Nunca fui chegado a bichos.
Jamais passou pela minha cabeça comprar um peixe. Eu ia passando por uma rua ali em
Pinheiros e ele estava quase que na porta. Dentro de um aquário. Senti que ele me olhou,
o peixe. Voltei, disfarcei e fiquei meio dentro da loja, olhando para ele. Sozinho.
Dá trabalho?
O quê?
Cuidar desse peixe.
Não sei como o rapaz sabia, mas era uma
peixe. Melhor ainda. Comprei a peixe. Vermelha, cintura fina. Tinha mesmo jeito de ser
fêmea, feminina e não feminista. Se você tivesse pego o metrô em direção à
estação da Augusta, teria me visto com a Teresa. Lá no fundo, todo envergonhado. Não
ela, eu.
Não sei por que, coloquei em cima da
televisão, mas percebi que ela fazia um esforço muito grande para ver o que eu estava
vendo no vídeo e rindo tanto.
Era o horário político.
Peguei o aquário e coloquei numa mesinha,
do meu lado. Ficamos os dois assistindo ao programa eleitoral gratuito literalmente
gratuito quietos.
Eu adoro o horário eleitoral gratuito.
Não existe nada melhor na televisão brasileira. Não há autor de novela que invente
aqueles personagens, não há figurinista no mundo capaz de criar aqueles figurinos. E os
cabelos das moças, cara? Abajures.
Eu ria, a Teresa também. No Maluf, ela
dava cambalhotas em volta dela mesma, girava dentro do aquário, sempre pela direita. E
quando apareceu um travesti e disse: "Meu nome é Talita, sou travesti e você
você aí sabe muito bem onde é o meu ponto. Melhor votar em mim." E quando
aparece a Marta, candidata a governadora em São Paulo? Que refresco, né Teresa? A tela
se ilumina. Ainda há vida inteligente naquele horário. É com essa que eu vou, eu penso.
Olho para a Teresa que parece dizer: Marta, por que não?
Mas os personagens que a gente eu e
a peixe mais gosta são os candidatos a deputado. Tem que ter muita cara-de-pau,
gente. Quanto homem feio, meu Deus! Deve ser condição sine qua non. Devia ter um
testezinho de estética, digamos assim, antes. Tem uns que a cada eleição conseguem nos
surpreender ainda mais. Aquele gordo do PTB deve ser candidato sempre. A impressão que
dá é de que ele vai anunciar uma corrida de porcos em cima da mesa. Ele é eterno.
Já os candidatos a governador e presidente
os que têm mais de 2% não são mais eles. Tem tanta gente atrás, que a
gente não sabe mais qual é a deles. Tem gente imitando a campanha do Clinton, o que fuma
mas não traga, trepa mas não penetra. Saudades do Ademar de Barros que era um só e não
uma campanha de publicidade feita pelos mesmos caras que vendem sabão em pó e comida pra
peixe. O Ademar, não, chegava em Lins e dizia: "Enquanto eu estou aqui, a Leonor,
minha mulher, tá trabalhando lá na zona de Avaré." Isso é que era candidato. O
slogan era "fé em Deus e pé na tábua". Pode ser melhor, mais brasileiro do
que isso? Agora é fé no ibope e pé no saco. Ainda bem que tem aquele da bomba atômica
para nos aliviar e avisar que nem tudo está perdido. Ainda existe um pouco de
criatividade no ar.
Sinto que Teresa tem dormido na hora do
Fernando Henrique. Não ouso acordar a peixe.
Tenho uma turma que também adora o
programa e a gente se reúne cada dia na casa de um. Levam-se cerveja, salgados. é como
combinar para ver o Oscar ou a Copa do Mundo. Foi quando eu comecei a levar a peixe comigo
e o aquário. Meus amigos começaram a achar aquilo estranho. Uns acharam que era o
programa eleitoral que estava me deixando e a ela daquele jeito. Outros
diziam que estava na hora de um novo casamento.
Foi quando a Teresa começou a falar. Não
muito nem tudo. Apenas uma frase. Tudo que acontecia, ela dizia: "Foi o Maluf que
fez." Tudo.
Ela falar não era tão grave. Grave é que
ninguém ouvia. Só eu. Um dia eu dei descarga e "foi o Maluf que fez"! O
bordão pegou, pensei eu. Se até a peixe entrou na brincadeira, o negócio é sério.
Às vezes, quando acontecia alguma coisa
diferente em casa um garfo cair, por exemplo eu olhava para ela e ela nem
dizia mais, só confirmava com a cabeça. Mas, se eu estava de costas, ela verbalizava
mesmo. Tudo, tudo, tudo.
Perdi a calma, na minha casa. Tudo era o
Maluf que tinha feito. Foi a nossa primeira briga. Tapei a parte de cima do aquário com
um pano grosso, mas lá do quarto eu ouvi quem é que tinha feito.
Não sei se por ciúmes ou simples
gracinha, mas ela ouvia o meu orgasmo, lá da sala. Enquanto ela não falava eu não
ficava tranquilo. Comecei a fazer coisas escondidas dela, nas costas dela, mas ela era
implacável.
Ontem, finalmente, comi a Teresa.
E voltei ao velho programa do horário
nobre com os meus amigos.
Mas ainda escuto a vozinha dela, como quem
não tem nada a ver com o peixe: