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O REPÓRTER E O LINOTIPO

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O ESTADO DE S. PAULO

07/04/2004

 


Quando faço palestras em faculdades de jornalismo, os estudantes me fazem a mesma pergunta: você acha importante o diploma para se exercer a profissão?

Não sei, porque nunca freqüentei uma faculdade e não conheço os currículos. Mas sei que tem algumas matérias que eles não ensinam : português, reportagem e história universal da imprensa. Se ensinam, ensinam mal.

Os alunos saem de sem a mínima idéia da serventia da vírgula, por exemplo. Acham que tudo se resolve com reticências... E não se fazem mais repórteres como antigamente. Aquele que ficava até um mês na rua e chegava com um furo de reportagem. Sabe o que é furo, menina? Hoje os furos são armados no andar de cima, entre os poderosos. Quando dizem que a Veja derrubou o Collor com a denúncia do outro Collor, o Pedro, não foi obra de nenhum repórter. Alguém procurou a Veja. Recentemente, a Época publicou  o curta-metragem entre o Waldomiro e o Cascata (perdão, Cachoeira). Não foi nenhum repórter quem conseguiu aquilo. Foi alguém da oposição quem levou de bandeja. Hoje o jornalista fica oito horas dentro da redação lendo press-release. E dando uns telefonemas, mascando chicletes.

Um garotinho apresenta um assassino no rio e a imprensa engole. Um rapaz (consta que) matou seu pai e o jornalista fica sentado esperando que a polícia ache o assassino e uma coletiva. Ninguém sai da redação para procurar nada. O jornalismo de hoje é sedentário. Nem fumar na redação pode mais. Onde se viu um repórter sem um cigarro na boca, deixando cair a cinza no teclado?

Outro dia duas garotas (último ano de jornalismo, em São Paulo) me entrevistaram e eu falei em linotipo. Elas perguntaram o que era aquilo. Último ano de jornalismo e não saber o que fazia um linotipista é o mesmo que um formando de medicina desconhecer as mezinhas (com z, revisão) ou um advogado se formar sem saber o que é data vênia.

Estou escrevendo tudo isto, porque acabo de ler o livroCem Quilos de Ouro (e outras histórias de um repórter)”, do Fernando Morais, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Tenho a impressão que a simples leitura do livro vale por quatro anos de jornalismo universitário. O livro é uma aula de como fazer jornalismo, do que é um repórter e qual a sua função dentro de um jornal. Mais que uma aula, um curso, uma faculdade inteira.

Será que as faculdades de jornalismo mandaram seus alunos lerem o Fernando?

Será que as faculdades pedem aos seus alunos para lerem as antigas edições da revista O Cruzeiro, que chegava a tirar 700.000 exemplares nos anos 60? Aquilo ali é outra aula de reportagem. Uma revista investigativa. Será que eles ensinam quem foi Samuel Wainer e a revolução que ele fez na imprensa brasileira? Será que eles contam que o Rubem Braga foi para a segunda guerra mundial – no front – fazer crônicas? Sim, crônicas.

Será que alguém nas cátedras pode explicar que quiser não é com z?

Enfim, meu queridos alunos de jornalismo, leiam o livro do Fernando Morais. Vocês vão aprender muito mais do que colocaram na sua cabeça em quatro anos. Muito, muito mais.

E, por favor, senhores professores, citem o Ferreira Gullar: a crase não foi feita para humilhar ninguém...

E, para terminar, o que é mesmo um linotipo? E o que é mesmo um repórter?