Na fila do McDonald's, sábado de Natal:
- Dois número 1.
A mocinha:
- Guaraná ou Coca?
- Sem refrigerante, por favor.
Confesso não dominar ainda muito bem a escrita para
descrever a cara da mocinha quando eu disse que queria dois número 1, sem
refrigerante.
Ela respirou fundo, olhou bem pra mim:
- Não pode.
E fim de papo. É, ela não estava programada.
- Mas eu pago. Mas não quero refrigerante. Posso não
querer?
- É que o número um é um big, uma fritas e um
refrigerante. Pode ler ali.
Dei marcha-a-ré e fui para o botequim da esquina
comer um misto quente nada programado. Pelo retrovisor ainda vi a mocinha
me olhando, incrédula. Deve ser louco.
Esse tipo de conversa está acontecendo cada vez mais
no Brasil, um país que se programou eletrônicamente antes da hora. O que
era para facilitar, complicou. Já vi neguinho somando dez mais oito na
calculadora. E errando!
Outro exemplo. Num mesmo prédio eu tinha a Net no
apartamento 41 e no 103.
Mudei-me para o 102. Achei que no mesmo dia poderia
transferir uma das assinaturas para o outro apartamento. Do 103 para 0
102, por exemplo. Quatro metros de distância. E mais, no 102 eu já tinha o
fio extra. Ledo engano.
- Temos que marcar um dia para desligar o 41, outro
dia para o 103 e um terceiro dia para a nova assinatura. São programas
diferentes, equipes diferentes.
Olho para cima, respiro fundo, seguro o ar, me
contenho. A culpa não é da mocinha. O buraco é bem mais em cima. É que o
que eu queria não estava programado. Há alguns anos atrás, sem o Serviço
de Atendimento ao Consumidor (o popular SAC), sem os computadores, eu
faria a mesma ligação e uma voz diria:
- O Warte vai aí daqui a pouco.
E pronto.
Mas a coisa não parou aí. Dias depois (eu ainda sem
televisão) uma outra mocinha me liga para saber porque é que eu tinha
desistido de duas assinaturas. A Net queria-porque-queria saber como é que
eu ia dispensando assim sem mais nem menos duas linhas numa telefonada só.
Expliquei tudo de novo para ela. E ela me explica que
o sistema não tinha dado essa informação, que eu estava dispensado duas e
adquirindo outra. Ela disse que era um outro departamento. O que ela
queria saber é porque eu tinha desistido. Isso era com ela, disso ela
entendia. O problema de instalar no 102 não era com ela, entendeu?
O sistema. Isso tudo já tem quase um mês e eu estou
sem televisão. E com o sistema nervoso programado ao máximo.
Já desinstalaram do 41 e do 103. Dei até uma cantada
no rapaz para aproveitar a visita e quebrar o meu galho. Ele disse que
aguardasse.
Para aquele dia estava programada apenas a
desinstalação.
Aí eles marcaram um dia. Entre 8 da manhã e seis e
meia da tarde. Numa sexta-feira. Fiquei de plantão. Vieram com o número do
apartamento errado.
Procuraram o apto 132 num prédio de 12 andares.
Mandam eu ligar de novo.
Ligo. Primeiro a mocinha me pergunta: mas quem foi
que disse que era o 132?
Eu respondo: eu é que tenho que fazer essa pergunta.
Me pedem uma prova que eu moro no 102. Mando a prova. Eles marcam para o
dia 21. Não vieram. E pensam que ligaram dizendo que não vinham? Nada. Não
estava programado.
Continuo sem televisão. E elas terminam sempre assim:
a Net agradece a sua ligação. Que ligação, sem ninguém liga pra mim?
Por essas e outras que eu outro dia surpreendi os
espanhóis da Telefônica.
Tava tão complicado o sistema e a programação para
desligarem uma determinada linha que eu disse:
- Está bom, eu quero devolver o telefone. Não é
vender, não. Devolvo. Não quero mais.
Abismo no telefone.
- Devolver, senhor? Como assim? Mas isso nunca
aconteceu.
- Pois eu quero devolver. Não comprei? Não quero
mais. Devolvo. Não quero dinheiro, quero devolver.
- Não sei se pode.
- Eu quero devolver!!!
Dois dias depois, ela me pediu para mandar uma
cartinha dizendo que eu queria devolver a linha. Com ilustríssimo senhor e
tudo. Devolvi. Não quero mais saber.
Experimente mudar o débito automático para outra
conta. Experimente. Tente provar para alguém que o boleto bancário para
pagamento não chegou. Tente.
Tente ser moderno, Brasil, mas não deixe de pensar,
não deixe de ser humano.
Um número 1 sem refrigerante, por favor.
E em que televisão eu vou assistir hoje o meu São
Caetano?