No princípio era o ovo. Ou os ovos? E nasceu o
Pinto. Ainda pequeno, revoltava-se quando se referiam à senhora sua mãe como
"aquela Galinha". E mais: diziam que o pai tinha ejaculação precoce. Era um
"Galo".
E quando o dono deles dizia para a mulher?:
- Tou a fim de comer uma Galinha!
E a esposa, mais sem-vergonha ainda e submissa?:
- Ensopada?
E o filho deles que vivia ouvindo que não era para
mostrar o Pinto para as visitas? O que ele tinha de errado, afinal? Por que é que ele
não podia ser mostrado para o padre, por exemplo? Porque é feio, dizia a mãe. E padre
é santo e santo não tem Pinto.
Feio, ele? Com aquela cabecinha tão macia?
Mas o Pinto foi crescendo e ouvindo dos adultos
coisas que ele não entendia direito. Tipo: comer como pinto e cagar como pato. Só lá
pela adolescência que o Pinto foi entender isso.
E quando chovia e as pessoas diziam que estavam
molhadas como um pinto? Ele, o Pinto, molhado? Só de vez em quando.
E aqueles que falavam assim: isso é fácil, isso
pra mim é pinto! Isso irritava o nosso Pinto.
Já mais grandinho, resolveu mudar o nome para Peru.
Desde que ele ouviu alguém falando "tal coisa é do peru!". Passou a se chamar
de Peru. Sentia que, como Peru, era mais valorizado, mais enaltecido.
Mas começou a se preocupar seriamente quando
descobriu que o Peru morria na véspera. Mas tinha o seu lado bom: davam cachaça pra ele.
Mas o nosso Peru não morreu na véspera. Foi
envelhecendo galhardamente até que começou a ficar com o pescoço mole, todo enrugado,
cabisbaixo, cansado. Cada vez ficava mais difícil esticar aquele pescoço vermelho, todo
trêmulo.
Foi quando ele descobriu que o avô da família, já
caduco, foi advertido que não pegava bem um homem daquela idade mostrar o Peru para as
visitas.
- Por acaso o senhor já viu alguém aqui mostrando
o Peru para as freiras, papai?
É, mesmo na velhice ele não podia ser mostrado.
Ele, o Peru, devia mesmo amedrontar as pessoas. Principalmente quando tomava as suas
cachaças. Uma vez até ouviu uma mocinha dizer: Peru de bêbado não tem dono!
Mas, antes de tomar o último porre, o Peru, já
velho, não tendo mais o que fazer e onde meter-se, dedicou-se à leitura. Deve ter
morrido feliz. Descobriu um país com o nome dele, uma cidade cheia deles (Perus) e entrou
para a Barsa:
"O Peru centro-americano é menor que o Peru
comum (que é o nosso Peru, portanto maior que os cubanos, por exemplo), tem a cabeça
azul com saliências amarelo-avermelhadas, penas brilhantes semelhantes à do pavão,
grande papada e pequena crista amarela no alto da cabeça. Nunca foi domesticado."
Morreu na véspera do Natal. E, no Natal, foi comido
na mesma sala onde era proibida a sua presença. Morreu sem entender porque não se pode
mostrar, mas se pode comer. E, aquela mocinha, depois de limpar a boca com o guardanapo,
dizer, quase tendo um orgasmo.
- Esse Peru tá uma tesão!
Ou a velhilha desdentada, mas saciada:
- Pra mim, estava um pouco duro demais. Passou do
ponto...