(em memória do meu companheiro e artista plástico
Benetazzo, que fez a capa do meu primeiro livro)
Éramos comunistas. E românticos. Muito mais
românticos do que comunistas. E corajosos. Tínhamos vinte e poucos anos. Estávamos em
1970. Os militares eram nossos inimigos. Qualquer militar. Roubávamos, assaltávamos,
fazíamos guerrilhas. A gente era mesmo metido a besta.
Agora que os arquivos do Deops foram abertos ao
público em geral e aos militantes em particular, fico com medo de ir lá ver a minha
ficha e, simplesmente, não ter a minha ficha. Descobrir que nada que eu fiz naquela
época cinzenta da nossa história, entrou para a história. Vou ficar muito frustrado.
Sempre gostei de me gabar que fui preso duas vezes: uma durou uma tarde e a outra apenas
uma noite fria. Será que entrei para a lista do Deops e posso me sentir herói daqueles
tempos? Melhor deixar quieto.
Mas uma história que eu tenho certeza que nem o
Deops nem os militares ficaram sabendo foi o caso do jipe do Benetazzo. O Benetazzo (que
seria assassinado covardemente meses depois) tinha um Candango. O Candango era um jipe da
DKW muito feio mas que trabalhava feito um candango (os construtores de Brasília, anos
antes). E a gente era tão irresponsável que foi feito um assalto a banco com o Candango
do Benetazzo. Depois do assalto (não, eu não participei do assalto, era muito covarde) o
jipe ficou estacionado normalmente em frente ao Copan onde todos nós morávamos. Era
muita cara de pau (cara-pintada?), romantismo, juventude e coragem.
O que importa é que um ou dois dias depois do
assalto ao banco, o jipe do Benetazzo foi roubado. Por ladrões comuns. E, dias depois, os
ladrões ligaram para o Benetazzo:
- Estamos com o seu Candango e estamos sabendo que
ele foi usado no assalto do Banco. Ou vocês nos dão uma grana preta ou nós entregamos o
carro para os militares com seu endereço e tudo.
Reunião urgente na casa do Benetazzo. Dinheiro para
resgate tinha. O problema e o perigo era ir buscar o jipe. Novos contatos foram feitos na
calada e na surdina da noite e a troca da grana pelo Candango ficou acertada que deveria
ser feita numa garagem subterrânea da Major Sertório às três da manhã. E que não
fôssemos em mais de dois.
Aquilo podia ser uma cilada dos militares ou da
própria polícia. Era arriscado, mas alguém tinha que ir buscar o jipe. Não sei bem
porque, mas os "escalados" fomos eu e o Toni. O Toni eu até entendia: tinha
dois metros de altura e inspirava respeito. Mas eu? Vinte e três anos, funcionário
exemplar do Banco do Brasil, magro feito um bambu, medroso e trêmulo? Tudo pela
"causa". O dinheiro foi colocado na minha pasta entre livros de economia e
matemática (eu estudava Economia na USP).
Quinze para as três estávamos atravessando a
deserta Praça da República, a pé, a caminho do nosso grande destino. Andávamos em
silêncio, passos firmes. E trêmulos.
- Estou com medo, disse ao Toni.
- Fica frio. Estou armado.
O medo aumentou e o frio na minha barriga idem.
Chegamos na porta do estacionamento e o Toni deu
umas batidinhas sincronizadas na porta.
- É o código, ele me disse policialescamente.
A enorme porta de ferro rangeu e se abriu como num
filme policial. Lá no fundo escuro, um sinal de lanterna nos apontava o caminho. Apenas
um sujeito, com cara de meganha e o Candango. Não houve muito diálogo. Dei o dinheiro, o
sujeito apontou o carro, enquanto conferia as notas em marco alemão. A chave estava na
ignição. Minha perna tremia, queria sumir dali, ir para debaixo da cama da minha mãe.
Ofereci o lugar de motorista para o Toni.
- Não sei guiar, ele disse.
Fui guiando. Pegamos o Benetazzo no Copan e ainda
fomos comer uma carne no Sujinho. Com o Candango. Como se nada tivesse acontecido. Como se
não tivesse tido o assalto ao banco, o resgate, a revolução de 64, as mortes e as
torturas de dezenas, milhares de jovens como nós. Como se fôssemos apenas três
estudantes da USP, comendo uma picanha no Sujinho.
Lá fora, nos esperando, o Candango, personagem e
cúmplice, parecia sorrir.