Quem for bonzinho vai para o céu. Quem for mauzinho
vai para o inferno. Quem for mais ou menos vai para o purgatório purgar um pouco os seus
pecados terrenos e aguardar o vestibular para o céu. Foi isso que nos ensinaram.
O medo do fogo eterno, já pensou? Mas eu acho que o
pior no inferno não deve ser o fogo, não. Tenho a impressão que lá, você fica ouvindo
o dia inteiro um imenso autofante informando "laranjas de Piracicaba, mangas de
Atibaia, morangos do Embu", até te levar à total surdez e um infernal desespero.
E todo mundo é obrigado a trabalhar em repartição
pública. São imensos balcões com várias máquinas de escrever e você datilografando
oito horas por dia ofícios e mais ofícios, com dor de cabeça e ressaca do dia anterior.
Todos ofícios exatamente iguais pedindo para mandarem o Hitler para outra repartição.
Acho que no inferno a programação de televisão
só tem propaganda política. Já pensou, surgir a cada dez minutos o Enéas com a barba
toda chamuscada, gritando "meu nome é Eneas"!!!
E o medo de sair à rua? Só tem bandido. E a
corrupção do governo local? E os juros da Casa Bahia, meus Deus? E os times que não
caem para a segunda divisão nem que chova canivetes? Um Maluf em cada esquina.
Já o céu é para onde vão os bons. Você pode
imaginar a quantidade de beatas protuguesas, todas de preto, rezando terço em voz alta? E
aqueles anjinhos branquinhos e bundundinhos tocando flauta todos desafinados e de saco
cheio? E os anjos e suas trombetas?
A primeira pessoa que você vai encontrar lá vai
ser o Pequeno Principe, todo loirinho.
E a organização que deve ser perfeita com
horários para tudo. No futebol tem cartão azul para quem passar a bola para o
adversário. Não há fraudes nas eleições e os políticos são desagradavelmente
honestos. E aquelas nuvenzinhas eternamente estacionadas em cima da cabeça de cada um? E
o Betinho fazendo campanha contra o excesso de comida?
Já, no purgatório, as coisas são diferentes.
Apesar dos Mamonas Assassinas, você pode ouvir - ao vivo - John Lennon cantando. Imagine.
Claro que a Marylin Monroe está lá. Leila Diniz e Lady Di. Dizem que o papa João XXIII,
também.
No purgatório você pode fazer de tudo. E mais, sem
culpa nenhuma. Lá você vai encontrar o Cazuza, o Flavio Império, o Caio Fernando Abreu
todos revigorados, fortes, um compondo, o outro arquitetando e o Caio a escrever sobre
rosas e jardins.
Nos fins de semana shows de graça com a orquestra
do Glenn Miller, com 41 anos e mais criativo do que nunca. Não existe pecado do lado
debaixo do purgatório.
E eu acho que Deus, com sua infinita sabedoria,
também mora lá. Com certeza se encheu da mesmice do céu, daquelas beatas querendo se
confessar com ele, o Próprio. Aquele cheiro de eterno jasmim.
Um dia ele deve ter ido fazer uma visitinha por lá,
passou o poder para Jesus e de pois foi, de mala e cuia, para os prazeres eternos do
purga, como o local é chamado pelos brasileiros. Só que Jesus, que não é trouxa nem
nada, também foi, atrás da Madalena ou do Lázaro.
E os dois, lá, acabaram com esse negócio de
celibato. Dizem que Jesus está encantado com a Leila Diniz, a quem chama de minha deusa.
Já Deus, que tudo pode e sabe, é uma espécie de psiquiatra amador da Marylin Monroe que
jurou (por Deus) para ele que foi assassinada pela CIA. Tanto é que o John Keneddy e o
irmão estão no inferno, enchendo o saco dos vietnamitas.
Agora, o pior de tudo mesmo deve ser o limbo, que é
para onde vão as criancinhas que morrem sem serem batizadas. Desde que existe o batismo.
Devem ser milhões a chorar o dia inteiro. Haja fraldas descartáveis.
O quente mesmo é o purga, pessoal!