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O programa não aceita

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o estado de s. paulo

27/12/2000

 


Na fila do McDonald's, sábado de Natal:

 

- Dois número 1.

 

A mocinha:

 

- Guaraná ou Coca?

 

- Sem refrigerante, por favor.

 

Confesso não dominar ainda muito bem a escrita para descrever a cara da mocinha quando eu disse que queria dois número 1, sem refrigerante.

 

Ela respirou fundo, olhou bem pra mim:

 

- Não pode.

 

E fim de papo. É, ela não estava programada.

 

- Mas eu pago. Mas não quero refrigerante. Posso não querer?

 

- É que o número um é um big, uma fritas e um refrigerante. Pode ler ali.

 

Dei marcha-a-ré e fui para o botequim da esquina comer um misto quente nada programado. Pelo retrovisor ainda vi a mocinha me olhando, incrédula. Deve ser louco.

 

Esse tipo de conversa está acontecendo cada vez mais no Brasil, um país que se programou eletrônicamente antes da hora. O que era para facilitar, complicou. Já vi neguinho somando dez mais oito na calculadora. E errando!

 

Outro exemplo. Num mesmo prédio eu tinha a Net no apartamento 41 e no 103.

 

Mudei-me para o 102. Achei que no mesmo dia poderia transferir uma das assinaturas para o outro apartamento. Do 103 para 0 102, por exemplo. Quatro metros de distância. E mais, no 102 eu já tinha o fio extra. Ledo engano.

 

- Temos que marcar um dia para desligar o 41, outro dia para o 103 e um terceiro dia para a nova assinatura. São programas diferentes, equipes diferentes.

 

Olho para cima, respiro fundo, seguro o ar, me contenho. A culpa não é da mocinha. O buraco é bem mais em cima. É que o que eu queria não estava programado. Há alguns anos atrás, sem o Serviço de Atendimento ao Consumidor (o popular SAC), sem os computadores, eu faria a mesma ligação e uma voz diria:

 

- O Warte vai aí daqui a pouco.

 

E pronto.

 

Mas a coisa não parou aí. Dias depois (eu ainda sem televisão) uma outra mocinha me liga para saber porque é que eu tinha desistido de duas assinaturas. A Net queria-porque-queria saber como é que eu ia dispensando assim sem mais nem menos duas linhas numa telefonada só.

 

Expliquei tudo de novo para ela. E ela me explica que o sistema não tinha dado essa informação, que eu estava dispensado duas e adquirindo outra. Ela disse que era um outro departamento. O que ela queria saber é porque eu tinha desistido. Isso era com ela, disso ela entendia. O problema de instalar no 102 não era com ela, entendeu?

 

O sistema. Isso tudo já tem quase um mês e eu estou sem televisão. E com o sistema nervoso programado ao máximo.

 

Já desinstalaram do 41 e do 103. Dei até uma cantada no rapaz para aproveitar a visita e quebrar o meu galho. Ele disse que aguardasse.

 

Para aquele dia estava programada apenas a desinstalação.

 

Aí eles marcaram um dia. Entre 8 da manhã e seis e meia da tarde. Numa sexta-feira. Fiquei de plantão. Vieram com o número do apartamento errado.

 

Procuraram o apto 132 num prédio de 12 andares. Mandam eu ligar de novo.

 

Ligo. Primeiro a mocinha me pergunta: mas quem foi que disse que era o 132?

 

Eu respondo: eu é que tenho que fazer essa pergunta. Me pedem uma prova que eu moro no 102. Mando a prova. Eles marcam para o dia 21. Não vieram. E pensam que ligaram dizendo que não vinham? Nada. Não estava programado.

 

Continuo sem televisão. E elas terminam sempre assim: a Net agradece a sua ligação. Que ligação, sem ninguém liga pra mim?

 

Por essas e outras que eu outro dia surpreendi os espanhóis da Telefônica.

 

Tava tão complicado o sistema e a programação para desligarem uma determinada linha que eu disse:

 

- Está bom, eu quero devolver o telefone. Não é vender, não. Devolvo. Não quero mais.

 

Abismo no telefone.

 

- Devolver, senhor? Como assim? Mas isso nunca aconteceu.

 

- Pois eu quero devolver. Não comprei? Não quero mais. Devolvo. Não quero dinheiro, quero devolver.

 

- Não sei se pode.

 

- Eu quero devolver!!!

 

Dois dias depois, ela me pediu para mandar uma cartinha dizendo que eu queria devolver a linha. Com ilustríssimo senhor e tudo. Devolvi. Não quero mais saber.

 

Experimente mudar o débito automático para outra conta. Experimente. Tente provar para alguém que o boleto bancário para pagamento não chegou. Tente.

 

Tente ser moderno, Brasil, mas não deixe de pensar, não deixe de ser humano.

 

Um número 1 sem refrigerante, por favor.

 

E em que televisão eu vou assistir hoje o meu São Caetano?