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O PEIXE

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ISTOÉ

1998

 


Nunca fui chegado a bichos. Jamais passou pela minha cabeça comprar um peixe. Eu ia passando por uma rua ali em Pinheiros e ele estava quase que na porta. Dentro de um aquário. Senti que ele me olhou, o peixe. Voltei, disfarcei e fiquei meio dentro da loja, olhando para ele. Sozinho.

– Dá trabalho?

– O quê?

– Cuidar desse peixe.

Não sei como o rapaz sabia, mas era uma peixe. Melhor ainda. Comprei a peixe. Vermelha, cintura fina. Tinha mesmo jeito de ser fêmea, feminina e não feminista. Se você tivesse pego o metrô em direção à estação da Augusta, teria me visto com a Teresa. Lá no fundo, todo envergonhado. Não ela, eu.

Não sei por que, coloquei em cima da televisão, mas percebi que ela fazia um esforço muito grande para ver o que eu estava vendo no vídeo e rindo tanto.

Era o horário político.

Peguei o aquário e coloquei numa mesinha, do meu lado. Ficamos os dois assistindo ao programa eleitoral gratuito – literalmente gratuito – quietos.

Eu adoro o horário eleitoral gratuito. Não existe nada melhor na televisão brasileira. Não há autor de novela que invente aqueles personagens, não há figurinista no mundo capaz de criar aqueles figurinos. E os cabelos das moças, cara? Abajures.

Eu ria, a Teresa também. No Maluf, ela dava cambalhotas em volta dela mesma, girava dentro do aquário, sempre pela direita. E quando apareceu um travesti e disse: "Meu nome é Talita, sou travesti e você – você aí – sabe muito bem onde é o meu ponto. Melhor votar em mim." E quando aparece a Marta, candidata a governadora em São Paulo? Que refresco, né Teresa? A tela se ilumina. Ainda há vida inteligente naquele horário. É com essa que eu vou, eu penso. Olho para a Teresa que parece dizer: Marta, por que não?

Mas os personagens que a gente – eu e a peixe – mais gosta são os candidatos a deputado. Tem que ter muita cara-de-pau, gente. Quanto homem feio, meu Deus! Deve ser condição sine qua non. Devia ter um testezinho de estética, digamos assim, antes. Tem uns que a cada eleição conseguem nos surpreender ainda mais. Aquele gordo do PTB deve ser candidato sempre. A impressão que dá é de que ele vai anunciar uma corrida de porcos em cima da mesa. Ele é eterno.

Já os candidatos a governador e presidente – os que têm mais de 2% – não são mais eles. Tem tanta gente atrás, que a gente não sabe mais qual é a deles. Tem gente imitando a campanha do Clinton, o que fuma mas não traga, trepa mas não penetra. Saudades do Ademar de Barros que era um só e não uma campanha de publicidade feita pelos mesmos caras que vendem sabão em pó e comida pra peixe. O Ademar, não, chegava em Lins e dizia: "Enquanto eu estou aqui, a Leonor, minha mulher, tá trabalhando lá na zona de Avaré." Isso é que era candidato. O slogan era "fé em Deus e pé na tábua". Pode ser melhor, mais brasileiro do que isso? Agora é fé no ibope e pé no saco. Ainda bem que tem aquele da bomba atômica para nos aliviar e avisar que nem tudo está perdido. Ainda existe um pouco de criatividade no ar.

Sinto que Teresa tem dormido na hora do Fernando Henrique. Não ouso acordar a peixe.

Tenho uma turma que também adora o programa e a gente se reúne cada dia na casa de um. Levam-se cerveja, salgados. é como combinar para ver o Oscar ou a Copa do Mundo. Foi quando eu comecei a levar a peixe comigo e o aquário. Meus amigos começaram a achar aquilo estranho. Uns acharam que era o programa eleitoral que estava me deixando – e a ela – daquele jeito. Outros diziam que estava na hora de um novo casamento.

Foi quando a Teresa começou a falar. Não muito nem tudo. Apenas uma frase. Tudo que acontecia, ela dizia: "Foi o Maluf que fez." Tudo.

Ela falar não era tão grave. Grave é que ninguém ouvia. Só eu. Um dia eu dei descarga e "foi o Maluf que fez"! O bordão pegou, pensei eu. Se até a peixe entrou na brincadeira, o negócio é sério.

Às vezes, quando acontecia alguma coisa diferente em casa – um garfo cair, por exemplo – eu olhava para ela e ela nem dizia mais, só confirmava com a cabeça. Mas, se eu estava de costas, ela verbalizava mesmo. Tudo, tudo, tudo.

Perdi a calma, na minha casa. Tudo era o Maluf que tinha feito. Foi a nossa primeira briga. Tapei a parte de cima do aquário com um pano grosso, mas lá do quarto eu ouvi quem é que tinha feito.

Não sei se por ciúmes ou simples gracinha, mas ela ouvia o meu orgasmo, lá da sala. Enquanto ela não falava eu não ficava tranquilo. Comecei a fazer coisas escondidas dela, nas costas dela, mas ela era implacável.

Ontem, finalmente, comi a Teresa.

E voltei ao velho programa do horário nobre com os meus amigos.

Mas ainda escuto a vozinha dela, como quem não tem nada a ver com o peixe: