Elas se instalaram dentro de uma porta de correr, aqui na minha casa. Uma
peça de madeira compensada, portanto oca. Não dava para colocar veneno lá
dentro. Mas os americanos já haviam pensado no meu problema.
É um negócio chamado isca. Você coloca por perto, a barata
sai do esconderijo come um negocinho ali, fica contaminada, volta para
perto das amigas e demais familiares e contamina todas. Morrem todas. Um
verdadeiro genocídio. Infectam as próprias filhas. Pior que HIV. Comecei a
me sentir o pior dos homens fazendo isto com as pobres baratas.
Sim, porque, cá entre nós, qual é o problema de conviver com
elas numa boa? Se você reparar bem, são até bonitinhas, lustrosas. Sim,
mas contaminam os alimentos. Contaminam tanto quanto qualquer mosquito
caseiro. São asquerosas, “têm sangue branco”! Se você já viu que elas têm
sangue branco é porque já deu uma chinelada numa delas.
“Quem quer casar com a dona Baratinha, que tem fita no
cabelo e dinheiro na caixinha?” Lembra que você cantava isso quando era
criança?
Resolvi fazer uma pesquisa sobre as minhas baratas. Comecei,
como sempre, pelo Houaiss: “Designação comum a todas as espécies de
insetos ortópteros da família dos blatídeos; as de hábitos domésticos, por
nutrirem-se de toda sorte de produtos, contaminam alimentos, têm odor
desagradável e tornam-se pragas sérias; carocha.”
Nenhuma informação nova a não ser o velho preconceito e
fazer me lembrar das histórias da carochinha. Procurei um especialista em
baratas, uma espécie de barateiro. E descobri coisas incríveis.
Em primeiro lugar, a barata é o animal que existe há mais
tempo na face da terra. A barata tem 400 milhões de anos; existe desde o
período devoniano. Portanto, quando surgiu o homo sapiens (depois do homo
habilis e do homo erectus – calma,minha senhora) há 100 mil anos, a barata
já andava por aqui há 399.900.000 anos. Donde se conclui que ela é que
deveria ter matado o intruso do homem e não o contrário como estamos
tentando fazer – inutilmente – há exatamente mil séculos. E neste tempo
todo, ela nunca mordeu ninguém.
E, neste longo e tenebroso (para elas) tempo de vida, a
barata foi desenvolvendo mecanismos de defesa para sobrevivência. Não é
apenas o homo sapiens que é seu inimigo. Gaviões, cobras e galinhas comem
baratas.
Mas a verdade é que o homem perdeu a guerra contra as
baratas. Não adianta o Pentágono entrar na briga. Esta, já perdemos.
E dizem os barateiros que, quando houver uma explosão
nuclear, uma guerra atômica, que vai dizimar toda a humanidade, apenas
elas, as baratas, sobreviverão. Pense nisso com cuidado.
Um dia, tudo isto aqui será habitado apenas por elas. Elas
voltarão a voar, elas desenvolverão uma inteligência superior à nossa.
Surgirá a barata sapiens. E aí, minha amiga, quando começar a surgir de
novo o homem será esmagado por elas no seu nascedouro. Elas usarão venenos
e iscas incríveis contra nós. E reproduzirão felizes suas ootecas. Vide
dicionário.
Portanto, vamos parar de matar baratas e conviver
pacificamente com elas. Porque elas têm o poder, elas são o futuro da
humanidade. Elas ganharam a guerra.