, medroso e trêmulo? Tudo pela "causa". O dinheiro foi colocado na minha pasta entre livros de economia e matemática (eu estudava Economia na USP).

Quinze para as três estávamos atravessando a deserta Praça da República, a pé, a caminho do nosso grande destino. Andávamos em silêncio, passos firmes. E trêmulos.

- Estou com medo, disse ao Toni.

- Fica frio. Estou armado.

O medo aumentou e o frio na minha barriga idem.

Chegamos na porta do estacionamento e o Toni deu umas batidinhas sincronizadas na porta.

- É o código, ele me disse policialescamente.

A enorme porta de ferro rangeu e se abriu como num filme policial. Lá no fundo escuro, um sinal de lanterna nos apontava o caminho. Apenas um sujeito, com cara de meganha e o Candango. Não houve muito diálogo. Dei o dinheiro, o sujeito apontou o carro, enquanto conferia as notas em marco alemão. A chave estava na ignição. Minha perna tremia, queria sumir dali, ir para debaixo da cama da minha mãe. Ofereci o lugar de motorista para o Toni.

- Não sei guiar, ele disse.

Fui guiando. Pegamos o Benetazzo no Copan e ainda fomos comer uma carne no Sujinho. Com o Candango. Como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse tido o assalto ao banco, o resgate, a revolução de 64, as mortes e as torturas de dezenas, milhares de jovens como nós. Como se fôssemos apenas três estudantes da USP, comendo uma picanha no Sujinho.

Lá fora, nos esperando, o Candango, personagem e cúmplice, parecia sorrir.