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O pinto e o peru

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Revista FOCINHO (Esta crônica foi recusada pela Revista)

23/11/99

 


No princípio era o ovo. Ou os ovos? E nasceu o Pinto. Ainda pequeno, revoltava-se quando se referiam à senhora sua mãe como "aquela Galinha". E mais: diziam que o pai tinha ejaculação precoce. Era um "Galo".

E quando o dono deles dizia para a mulher?:

- Tou a fim de comer uma Galinha!

E a esposa, mais sem-vergonha ainda e submissa?:

- Ensopada?

E o filho deles que vivia ouvindo que não era para mostrar o Pinto para as visitas? O que ele tinha de errado, afinal? Por que é que ele não podia ser mostrado para o padre, por exemplo? Porque é feio, dizia a mãe. E padre é santo e santo não tem Pinto.

Feio, ele? Com aquela cabecinha tão macia?

Mas o Pinto foi crescendo e ouvindo dos adultos coisas que ele não entendia direito. Tipo: comer como pinto e cagar como pato. Só lá pela adolescência que o Pinto foi entender isso.

E quando chovia e as pessoas diziam que estavam molhadas como um pinto? Ele, o Pinto, molhado? Só de vez em quando.

E aqueles que falavam assim: isso é fácil, isso pra mim é pinto! Isso irritava o nosso Pinto.

Já mais grandinho, resolveu mudar o nome para Peru. Desde que ele ouviu alguém falando "tal coisa é do peru!". Passou a se chamar de Peru. Sentia que, como Peru, era mais valorizado, mais enaltecido.

Mas começou a se preocupar seriamente quando descobriu que o Peru morria na véspera. Mas tinha o seu lado bom: davam cachaça pra ele.

Mas o nosso Peru não morreu na véspera. Foi envelhecendo galhardamente até que começou a ficar com o pescoço mole, todo enrugado, cabisbaixo, cansado. Cada vez ficava mais difícil esticar aquele pescoço vermelho, todo trêmulo.

Foi quando ele descobriu que o avô da família, já caduco, foi advertido que não pegava bem um homem daquela idade mostrar o Peru para as visitas.

- Por acaso o senhor já viu alguém aqui mostrando o Peru para as freiras, papai?

É, mesmo na velhice ele não podia ser mostrado. Ele, o Peru, devia mesmo amedrontar as pessoas. Principalmente quando tomava as suas cachaças. Uma vez até ouviu uma mocinha dizer: Peru de bêbado não tem dono!

Mas, antes de tomar o último porre, o Peru, já velho, não tendo mais o que fazer e onde meter-se, dedicou-se à leitura. Deve ter morrido feliz. Descobriu um país com o nome dele, uma cidade cheia deles (Perus) e entrou para a Barsa:

"O Peru centro-americano é menor que o Peru comum (que é o nosso Peru, portanto maior que os cubanos, por exemplo), tem a cabeça azul com saliências amarelo-avermelhadas, penas brilhantes semelhantes à do pavão, grande papada e pequena crista amarela no alto da cabeça. Nunca foi domesticado."

Morreu na véspera do Natal. E, no Natal, foi comido na mesma sala onde era proibida a sua presença. Morreu sem entender porque não se pode mostrar, mas se pode comer. E, aquela mocinha, depois de limpar a boca com o guardanapo, dizer, quase tendo um orgasmo.

- Esse Peru tá uma tesão!

Ou a velhilha desdentada, mas saciada:

- Pra mim, estava um pouco duro demais. Passou do ponto...