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O pó emergente

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o estado de s. paulo

24/10/2001

 


Antes de examinarmos como mais atenção a foto ali do lado, vou contar uma história vivida pela atriz Regina Casé. Houve uma época em que as mulheres do Rio e São Paulo (algumas) inventaram a moda de fazer um topetinho com laquê logo acima da testa. Ficava ali uma espécie de murinho. Aliás, as aeromoças da TAM ainda usam o topetinho. A Regina foi fazer um espetáculo numa cidade do interior e quando a cortina se abriu, ela teve um ataque de riso, que obrigou a produção a fechar novamente o palco. Motivo: todas as mulheres da platéia estavam de topetinho.

 

E o que tem a história da Casé com a foto ao lado? Tudo.

 

Fui criado no interior. Nada se cria, tudo se copia. Só que sempre exageram. Perdem um pouco - digamos - a noção do ridículo. Mais ou menos, o que é bom para São Paulo é bom para o interior. Lembra a frase "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Ou seja, o Brasil é o interior do mundo. Mas tem vergonha, quer ser capital, quer ser Primeiro Mundo, como se a vida lá fosse melhor.

 

Agora vamos à foto ao lado. Foi tirada aqui perto da minha casa, nos Jardins. Apareceu um pó branco por lá, chamaram a polícia, os bombeiros, o FBI e a CIA nacionais. Vejam as roupas dos dois homens. Nem nos Estados Unidos deve existir coisa tão espalhafatosa. O Superman fugiria deles. Só que os dois estão protegidos, né? Mas a um metro e meio deles, isolados por uma fitinha, funcionários e populares observam os mascarados e o "perigosíssimo" pó. Ali, na cara e nariz deles. Parece coisa da turma do Planeta & Casseta. E, entre os heróis do povo e os populares, um guarda a tudo observa. Vai ter história para contar em casa: eu estive na guerra contra o terror.

 

Está certo o meu amigo José Gregori ao ameaçar com fortes punições esses babacas que ficam mandando talco e outros pós, que ficam dando trotes, num momento conturbado como o que estamos vivendo no primeiro e no quinto mundo. Estamos nos fazendo de palhaços de nós mesmos.

 

Tudo isso porque virou moda o antraz e o pó. Mas virou moda lá, gente. E aqui, todo mundo sabe que o antraz é combatido com antibiótico que qualquer farmácia vende.

 

O antraz me lembrou do cólera, usado largamente pelo Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Coisa de Caxias. Aconteceu uma epidemia de cólera em terras paraguaias. Os soldados inimigos estavam com cólera. O que fez o Brasil? Pegava os cadáveres dos mortos infectados e amarrava com arame nos rios. Aquilo ia descendo e matando as populações ribeirinhas. Ganhamos a guerra em nome da Inglaterra, hoje do Tony Blair.

 

Outro dia vi uma charge - acho que no Diário Catarinense - com dois policiais diante de um pó branco. O primeiro perguntava: antraz? No que o outro respondia: cocaína. E o primeiro, aliviado: ah, bom!

 

Pronto, chegamos onde eu queria. Acho que o governo brasileiro, já que quer entrar numa guerra a qualquer custo, deveria combater um outro tipo de terrorismo. O das drogas. O pó da cocaína que, para este sim, não existe antibiótico que cure. Deixem o antraz pra lá, pessoal. Vamos fechar outras fronteiras.

 

Vamos olhar para dentro de nós mesmos. Vamos olhar para este imenso interior do Brasil onde os jovens estão sendo corrompidos pelas drogas pesadas. E deixar o antraz pra cima do Equador que eles se entendem.

 

E sempre é bom lembrar que aqui no Brasil o antraz só mata boi e ovelha. Ou melhor, matava. O pó que mata hoje é outro. E para combatê-lo não precisa se vestir de americano, não.