Antes de examinarmos como mais atenção a foto ali do
lado, vou contar uma história vivida pela atriz Regina Casé. Houve uma
época em que as mulheres do Rio e São Paulo (algumas) inventaram a moda de
fazer um topetinho com laquê logo acima da testa. Ficava ali uma espécie
de murinho. Aliás, as aeromoças da TAM ainda usam o topetinho. A Regina
foi fazer um espetáculo numa cidade do interior e quando a cortina se
abriu, ela teve um ataque de riso, que obrigou a produção a fechar
novamente o palco. Motivo: todas as mulheres da platéia estavam de
topetinho.
E o que tem a história da Casé com a foto ao lado?
Tudo.
Fui criado no interior. Nada se cria, tudo se copia.
Só que sempre exageram. Perdem um pouco - digamos - a noção do ridículo.
Mais ou menos, o que é bom para São Paulo é bom para o interior. Lembra a
frase "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Ou seja, o
Brasil é o interior do mundo. Mas tem vergonha, quer ser capital, quer ser
Primeiro Mundo, como se a vida lá fosse melhor.
Agora vamos à foto ao lado. Foi tirada aqui perto da
minha casa, nos Jardins. Apareceu um pó branco por lá, chamaram a polícia,
os bombeiros, o FBI e a CIA nacionais. Vejam as roupas dos dois homens.
Nem nos Estados Unidos deve existir coisa tão espalhafatosa. O Superman
fugiria deles. Só que os dois estão protegidos, né? Mas a um metro e meio
deles, isolados por uma fitinha, funcionários e populares observam os
mascarados e o "perigosíssimo" pó. Ali, na cara e nariz deles. Parece
coisa da turma do Planeta & Casseta. E, entre os heróis do povo e os
populares, um guarda a tudo observa. Vai ter história para contar em casa:
eu estive na guerra contra o terror.
Está certo o meu amigo José Gregori ao ameaçar com
fortes punições esses babacas que ficam mandando talco e outros pós, que
ficam dando trotes, num momento conturbado como o que estamos vivendo no
primeiro e no quinto mundo. Estamos nos fazendo de palhaços de nós mesmos.
Tudo isso porque virou moda o antraz e o pó. Mas
virou moda lá, gente. E aqui, todo mundo sabe que o antraz é combatido com
antibiótico que qualquer farmácia vende.
O antraz me lembrou do cólera, usado largamente pelo
Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Coisa de Caxias. Aconteceu uma
epidemia de cólera em terras paraguaias. Os soldados inimigos estavam com
cólera. O que fez o Brasil? Pegava os cadáveres dos mortos infectados e
amarrava com arame nos rios. Aquilo ia descendo e matando as populações
ribeirinhas. Ganhamos a guerra em nome da Inglaterra, hoje do Tony Blair.
Outro dia vi uma charge - acho que no Diário
Catarinense - com dois policiais diante de um pó branco. O primeiro
perguntava: antraz? No que o outro respondia: cocaína. E o primeiro,
aliviado: ah, bom!
Pronto, chegamos onde eu queria. Acho que o governo
brasileiro, já que quer entrar numa guerra a qualquer custo, deveria
combater um outro tipo de terrorismo. O das drogas. O pó da cocaína que,
para este sim, não existe antibiótico que cure. Deixem o antraz pra lá,
pessoal. Vamos fechar outras fronteiras.
Vamos olhar para dentro de nós mesmos. Vamos olhar
para este imenso interior do Brasil onde os jovens estão sendo corrompidos
pelas drogas pesadas. E deixar o antraz pra cima do Equador que eles se
entendem.
E sempre é bom lembrar que aqui no Brasil o antraz só
mata boi e ovelha. Ou melhor, matava. O pó que mata hoje é outro. E para
combatê-lo não precisa se vestir de americano, não.