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O pé

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o estado de s. paulo

05/09/2001

 


Qual foi o garoto que não quis quebrar o pé quando era criança? Sempre tinha algum com o pé quebrado e toda a parafernália em torno do acontecimento. Eu ficava com inveja. Nunca quebrei o pé.

 

Agora, aos 55 anos, quebrei. O esquerdo. E estou completamente arrependido desse desejo de meio século. Já havia quebrado o joelho, mas não é a mesma coisa. O pé a gente apóia(va) no chão.

 

Mas isso é para eu aprender a parar de ser metido a jovem. Resolvi escalar umas pedras no mar para fazer bonito para uma moça. Não deu outra. Além de perder boa parte da pele do dedão (vamos deixar os detalhes para lá). Despenquei feito uma manga madura.

 

Estou aqui, sabadão, em Floripa, um sol de rachar lá fora e eu pensando num problema seriíssimo. Preciso tomar banho. Já andei fazendo uma pesquisa lá no banheiro. De chuveiro ou de banheira? Talvez fosse melhor no banheiro da empregada. Claro, um saco plástico. Mas teria de ter um barbante, um elástico, para prender a engenhoca.

 

Pensei num banho de imersão com o pé para fora. Pensei no chuveiro com a perna para fora. Mas em todas as possibilidades, sei que vou necessitar da ajuda de alguém. Não posso bater no vizinho - um argentino - e pedir que ele me ajude a tomar banho. Muito menos para a mulher dele, gaúcha.

 

O material lá no final da minha perna é pesado. E o médico que me atendeu disse repouso absoluto. Não dá. Tem aquelas necessidades todas que todos temos. Para sentar na privada, por exemplo, já percebi que tenho de ficar com a perna esquerda esticada. Mal caibo (que palavra!) no meu banheiro. E fazer certas coisas com a perna esticada, não dá mesmo. Tem de haver um certo molejo, um bater dos dedos do pé no assoalho frio. Não consigo mover os dedos. Além do mais, o dedão tem um curativo.

 

E aí você me pergunta: o que é que eu tenho a ver com o pé quebrado do cara? Desculpa, mas eu não consigo pensar em outra coisa. Juro que ia escrever sobre o Silvio Santos que, finalmente, teve 100% de ibope. E eu fiquei pensando com os meus botões e os meus dedos: tem alguma coisa nessa história que ainda não foi explicada. Os psicanalistas de plantão não se entenderam. Nem a polícia. O cara voltar lá...

 

Por uma macabra coincidência, a peça teatral que está no teatro do Silvio Santos, o Teatro Imprensa, trata de um caso de seqüestro de um diretor não de televisão, mas de teatro. Chama-se Eu Falo o Que Elas Querem Ouvir e é deste escriba aqui.

 

Nestes últimos meses passei a conviver com a Cintia Abravanel, filha do homem, uma figura doce e dinâmica. Passei a respeitar mais a figura e toda a família. Sofri com os dois casos. Não conseguia sair da televisão, pensando no sofrimento da Cintia.

 

O Silvio, lá dentro, era o pai de todos nós, não era mesmo? Foi bom descobrir como ele é querido. Aquilo tudo foi acompanhado por 80 milhões de brasileiros, de todas as classes sociais.

 

Mudei completamente de assunto, né? É que o pé está doendo. Uma dor parecida com esta instabilidade da nossa segurança.

 

O Brasil está doendo. E não adianta engessar, não. Tem mais é que trocar de pé.

 

P.S.: Mas tem uma vantagem. No embarque do avião, quando a mocinha disser "pessoas com problemas de locomoção primeiro", tou lá.