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O QUENTE É O PURGATÓRIO

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o estado de s. paulo

1995

 


Quem for bonzinho vai para o céu. Quem for mauzinho vai para o inferno. Quem for mais ou menos vai para o purgatório purgar um pouco os seus pecados terrenos e aguardar o vestibular para o céu. Foi isso que nos ensinaram.

O medo do fogo eterno, já pensou? Mas eu acho que o pior no inferno não deve ser o fogo, não. Tenho a impressão que lá, você fica ouvindo o dia inteiro um imenso autofante informando "laranjas de Piracicaba, mangas de Atibaia, morangos do Embu", até te levar à total surdez e um infernal desespero.

E todo mundo é obrigado a trabalhar em repartição pública. São imensos balcões com várias máquinas de escrever e você datilografando oito horas por dia ofícios e mais ofícios, com dor de cabeça e ressaca do dia anterior. Todos ofícios exatamente iguais pedindo para mandarem o Hitler para outra repartição.

Acho que no inferno a programação de televisão só tem propaganda política. Já pensou, surgir a cada dez minutos o Enéas com a barba toda chamuscada, gritando "meu nome é Eneas"!!!

E o medo de sair à rua? Só tem bandido. E a corrupção do governo local? E os juros da Casa Bahia, meus Deus? E os times que não caem para a segunda divisão nem que chova canivetes? Um Maluf em cada esquina.

Já o céu é para onde vão os bons. Você pode imaginar a quantidade de beatas protuguesas, todas de preto, rezando terço em voz alta? E aqueles anjinhos branquinhos e bundundinhos tocando flauta todos desafinados e de saco cheio? E os anjos e suas trombetas?

A primeira pessoa que você vai encontrar lá vai ser o Pequeno Principe, todo loirinho.

E a organização que deve ser perfeita com horários para tudo. No futebol tem cartão azul para quem passar a bola para o adversário. Não há fraudes nas eleições e os políticos são desagradavelmente honestos. E aquelas nuvenzinhas eternamente estacionadas em cima da cabeça de cada um? E o Betinho fazendo campanha contra o excesso de comida?

Já, no purgatório, as coisas são diferentes. Apesar dos Mamonas Assassinas, você pode ouvir - ao vivo - John Lennon cantando. Imagine. Claro que a Marylin Monroe está lá. Leila Diniz e Lady Di. Dizem que o papa João XXIII, também.

No purgatório você pode fazer de tudo. E mais, sem culpa nenhuma. Lá você vai encontrar o Cazuza, o Flavio Império, o Caio Fernando Abreu todos revigorados, fortes, um compondo, o outro arquitetando e o Caio a escrever sobre rosas e jardins.

Nos fins de semana shows de graça com a orquestra do Glenn Miller, com 41 anos e mais criativo do que nunca. Não existe pecado do lado debaixo do purgatório.

E eu acho que Deus, com sua infinita sabedoria, também mora lá. Com certeza se encheu da mesmice do céu, daquelas beatas querendo se confessar com ele, o Próprio. Aquele cheiro de eterno jasmim.

Um dia ele deve ter ido fazer uma visitinha por lá, passou o poder para Jesus e de pois foi, de mala e cuia, para os prazeres eternos do purga, como o local é chamado pelos brasileiros. Só que Jesus, que não é trouxa nem nada, também foi, atrás da Madalena ou do Lázaro.

E os dois, lá, acabaram com esse negócio de celibato. Dizem que Jesus está encantado com a Leila Diniz, a quem chama de minha deusa. Já Deus, que tudo pode e sabe, é uma espécie de psiquiatra amador da Marylin Monroe que jurou (por Deus) para ele que foi assassinada pela CIA. Tanto é que o John Keneddy e o irmão estão no inferno, enchendo o saco dos vietnamitas.

Agora, o pior de tudo mesmo deve ser o limbo, que é para onde vão as criancinhas que morrem sem serem batizadas. Desde que existe o batismo. Devem ser milhões a chorar o dia inteiro. Haja fraldas descartáveis.

O quente mesmo é o purga, pessoal!